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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 2, número 1, jan./jun. 2002


 

ESPAÇO POÉTICO

 

Maria Felomena Souza Espíndola (Organizadora) 

Acadêmicos do Curso de Letras e de Ciências da Linguagem

 

Antologia 1

 

Sabrina Nunes Justino

Letras: Português/Inglês - 4º  semestre

 

Pedra

 

No arfar de seu peito

A música encontra o ritmo,

Na gota de suor em sua face resplandece

A luz que nunca o aquece

 

Incansada busca

Da forma que não pode ser tocada,

Reflexo que chega aos meus olhos

Do que realmente ânsia minha alma,

 

Levedo que fermenta em minha saliva

O travo do sabor impermanente

E a hipnose de pupilas condenadas,

Condenadas a reter o instante.

 

Segundos que são lampejos

Da luz minha que se curva ao seu vento,

Chama que resiste ao tempo

E a bocas que a sopram.

 

Em taça de sonho

Todo o seu sangue eu bebo.

No meu corpo introjeto a vida,

O que move o vento

 

Como reter o todo?

Se é ar,

Se flutua,

Se é cosmo?

 

De mãos vazias me deixa

Em peso de pedra,

Em silêncio de pedra.

A pedra em que seu vento apenas sibila.

 

 

 

Mundo

 

Que susto!

Uma palavra pode conter o mundo

Mundo? 

Sim! O mundo está contido no mundo que agora escrevo

Mas como?

Como pode aqui dentro caber o mundo?

E se o apago?

Que susto!

 

O mundo continua a ser mundo

 

 

 

Palavras

 

Observa-me o papel inerte e pálido

E o desvirgino sutilmente

Num rápido fino traço.

 

A primeira palavra ofegante nasce,

Porém sozinha não reflete

Assim, em olhos semicerrados,

Pego-o escorrendo inebriado,

Pensando que não pensa em si.

 

Descentralizar-s só em sonho, talvez consiga

Embrulhar a consciência e guadá-la

Numa vasilha com tampinha.

 

O que se movimenta na mente.

Surgem mais algumas

E se olham tão estranhas,

Orgulhosas se repelem.

 

Eis que uma nova se faz presente

E com toda sua graça estende

a mão envolvente

 

Então, unidas, mostram-se totalmente,

Acentuadas na semelhança

Pela repulsa anteriormente escondida.

 

E expande-se a corrente do significado,

O círculo eterno,

Eternamente complementável

 

 

 

Pensamento

 

Serpenteia em minha mente

Como água por rochedos,

Integralmente umedecendo-os.

 

Água que não pode ser contida,

Vigoroso e terno fluxo

De nascente desconhecida.

 

Tão presente que se faz ausente,

Sem som, cheiro ou cor,

Só de si mesmo consciente.

 

Antologia 2

 

Três poemas e três poetas 

  Em diálogo com a tela "cinco mulheres na estrada", de Kirchner

 

MULHERES:

 

corpos esguios

rostos maquiados

de frente, de lado,

na esquina...

à espera

 

MULHERES:

 

falsas silhuetas

presentes na noite,

ausentes no tempo

à espera do amante.

 

MULHERES

 

disputa acirrada

do eu e do seu,

por todos os lados,

até na esquina

 

MULHERES

 

busca constante

do encontro ausente

no corpo dormente

do prazer que não sente.

 

MULHERES

 

sangue nas veias, 

triste é o fim,

pobre de mim.

Maria Marcon Corrêa

Mestranda: Ciências da Linguagem

Reflexos

 

EU:

o claro

o arco

o mergulho

 

EU:

 

o escuro

a íris

o sonho 

 

NÓS:

 

o abraço

o círculo

o ciclo

o ovo.

Lisette Figueiredo

Mestranda : Ciências  da Linguagem  

A salvação pela palavra em assimetrias

 

Uma estrada escura, escassa de luz, 

Estava assim a minha vida,

Quando os números da Matemática a sufocavam

Junto com as matrizes e funções que a estrangulavam.

As luzes passaram a existir,

Quando me apaixonei pelas entrelinhas da Literatura.

A cada dia, a alma renascia com a dos escritores,

Mesmo quando os ignóbeis me criticavam.

Tentei fugir da Matemática o quanto podia,

Quando enxergava os números, mais eu morria

E ressuscitava com as minhas letras amigas.

Quando eu comecei a colocar  minhas idéias no papel,

Cada vez mais  minha’alma se engrandecia,

Porque o entrelace de palavras é a minha vida.

Rodrigo Uliano

Letras: Português/Inglês - 3º semestre

 

Antologia 3

 

Maria Felomena Souza Espíndola

Docente - UNISUL

E por lembrar-me de camões

 

Lianor ia pr’a fonte,

levava na cabeça o pote.

Chirlêi anda por aí:

nas fábricas,

nos roçados, 

nas estradas,

em barracas

e sob o teto das pontes.

Enfim, Chirlêi anda por aí,

leva um filho em tabernáculo,

no corpo.

 

Lianor, que tivesse tento,

na cabeça e coração, 

na beleza e no gingado,

mulher em moldura de cinta

de fino escarlate.

Não viesse a quebrar-se o pote,

e a água escorrer por aí,

vida esvaída...

 

Chirlêi, que se há de dizer a Chirlêi?

A bolsa há de romper-se,

e a vida anunciar-se.

Não venha, por nossa falta de tento,

a vida a perder-se por aí,

em tanto desamparo.

 

 

 

Abissal

 

Há uma nesga

de sonho

sobrevivente

ensolarando

a lágrima

que caminha o entardecer.

E a noite

em concha

carinhosamente a recebe

no abismo

das estrelas.

 

 

 

Nostalgia de flores e cigarras

 

Nem saberia dizer-te

de minh!alma, 

se esta calma,

mormaço-prenúncio

de tempestade,me sufoca.

 

Longe se vai

a inquietude,

de andorinhas

fugindo do inverno.

 

Nem a leveza dos sonhos,

asas coloridas e doidas,

flutuando entre as rosas,

me consola.

 

Abundância de outono

é o que te oferece

meu coração, 

saudoso

da ociosa imprudência

das cigarras.

 

 

 

Uma noite a amanhecer

 

Ribeiras de sal

São meus olhos, 

Agora que és

Só minh'alma.

Sem espaço

E só de tempo

Outra vez vou tecendo 

O teu nascer 

Na esperança.

Mas anoiteço em cada amanhecer.

Um dedo de prosa...

Mauri das Dores Coelho Corrêa

Docente - UNISUL

 

Afetos

 

Espalmadas no alto, estrelas brilhantes, afetos... flutuantes.

Vagando de forma caprichosa e com requinte, seguem... E, de repente, caem aqui e ali sobre a cabeça de milhões... Sem escolha, pirilampos sagazes, borboletas coloridas, libélulas, não sei, estão por aí...

Ao pensar onde encontrá-los, não  tenho respostas... Porque estão ao redor.

A busca insaciável de afeto fala de insatisfação, de algo que não está presente. Sua ausência, ou presença, caracteriza a personalidade do ser, seu espírito, sua face máscara, que deforma ou embeleza.

A afetividade está na força do querer, da busca, é estar na vida, é pensar na pessoa ou em algo que é parte de si e de outros.

Afeto não se compra, não se quantifica, nem se mede ou comercializa. Afeto é qualidade de ser.  Ser que se mostra, que se apega... mas, deixa ir...

Se este  presente, produz vida. Se ausente, esterilidade.

Instigado por seus perseguidores, só falta dizer estou aqui, na água que corre, na folha verde, na flor, na ave,  que no ar bate asas, mergulha, faz volteios, vôo rasante em busca de alimento.

Soberanos são estes afetos, e os outros? ... Estão no homem que passa ligeiro;  na criança que segue correndo atrás da bola;  no velho trôpego que, devagar, continua caminhando,testemunha de uma história;  na mulher, mãe, enfermeira, amiga, que sabe da palavra no momento certo, por vezes  severa ou até mesmo incauta...

Afeto, na ânsia de expressá-lo, escolhem-se atos, comportamentos, selecionam-se palavras. E, na angústia de que não sejam percebidos, nessa incerteza, buscam demonstrá-lo sem êxito, de forma desastrosa. 

Afeto está na natureza... é vida que pulsa, presença marcante, mesmo quando não compreendido.  Mesmo inconscientes todos têm seus afetos, mas a intensidade destes, sua qualidade é que faz o movimento,  a transformação. 

Transformar é seu papel.  Suas asas, no entanto, têm que ser imensas para abrigar aqueles a quem conquista ou o que conquista.

O conhecimento,que através do homem se faz presente, a descoberto, e pleno de afetividade, sabe ser seleto, intenso, eficaz, ciência... a que perpetua a vida.  Ações que fazem brotar comportamentos, proporcionando a significância desses afetos.

Afeto é ser, fazer, algo que traga a plenitude ao ser. 

Libere sua afetividade,  dê asas ao afeto... e comece a fazer...

Para a sua humanidade...

 

 

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