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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 2, número 1, jan./jun. 2002


 

CINCO ENSAIOS EM TOM DE ENSAIO 

Maria Felomena Souza Espíndola(Organizadora)* 

Acadêmicos do Curso de Letras** 

 

Resumo: Este texto propõe-se intertexto, abrangendo estudos que podem ser nomeados iniciação à produção científica, elaborados por acadêmicos do Curso de Letras, em Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira e Teoria da Literatura, sob forma de ensaios. Há um debruçar-se sobre o amor, primeiro em tentativas de conceituá-lo; depois, quando cantado por Petrarca, Dante, Camões, Guimarães Rosa,Leila Oliveira Daufenbach, Pedro Ayres Magalhães. E, por último, dirige seu olhar à função social do poeta, enunciada em um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Palavras-chave: Literatura, lirismo amoroso, função social. 

Resumé: Le texte se propose comme intertexte, en contennant des études que peuvent être nommés iniciation à la production scientifique par des étudients du Cours des Lettres, dans les disciplines, Littérature Portugaise, Littérature Brésilienne et Théorie de la Littérature, sous la forme d'essais. On cherche une connaissance de l'amour, d'abord vers des tentatives des concepts; d'après vers le sentiment poétique dit par Petrarca Dante, Camões, Guimarães Rosa, Leila Oliveira Daufenbach Pedro Aryes Magalhães. E, à la fin, dirige son regard à la fonction sociale du poète, énoncé dans un poème de Carlos Drummond de Andrade.

1 Preâmbulo

O que passo a introduzir é, efetivamente, ensaio. São textos elaborados por acadêmicos do Curso de Letras, em seus passos iniciais na competência para produção científica.

 Abrir espaço para estes textos, ao lado daqueles cuja maturidade científica atinge níveis que respondem à desenvoltura intelectual daqueles que os produzem tem, como objetivo, desencadear novos percursos, numa primeira imersão no labor científico.

Explico melhor este objetivo com as reflexões que seguem. Primeiro, considero importante lembrar que o conhecimento científico avança, quando o rigor aceita dar voz a enunciações menos ortodoxas. Não quero proclamar pseudociência. O que pretendo afirmar é que linguagens cristalinas, conduzem, também, investigações teórico-interpretativas, acrescentando leituras e concepções novas ao que se põe como objeto de pesquisa.

2 Amor: Grandes certezas, muitas incertezas

Terezinha A. Marcon Constante e Viviane Borges Goulart

Letras: Português/Inglês - 5º Semestre

 

Ferreira (l999), em seu dicionário, assim registra: “O amor é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem; ou de alguma coisa”. Este é um significado, mas esse termo “amor”tem sido usado em sentidos tão diferentes, que nenhum conceito consegue abrangê-lo, e cada tentativa de explicá-lo sempre exclui outras .

De acordo com Pereira (l987), relativamente ao amor, “o esforço de elucidar o tema parece dar, como resultado, apenas a percepção de sua complexidade”. Pensadores, filósofos, psiquiatras e estudiosos já tentaram desvendar esse mistério, que provoca sérias mudanças no comportamento humano, mas logo notaram a diversidade intrínseca do amor e jamais conseguiram estabelecer um conceito, menos ainda uma definição.

Segundo Rollo May (l987), distinguem-se, na cultura ocidental, quatro formas de amor: “Sexo, às vezes chamado de luxúria ou libido (ou, pelos gregos antigos, epytymia); Eros, impulso de procriação e criação; Philia ou amizade, amor fraterno; Ágape ou caritas, o amor devotado ao bem dos semelhantes, essência filosófica do cristianismo em sua doutrina original. 

Num conjunto de entrevistas objetivando conceitos de amor, para psicóloga Maria Tereza, “o amor é um sentimento que envolve sensações de prazer e bem-estar e que ocorre quando existe um senso de identidade entre pessoas com identidades bem definidas e diferenciadas”.  Para ela, o amor não se limita a preencher carências, mas significa uma relação de complementaridade e enriquecimento mútuo. O amor representa a essência da vida, nele se encontra um sentido para viver cada dia.

Ainda, a partir das entrevistas com pessoas de faixas etárias e níveis sociais diferentes, identifiquei outros conceitos importantes. Para uma estudante de jornalismo, l7 anos, “o amor é a união de todos os bons sentimentos. Envolve muitos mecanismos humanos (físicos, químicos, psicológicos), e torna-se realmente difícil defini-lo. Porém, arrisco-me a dizer que amar consiste em estar num inconstante estado de graça, numa perturbação interior involuntária. Compreende uma relação de bem-querer, cujo enigma nos é mostrado em cada gesto, intimidado, no entanto, por qualquer manifestação expressiva. No amor ocultam-se os verdadeiros mistérios da vida. 

Para Cleuza, 35 anos, deficiente visual, o amor está nas sensações e na natureza: “Escuto e sinto o vento, o barulho da folha que cai, sinto o cheiro do verde. Respiro e sinto calor, às vezes ouço a chuva tocando a terra. Ao ouvir e sentir, caminho para a vida que não vejo, buscando conhecer o que é amor”.

Para a professora Maria da Glória, 39 anos, “o amor é a aceitação do próximo”. E para Santana, 63 anos, mãe de l2 filhos, “o amor é para sempre, é uma fonte viva de fé, que fortifica e impulsiona a vida”.

Entrevistando crianças e adolescentes de uma escola pública, percebi que o amor ainda se revela puro e inocente, desejando o bem do próximo, reconhecendo a figura materna como o amor mais profundo e verdadeiro.

E remetendo-me, agora, a Platão, aí identifico o amor como desejo de união com o belo, um processo de ascensão espiritual que progride rumo a um estado de contemplação do cosmos, de comunhão com o Ideal, de que se constituem exemplos o amor de Dante por Beatriz e de Petrarca por Laura.

Situados entre as fronteiras do humano e do eterno, o amor e a esperança de felicidade, para Dante e Petrarca, ameaçam esvaziar-se com a morte de Beatriz e de Laura. Porém, Dante, em seu itinerário das trevas para a luz, coloca Beatriz na eternidade paradisíaca, porque acredita que ela tenha atingido o mais alto grau de pureza, passando a ser a ligação do humano com o divino. Beatriz, não a mulher, mas a essência, torna-se, para Dante, a representação de que o eterno se concebe, de que o reino de Deus se faz a partir do reino do homem e que isso acontecerá por intermédio da amada.

Beatriz é quem o guia no céu, simbolizando o conhecimento dos mistérios divinos. Ela conduz Dante até a morada do Criador e, lá, por um instante, ele desfruta da suprema visão de Deus, visão tão doce que palavras humanas não saberiam expressá-la. A idéia de tempo precário , para Dante, encerra-se na entrada do Paraíso, onde mora o Amor absoluto.

Para Petrarca, o passado é alimento indispensável ao presente. Amou Laura platonicamente a vida inteira, sem jamais declarar-se, e a ela dedicou seus melhoes poemas. Com a morte de Laura, o eterno ficou cristalizado no tempo, ou seja, no passado. Sua memória, sempre renovada pela saudade e lembrança de Laura, o consome. No passado, onde ficou a amada, está o suporte para sua existência: E só de nela pensar consigo paz.

Petrarca amou Laura, em vida, por 2l anos, De preso Amor vinte e um anos ardendo, sem esquecer sua beleza primeira. Ela a via com os olhos da alma, imortalizando-a em esperança e desespero: E assim de uma só clara fonte viva Vêm-me o doce e o amargo, que me alimentam. A ausência da amada fá-lo pensar na própria morte: Assim face aos cruéis golpes da morte / fujo não célere demais.

O amor em Dante e Petrarca transcende o plano terrestre e chega à abstração total, que a voz de Camões também tenta alcançar, como um dizer imponderável, porque imponderável é o Amor.

Analisar a poesia lírico-amorosa de Camões, é partir de reflexões sobre o sentimento que aflige os corações humanos. Sua poesia desvenda um “eu”que, guiado pela razão e pela emoção, experimenta os mais íntimos pensamentos e desejos, a insatisfação amorosa, a angústia do homem. O poeta não descreve o amor apenas como um sentimento impulsionado por desejos, mas que vem da alma. Na relação com a natureza, busca a “Cousa amada”, a alma ligada à natureza, no pranto amoroso:

Co’a água que cai

Daquela espessura,

Outra se mistura

Que dos olhos sai.

Toda junta vai

Regar brancas flores;

Onde há outros olhos

Que matam de amores.

Celestes Jardins:

As flores, estrelas;

Horteloas delas 

São uns serafins.

A presença da natureza torna-se sentimentos, angústia em busca do amor: 

Sinto o cheiro do verde, as flores caindo,

Os pingos da chuva, o vento.

Respiro quase sufocado,

Caminhando para conhecer o que é amor.”

São versos que fazem retornar a Cleuza, 35 anos, deficiente visual, que procura conhecer o amor através do cheiro, do vento. Para muitos poetas, a natureza estabelece uma relação essencial com a alma, em suas emoções mais profundas.

Na poesia de Camões, a insatisfação humana é representada na constante angústia de conceber o amor , na luta íntima entre o real experimentado e o ideal buscado, comunhão plena, a transformar, não os que se amam numa só carne, mas, mais que isso, numa só alma.

Transforma-se o amador na coisa amada,

Por virtude do muito imaginar:

Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada...

 

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si, somente, pode descansar,

Pois com ele tal alma está liada.

 

Mas esta linda e pura semidéia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim com a alma minha se conforma,

 

Está no pensamento como idéia, 

E o vivo e puro amor de que sou feito, 

Como a matéria simples, busca a forma.

É um processo de assujeitamento tão radical, que mesmo o que é contraditório nega a polaridade, rompe com o conceito de dor:

Amor é fogo que arde sem se ver:

É ferida que dói e não se sente.

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

A negação da polaridade quer dizer a vitória do sentimento, do coração que consegue elevar-se ao encontro da Razão, o Amor por ela vencido, não para ser aniquilado, mas sim para chegar ao inteligível, ao cósmico, ao Ideal, elevado a uma condição maior, sem comparativos:

Sempre a Razão vencida foi de Amor

Mas, porque assim o pedia o coração,

Quis amor ser vencido da Razão

Ora que caso pode haver maior.

Assim, no lirismo de Camões, o amor é visto como idéia e como manifestação de carnalidade. Camões não descreve uma mulher ideal, mas um ideal de mulher, um desejo que se supera, uma carnalidade que é sábia ao vencer-se pela contemplação, não de uma formosura ideal, mas de um ideal de formosura:

“Porém como resisto

Contra um tão atrevido e vão desejo?

Faço-me forte nessa vista pura.

Armando-me da vossa formosura...”

Uma outra vez é oportuno retornar às entrevistas. Para a estudante de Jornalismo, “o amor envolve muitos mecanismos físicos, psicológicos, químicos que causam uma perturbação interior”.Camões soube descrever toda essa “perturbação interior”. O amor como objeto do desejo, na lírica de Camões, é composto de sentimentos contraditórios que se tornam mistério e causa de inconformismo, para chegar ao amor como um inconstante “estado de graça”, mobilizador de profundas mudanças de estados de alma:

Mudam-se os tempos, mudam as vontades

Muda-se o ser, muda-se a confiança,

Todo mundo é composto de mudanças, 

Tomando sempre novas qualidades.

Camões esforça-se para encontrar uma essência das coisas, fruto de vivências, procura representar a experiência do homem, não como um sentimento individual, mas “Amor”que perturba, angustia, desespera, a razão de ser de um homem, de uma sensobilidade guiada pela esperança, na busca incessante da realização amorosa.

Como Petrarca amou Laura, e Dante a Beatriz, também Camões expressou o “Amor”elevado a sentimento universal, dividido entre o mundo sensível e o inteligível, um sentimento imponderável, um sofrer que mata, e, ao mesmo tempo, uma esperança que alivia. O “poeta do amor”, em seus poemas, fala da dor do homem, do descontentamento e da esperança. Em Camões a dor se aprimora, reconstruindo, pelo Amor, a harmonia dos corações humanos, na luta constante entre o ser e o que deve ser, mundo em desconcerto:

Quem pode ser no mundo tão quieto 

Ou quem terá tão livre pensamento

Ao ver e notar do mundo o desconcerto?

3 6Fragmentos da linguagem do corpo como linguagem do corpo como linguagem da alma, em "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa 

Leila Oliveira Daufenbach

Letras: Português/Inglês - 3º semestre 

 

Uma das formas de expressão do amor entre Riobaldo e Diadorim é a linguagem corporal. Chamam-nos atenção partes do texto onde Diadorim e Riobaldo usam alguns dos sentidos do ser humano, para demonstrar o amor que nutrem um pelo outro: E ele me deu a mão. Daquela mão, eu recebia certezas. Aqui o tato faz-se uma profunda demonstração afetuosa entre ambos.

Outro sentido enfaticamente utilizado no texto é o da visão (olhos: espelhos da alma). Diadorim e Riobaldo se amavam de alma para alma. Podemos observar isso no excerto:

Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Deu alma em cara. Advinhei o que nós dois queríamos - logo eu disse: - Diadorim! Diadorim! Com uma força de afeição. Ele sério sorriu. O sorriso de Diadorim também se correlaciona com o sentido da visão, pois é através da visão que Riobaldo pode observar Diadorim sorrir. Há outro fragmento que, mais uma vez, usa a visão para mostrar ao leitor a intensidade da paixão amorosa: E eu gostava dele, gostava. Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção, toda a vida: eu terçando, garantindo punindo por ele. Ao mais os olhos me perturbavam. Riobaldo podia ler o que estava escrito nos olhos de Diadorim, que ela precisava de proteção, que ele deveria protegê-la de tudo e de todos, mas a última frase, Ao mais os olhos me pertubavam, revela que nem tudo Riobaldo podia ler nesses olhos. Ele não sabia o porquê de os olhos de Diadorim o pertubarem tanto. Só ao final, em face da morte, essa perturbação em relação ao olhar de Diadorim se redime, como puro amor fiel, descoberta tardia que a alma sempre intuiu.

 

4 Em “parte minha”, de Leila Oliveira Daufenbach, da concretude à alma: Trilha do amor

Simone B. da Rocha

Letras: Português/Inglês: 3º semestre

 

Pude ver meu anjo, mais uma vez, naquela sexta à noite...

Tua face preciosa, teus olhos de querubim

que brilhavam tão tristes para mim,

que me amavam tão tristes...

Naquela noite em que a chuva nervosa

deu lugar à bonança,

quando nossos lábios se encontraram, tive vontade

de ser para sempre tua.

Queria te acolher em meus braços,

ocupar-me com tua alma de prata,

Queria contemplar para sempre teus olhos de esmeralda,

tê-los sempre voltados para minha alma.

Pude, também, meu amor, sentir tua pele macia e corada,

e, para mim, que proeza sentir, em minhas mãos,

o que os poetas chamam Perfeição.

Lembro-me, amor, das tuas lágrimas de anjo

e da tua partida todo sábado, deixando minha alma aqui, 

a espera de mais um fim de semana

a trazer-te novamente, 

para poder adorar, mais uma vez, 

minha parte mais preciosa

O poema Parte minha, escrito em estrofe única, é composto de vinte versos livres e assimétricos, dando um ar moderno à idéia de romantismo explicitada no poema.

A autora se utiliza de um anjo, para ilustrar e valorizar a figura do homem. Ao longo da história da Literatura, a idealização tem recaído, predominantemente,na mulher . E aqui, voltada ao homem, constitui um indício de modernidade aliada à voz feminina que se faz ouvir no jogo da sedução, antes prerrogativa masculina.

Além disso, a presença de fenômenos naturais, como a noite e a chuva nervosa, antíteses aqui, expressa a idéia de um silêncio rompido. Em outras palavras, sentimentos sufocados,explodindo em lágrimas, a chuva comparada ao pranto. Sendo o pranto água,deve- se ressaltar, então, que a mesma é usada, na mitologia e nos rituais de muitas religiões, para limpar e purificar. Logo, as lágrimas, neste poema, são bem-vindas, num primeiro momento.

Em seguida, a autora menciona desejos revelados depois do pranto, uma chegada da bonança, e cita partes do corpo a enlaçarem a alma, idealizando uma vez mais, o homem desejado,ao comparar sua alma à prata e seus olhos à esmeralda. Aqui, recorre-se à idéia de que os olhos são o espelho da alma. Sendo os olhos da pessoa amada como esmeralda, idealiza-se alguém de alma preciosa e tão misteriosa quanto a esperança.

Nos versos seguintes, a autora fala de pele, mãos e perfeição. A pele do homem, macia (sensível ao toque) e corada (febril), ressalta novamente os desejos que são satisfeitos, aqui, apenas com o toque das mãos.A isso a autora chama perfeição: um amor tão intenso, capaz de sucumbir com um simples roçar de pele. Esse amor perfeito é abençoado pelas lágrimas do anjo. São, outra vez, as lágrimas como purificação capaz de unir céus e terra (anjos e mortais) É uma união tão intensa, que nem a separação temporária obscurece.

Ao término do poema, constata-se que a experiência amorosa é complementação. O ser humano não se quer solitário e precisa de sua outra metade. Explica-se, assim, o título que deu nome ao poema : Parte minha.

5 Invocação de retorno: uma leitura de "Haja o que houver", de Pedro Ayres Magalhães

Marion Maldaner

Letras: Português/Inglês - 2º semestre

Haja o que houver

eu estou aqui

Haja o que houver

espero por ti

Volta no vento

ó meu amor

Volta depressa

por favor

Há quanto tempo

já esqueci

porque fiquei

longe de ti

Cada momento

é pior. 

Volta no vento

por favor

Eu sei, eu sei 

quem és para mim.

Haja o que houver,

espero por ti

Haja o que houver é um poema agraciado pela interpretação da soprano Teresa Salgueiro, acompanhada de composição harmônica primorosa, composta pelo próprio Pedro Ayres Magalhães. Entretanto, meu objetivo restringe-se à leitura da letra escrita, e procurarei, no decorrer desta análise, observá-la a partir da ligação entre características formais do poema e seu conteúdo.

Pedro Ayres Magalhães é um escritor português, que, ainda na adolescência, manifestou interesse pela arte e por instrumentos de cordas. Isso fez com que ele estudasse música durante vinte anos. 

Suas composições trazem, para atualidade, a poesia trovadoresca. Jamais se afastando de seus temas preferidos, o Espírito e o Amor, suas obras são retratos de momentos

fugazes, de emoções, feitas de sonhos e paisagens, esperanças e saudades, sem nunca esquecer o lugar onde nasceu, sem renunciar ao apego à “terra natal”.

O músico-poeta expressa, em suas letras, o amor à cultura portuguesa,com palavras impregnadas saudade, nostalgia e suavidade. Comprometido com essas emoções, Pedro Ayres, romântico e sentimentalista, escreve seus versos mergulhando na própria alma, em apelos, súplicas e numa eterna espera.

Haja o que houver foi composto em l997, integrando o álbum O paraíso, cujo o lema era evitar a solução final. Nesta letra, a espera incessante está presente no refrão, um recurso típico da poesia popular, das cantigas de amor e de amigo, como expressão do desgosto de amar e ser abandonado, de momentos de dores trazidos pela ausência.

Por um viés, pode-se afirmar que Haja o que houver fala do amor em ausência numa distância física. A morte da pessoa amada trouxe a amargura, o apelo, a esperança: Volta de-pressa... Volta no vento... .Entretanto, uma outra compreensão do poema coloca a pessoa amada numa distância emocional, diferente da distância física, pois, quando um deixou de amar, está insensível, apesar de ambos estarem presentes fisicamente.

Pertencente à Literatura Portuguesa, este poema coloca o amor como sentimento mais da alma que dos sentidos, que não arrasta, nem à morte e nem à desesperança, evoca traços trovadorescos, ainda que tenha sido escrito na atualidade, e o sentimento autenticamente lusitano, a saudade, encontra espaço, no dizer deste poeta contemporâneo.

Constituído por versos livres, sem maiores preocupações com a métrica, o poema é composto de vinte versos, numa linguagem onde os verbos merecem atenção. Conjugados no presente, pretérito e futuro, constroem imprecisão temporal. 

A insistência na metáfora, Volta no vento, clama por um retorno veloz, que se iguala a um vento uivante. É um clamor reiterado em outros versos, fixando a idéia de espera incansável.

Considerando o que foi analisado, vejo a importância deste poema que, como obra de arte, traz significados a se renovarem em cada dia, emergindo de um sentimento, de um instante.

6 Serenidade e medo: uma leitura de anoitecer, de Carlos Drummond de Andrade

Ivan Carlos dos Santos

Letras:Português/Ingles - 2º semestre

É a hora em que o sino toca, 

mas aqui não há sinos;

há somente buzinas, 

sirenes roucas, apitos 

aflitos, pungentes, trágicos, 

uivando escuro segredo;

desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,

mas de há muito não há pássaros;

só multidões compactas

escorrendo exaustas

como espesso óleo

que impregna o lajedo

desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,

mas o descanso vem tarde,

o corpo não pede sono, 

depois de tanto rodar;

pede paz-morte-mergulho

no poço mais ermo e quedo;

desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,

gasalho, sombra, silêncio.

Haverá disso no mundo?

É antes a hora dos corvos,

bicando em mim, meu passado,

meu futuro, meu degredo;

desta hora, sim, tenho medo.

(l945)

 Anoitecer, de Carlos Drummond de Andrade revela um poeta atento às coisas de seu tempo, o que motivou a análise a que me proponho, concentrada no exame do texto escrito por Drummond e de que buscarei, no decorrer do trabalho, uma abordagem a partir da união entre a característica formal do poema e seu conteúdo.

Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira nasceu em l902 e morreu em l987,ou seja, viveu praticamente durante todo o século XX e enriqueceu a Literatura Brasileira com uma vastíssima obra. Foi influenciado, de início, por Oswald e Mário de Andrade e depois, também, por Manuel Brandeira. Publicou seu primeiro livro, Alguma Poesia, em l930. Esta fase inicial de sua obra é marcada por poemas irônicos e breves e, principalmente, por sua vinculação ao primeiro momento do Modernismo brasileiro com o célebre poema No meio do caminho. Desde sua publicação, em julho de l928, o poema serviu como um divisor de águas, tornou-se o grande ponto da discórdia entre os tradicionalistas e os defensores da estética modernista.

Esta pesquisa está baseada no livro Fotobiografias, de Salvador Monteiro e Leonel Kaz, onde se encontram inúmeras fotos do poeta nas mais diversas situações, nas quais pude observar que Drummond quase não sorria, pouquíssimas fotos há em que ele aparece sorrindo. Esse fato chamou-me a atenção e veio comprovar-me o quanto o poeta é influenciado pelo cotidiano e pelo meio em que vive. Drummond teve um filho, em l927, o qual viveu apenas meia-hora, e há dois poemas seus sobre esse fato, Ser e O que viveu meia hora.

O QUE VIVEU MEIA HORA 

 

NASCER PARA não viver

só para ocupar

estrito espaço numerado

ao sol-e-chuva

que meticulosamente vai delindo 

o número

enquanto o nome vai-se autocorroendo

na terra, nos arquivos,

na mente volúvel ou cansada,

até que um dia,

trilhões de milênios antes do Juízo Final

não reste em qualquer átomo

nada de uma hipótese de existência.

 SER

O FILHO que não fiz 

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?

Lá onde eu jazia, 

responde-me o hálito,

não me percebeste,

contudo chamava-te

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo 

aspira a criar-se.

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo

Isso evidentemente o abalou e contribuiu, no meu entender, para um olhar sem brilho e de certa forma triste, evidenciado nas fotografias acima mencionadas. Outro momento que mostra o quanto o poeta é influenciado pelos acontecimentos, está representado no livro A rosa do povo, de l945, de onde foi extraída a obra-alvo da minha análise. Nele, o poeta mostra-se profundamente marcado, tanto pela Segunda Guerra Mundial (l939-l945), quanto pela experiência da ditadura do Estado Novo (l937-l945) no Brasil.

O poema Anoitecer, dedicado a Dolores, sua esposa, composto no ano de l945, ano do final da grande guerra e também do Estado Novo, período de profundas conturbações políticas em nosso país, bem como no resto do mundo, transmite a insegurança e incerteza daquela época. O texto conduz a reflexões sobre um período de triste memória para a humanidade e mostra a preocupação e a sensibilidade do poeta sobre um fato comum naqueles tempos: o medo.

É um poema de vinte e oito versos, metrificados em heptassílabos e hexassílabos, predominando os heptassílabos, em número de vinte e dois, divididos em quatro estrofes de sete versos, sendo que as duas últimas constituem-se integralmente de redondilhos maiores.

As anáforas, introduzindo as estrofes, vão convocando a uma atitude de serenidade que estabelece antítese com o medo expresso no refrão. A serenidade é necessária, porque é grande o medo, reiterado, reforçado pelo advérbio assim que, posicionado no centro do verso, também ocupa o centro das angústias humanas. A antítese continua com a conjunção adversativa mas, também anafórica introduzindo uma oposição na última estrofe, quando o poeta, pelo questionamento Haverá disso no mundo? nega essências positivas como delicadeza/gasalho, sombra e silêncio e afirma a hora dos corvos.

À arte competem duas grandes funções: uma, estética e outra, ética. O poema em análise , para além de seu valor estético, tem valor ético, ao trazer reflexões de ordem social.

A arte mostra aquilo que o homem comum não vê. Faz pensar, refletir sobre a realidade, tornando-a visível. Fazer-nos ver, prestar justiça ao mundo visível que nos cerca deve ser compromisso do poeta. Carlos Drummond de Andrade,em Anoitecer. chama a atenção para a hora sublime do entardecer, momento em que as igrejas do interior tocavam o sino, informando a hora da Ave-Maria. Mas faz ver, ao mesmo tempo,que a guerra calou os sinos. Lembra que, quando o sol se põe, os pássaros voltam aos abrigos,.Mas a guerra afastou os pássaros. A noite é a hora do descanso. Mas, como descansar, ouvindo os trovões dos canhões? É a hora do amor, da entrega, da intimidade. Porém, a guerra... a ditadura...

Quando faz uso de metáforas... sirenes roucas, apitos/aflitos, pungentes, trágicos,/uivando escuro segredo, mostra a angústia de um tempo de dor e medo. Ao fazer a comparação metafórica: ...multidões compactas/escorrendo exaustas/como espesso óleo/que impregna o lajedo, pode estar fazendo referência ao holocausto dos judeus, os quais foram comprimidos (compactados) em campos de concentração. No momento em que diz que o corpo não quer sono e sim a paz, mesmo que seja pela morte, ou ainda pelo refúgio em um poço abandonado e quieto, escancara a desesperança. Fazendo, mais uma, vez uso da metáfora, É antes a hora dos corvos,/bicando em mim, meu passado,/meu futuro, meu degredo, joga-nos o seu desespero. Sem passado, sem presente,sem futuro. De que adianta ser repatriado? Mas o seu degredo também está sendo bicado. Não mais há lugar no mundo onde possa encontrar a paz. Anoitecer, de Drummond, é a escuridão em que a humanidade está mergulhada.

Confirmando a afirmação de Bakhtin (l998) de que todo texto estabelece diálogo com outros textos, faço a intertextualidade deste poema com o de Vinícius de Morais, A rosa de Hiroshima , o qual, igualmente, trata do horror da segunda guerra ,ao mostrar ao mundo a capacidade humana de destruir, iniciando uma nova era na violência: e era atômica, infundindo um permanente medo mundial.

Considerando o que foi analisado, chego à conclusão da importância que tem o poeta para o meio social: o quanto a arte pode modificar, ou contribuir para que ocorram mudanças na sociedade, o quanto pode ajudar na alteração de atitudes ou do pensar dos menos favorecidos. Embora todas as dificuldades, pressões, pouco reconhecimento, segue firme em seu ideal, procurando fazer a sua parte para a renovação da vida. É então que, pensando sobre outra ameaça que agora nos aterroriza, estabeleço diálogo com outro texto drummondiano. Hoje é a guerra, não só atômica nem nuclear, mas biológica, trazendo o horror. Por isso trago a desesperada indagação do poeta: E agora, José? Que ainda haja tempo para encontrar respostas, em mudanças priorizando a Vida. 

 

7 Enfim, algumas considerações

 

Promover competência para a produção científica constituí marco significativo a elencar políticas pedagógicas indissociáveis do processo de formação acadêmica. Mas tal inerência pode ser negada por algumas atitudes, entre as quais a que instala lacunas na articulação entre projetos de ensino e projetos de pesquisa.

Ao estar no ambiente desta revista,cada um dos cinco ensaios vem inaugurar uma práxis através da qual estudantes de graduação estejam em interlocução com a ciência, num convívio que integra graduação e pós-graduação, em passos iniciais desencadeadores da superação das lacunas já referidas.

Cinco ensaios em tom de ensaio não se fazem em tom menor, mas sim como o descortinar-se de processos onde a ciência reconhece, em si mesma, sentidos de anúncio, de incompletude, de passos iniciais que se desejam multiplicados nas sagas do saber científico. 

Referências

ANDRADE, Caros Drummond de. Reunião. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, l977.

BAKHTIN, Mickail. Questões de literatura e de estética. São Paulo: UNESP Editora,l998. 

BARROS, R.F. Eu só conheço esse caminho do paraíso. Disponível em: Tripod.com/~

Beto_Brazil/index.html/. Os dias da Madredeus. Disponível em <http://members. Tripod.com/~Frizero_Brazil/index.html/>.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário século XXI. 3ª ed. rev.e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, l999.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, l995

MONTEIRO, Salvador e KAZ, Leonel. Fotobiografias. Rio de Janeiro: Livro Arte Editora Ltda, 2000.

PEREIRA, Aldo. Dicionário da vida sexual. São Paulo: Cultrix, l987

ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova fronteira, l985

UNGARETTI, Giuseppe. Invenção da poesia moderna. São Paulo: Ática, l996.

Notas


* Mestre em Literatura Brasileira. Docente do Curso de Letras de Mestrado em Ciências da Linguagem e da graduação em Letras - Unisul

** Terezinha A. Marcon Constante, Viviane Borges Goulart, Leila Oliveira Daufenbach, Simone B. da Rocha, Marion Maldaner e Ivan Carlos dos Santos.

 

 

Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem

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