PORTAL UNISUL     BIBLIOTECA     CONSULTA AO ACERVO     BASE DE DADOS      DISSERTAÇÕES     TESES     PORTAL DE PERIÓDICOS     MINHA UNISUL     FALE CONOSCO

Página Inicial > Periódicos do Programa > Linguagem em (Dis)curso > volume 2, número 1, jan./jun. 2002

 

Linguagem em (Dis)curso

Página Principal

 

Linguagem em (Dis)curso

volume 2, número 1, jan./jun. 2002


 

DO “NÓIS FUMO” AO “NÓS FOMOS”:

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM,

A PARTIR DAS TEORIAS DE VYGOTSKY E DA TEORIA PADRÃO DE CHOMSKY*

Patrícia dos Reis Pozza**

 

Resumo: Este trabalho apresenta questões introdutórias sobre as teorias de Vygotsky e Chomsky (teoria padrão) com relação ao tema linguagem e pensamento, a partir da consideração da história de Márcia, uma moça do interior que, ao chegar à cidade, muda sua forma de se expressar lingüisticamente.

Palavras-chave: Pensamento, linguagem, Vygotsky, Chomsky.

Abstract: From the change of some linguistic expressions by Márcia, a young countryside woman who arrives to the city, this work presents some introductory topics about language and thought in Vygotsky’s theory and Chomsky’s standard theory.

1 Introdução

 

Márcia é minha prima. Ela saiu do interior do Rio Grande do Sul, de um lugar chamado Rincão dos Câmaras, noroeste desse estado, “quase divisa com o Alto Uruguai”, como costuma dizer minha mãe. Faz aproximadamente uns dois anos que a luz elétrica chegou a este lugar.

Ela estudou em um Grupo Escolar “próximo” a sua casa (cerca de 6 Km de distância), mas não chegou a completar a quinta série do primeiro grau – seu pai tirou-a da escola, porque estava começando a namorar. Sua professora tinha apenas o quarto ano primário.

Por ser a irmã caçula entre nove filhos, sempre recebeu uma série de cuidados especiais da família, assim como o ciúme de alguns. E foi por desejo seu, contrariando a vontade de seus pais, que pediu a minha mãe para que fôssemos buscá-la. Ela queria ir morar com a tia, voltar a estudar.

Ainda existem lugares assim: onde os banhos são de bacia, a “patente” é uma casinha que fica longe, fora da casa, o ferro de passar roupa é esquentado com brasa (apesar de já haver luz elétrica na casa). Márcia ajudava o seu pai a tirar leite das vacas, leite que vai para uma grande fábrica de laticínios, uma multinacional, e auxiliava ainda a plantar alguma roça para a subsistência familiar.

Minha prima veio para a nossa casa com 21 anos, começou a trabalhar de baby siter, na casa de uma amiga de minha mãe - ela adorava cuidar de crianças! E, como tanto desejava, começou a estudar. Ela aprendeu que a terra é redonda, viu pela primeira vez o mar e percebeu que ele não é apenas um grande rio, começou a usar margarina, em vez de banha na culinária... Ria à toa. Para ela, tudo era engraçado.

Um dia, quando conversávamos – sua fala agora era muito diferente de seis meses atrás – ela começou a rir de si mesma, dizendo que antes de vir para a cidade, antes de vir para a nossa casa e conhecer todo este mundo de coisas novas, ela dizia “nóis fumo” em vez de “nós fomos”. “Fumo é o nome que se dá a planta que se transformará em cigarros e não alguém que vai a algum lugar”, concluiu Márcia.

2 Uma história

 

Escrever ou falar sobre a vida de Márcia e de sua nova linguagem quando veio para a cidade, significa dizer dos homens e de sua constituição como seres históricos e culturais, a partir da abordagem vygotskyana.

O homem se produz socialmente. Desde antes de nascer, Márcia já era falada, planejada, e poderia até ter sido rejeitada pelos seus pais. Um mundo de significações já havia sido formado a seu respeito, mesmo antes de sua concepção. Todo um “berço cultural” também estava a sua espera e, diferentemente de outros teóricos, Vygotsky diz que, desde o nascimento, o homem não é um ser que se constitui apenas enquanto matéria, que se desenvolve naturalmente pelo processo de maturação biológica. Quando minha prima, por exemplo, olhava para o mundo, ela não via apenas a matéria, mas este mundo que foi construído socialmente por outros homens – e, portanto, cultural: seu berço, a cor do seu berço, a casa que a abrigava, o nome que a mãe lhe deu e pelo qual passou a chamá-la, os brinquedos, tudo. Não nascemos numa simples matéria mas numa sociedade já constituída de significações.

O ponto que diferencia o homem dos outros seres da mesma espécie é a capacidade da construção e da utilização de signos, ou seja, da significação da matéria, o que só acontece na relação com o outro num grupo social.

Vygotsky empenhou-se no estudo e na pesquisa da evolução e do desenvolvimento da espécie humana, conduzindo-o à questão do momento em que o homem, do primata até agora, passou a distinguir-se dos outros seres da mesma espécie. Conclui que isto aconteceu, quando ele passou a dar significação à matéria, ou seja, quando a matéria passou a ser signo de outra coisa, que não simplesmente ela mesma, sendo utilizada no grupo para comunicar algo.

Em um certo ponto da evolução, o homem passou a utilizar-se de um objeto como signo, ampliando, assim, suas possibilidades de relação social. Os instrumentos deixaram de ser utilizados em apenas uma situação para, também pela significação, poderem ser reproduzidos em idéia, em outros momentos. A matéria deixa de ser ela mesma, para simbolizar e comunicar algo à alguém. Dizemos, então, que o homem não é apenas um ser natural, como os outros animais, mas produto de uma sociedade significativa, fruto de complexas relações interpessoais significantes, constituindo-se num meio histórico. Então, dizemos que o homem é um ser cultural.

Quando o bebê olha para a mãe, ela logo diz “Veja! Ele está sorrindo para mim...”. São as palavras construídas pelos homens, os gestos, os sentimentos, os sons, etc. Todos significados culturalmente. Aqui, nós falamos de um dos pontos mais ricos, e por que não dizer, um dos mais belos da cultura humana - a linguagem. Não a linguagem somente enquanto palavras escritas ou faladas, mas os gestos que as acompanham, as expressões, os movimentos, os olhares, todos repletos de dinamicidade, significados dados na e pela cultura humana. Como nos diz Smolka (1993), o lugar de emergência da significação é assumido como sendo o lugar das interações sociais, o que só acontece pela mediação dos signos, pela mediação da linguagem.

Se um homem muda a sua forma de linguagem, isso acontece pelas transformações culturais, ou seja, pela mudança da interação com o outro, vivendo em novos grupos, ou ainda, pela relação com pessoas que não faziam parte do seu grupo. Em todos os casos possíveis, sempre está a inter-relação com sujeitos diferentes do contexto atual e, portanto, a interação com aqueles que se utilizam de significações que não são habitualmente as suas.

Foi o que aconteceu com minha prima. A convivência com novas significações culturais fez com que Márcia mudasse. Ela já não era a mesma e, ao mesmo tempo, continuava sendo. Minha prima, após seis meses de convivência, caminhava diferente, seu repertório de gestos e expressões havia mudado. Seu corpo mudara. Quando chegou a minha casa, fazia qualquer atividade sempre de coluna curvada e com os joelhos voltados para dentro – era esta a posição que tomava antes para poder tirar o leite das vacas. Com o passar do tempo, isso se modificou, andava agora de coluna reta e, posso até dizer, de forma elegante. A forma com que segurava os talheres, as expressões verbais. Ela agora olhava as pessoas nos olhos, antes falava de cabeça baixa e com muita vergonha de se dirigir a alguém, de dizer palavras “erradas”.

Por voltar a estudar, obviamente, as suas palavras escritas e faladas também mudaram. A forma como redigia as cartas que endereçava aos familiares mudou, tanto em relação à ortografia como em relação à sintaxe. Sua linguagem havia se transformado, Márcia se transformara.

A transformação aqui ocorrida passa por duas questões interessantíssimas ao meu ver. A primeira delas pode ser apresentada como resposta a questão, “Onde e como Márcia mudou?”. Na e pela interação com a nossa família, no seu novo trabalho, em sua nova escola, vivendo em uma nova cidade, passando a conviver e a fazer novas significações. É na relação com o outro que eu me transformo, que eu passo a dar novos significados ao mundo e a mim mesmo.

Como Márcia passa a dizer “nós fomos” em vez de “nóis fumo”? Certamente, pela e na interação com sujeitos que têm na expressão “nós fomos” uma mesma significação constituída na convivência. De uma forma ou de outra, pela mudança de contexto social, e, portanto, cultural, Márcia sentiu a necessidade da utilização de outros signos com o objetivo da interação. É na relação com os outros, na convivência, na interação que suas palavras se modificaram.

Há alguns anos atrás, assisti a um palestrante dizer que conviver é compartilhar as nossas vidas, é viver com o outro. Era poética a forma com que ele falava da interação entre nós, seres humanos. Muitas coisas se modificaram em minha família com a vinda de Márcia. Conviver com ela, trocar as nossas vidas, foi algo que exigiu, não só da parte dela, mas da minha e de meus familiares, uma série de novas significações, de transformações, de “ajustes” na convivência diária, e de muito “trabalho”. Imagine, nós nos constituímos de formas tão diferentes... Eu assistia, em minha casa, aos mesmos programas de TV que ela, no Rio Grande do Sul. Mas as significações desse mesmo fato eram muito diferentes.

Apesar de assumirmos que é na relação com o outro que se constroem os signos, tal fato não é determinante para todos os indivíduos. Como afirma Góes, “nem tudo o que o outro faz na presença do sujeito constitui o seu funcionamento. Ademais, quando as ações do outro parecem afetar o sujeito, nem sempre é fácil dizer o que elas propiciaram construir e como isso se deu” (1993, p. 3).

Márcia não modificou a sua fala apenas por influência de um meio, ela mesma operou as suas transformações. Também tenho muito claras todas as falas, valores, expressões anteriores e outras coisas mais, que ela continuou a manifestar, apesar da influência desses meses de convivência. Portanto, Márcia foi sujeito das suas transformações, elas aconteceram na e pela sua atuação no mundo.

A segunda questão é a do papel mediador da linguagem. Segundo Góes, estudar o comportamento em mudança é

focalizar, um momento dado, a relação entre o nível de capacidade do sujeito e as ações entre sujeitos que podem afetar seus conhecimentos e estratégias; é buscar identificar se e como novos recursos de mediação emergem; é discernir os aspectos fenotípicos e genotípicos da ação, de modo que se trace o deslocamento para formas superiores de mediação e evidenciar a complexificação do fenômeno interno (1991, p. 22).

Como alguém, que não conheceu Márcia, poderá, por este texto, concluir que ela se transformou na convivência conosco? Creio que um indicador dessa transformação é a modificação da sua linguagem, das suas palavras. Como afirma Vygotsky, a palavra é o microcosmo da consciência.

Passar a dizer “nós fomos”, em vez de “nóis fumo”, é sinal claro de que houve uma mudança na consciência desta pessoa. Estas transformações ocorrem pelo próprio uso que o homem faz da linguagem. Márcia teve que ouvir ou ler as palavras “nós” e “fomos”, que têm os seus significados no lugar onde ela passou a morar. As próprias palavras constituem as ferramentas pelas quais os homens atuam no meio, significando o seu pensamento, a sua consciência, e que, na convivência com outros homens, passam a formar a sua consciência do mundo, os seus pensamentos e a sua própria cultura. É através da linguagem que o homem significa e é significado por uma cultura, por uma sociedade. As palavras, as expressões, os olhares, os gestos, são as formas pelas quais nós apreendemos uma cultura, pelas quais nós nos formamos e, ao mesmo tempo, constituem o meio onde nós transformamos essa própria cultura.

Minha prima utilizou-se do meio lingüístico para dar um novo sentido ao “fumo”, que certamente é muito pessoal, que é marcado pelas vivências que teve, pelos momentos que teve com esta palavra, com as pessoas com quem interagiu, com as suas leituras, com a sua volta à escola... E esta também foi, muitas vezes, a ferramenta, pela qual, eu própria, na minha convivência com ela, expressei as minhas idéias, os meus pensamentos, e de que faço uso neste momento para falar da história desta moça e do que penso a respeito disso. A palavra, neste caso, é o instrumento por onde se dá a possibilidade de novos significados, não só lingüísticos, mas de pensamentos, de idéias, de sentimentos e de emoções.

Não há como o homem estabelecer uma relação direta com a matéria, com o outro com quem convive, com o que o cerca. Isto só é possível através de um meio. Esta é a forma pela qual o ser humano se diferencia dos outros animais, enquanto espécie. Ele atua no mundo através de um meio, de uma atividade muito laboriosa – a linguagem. Nós, homens, instituímos as palavras e as outras ferramentas de linguagem, como sendo o meio ideal para significar o que somos, para representar o que queremos, os nossos pensamentos, as nossas alegrias, tristezas e transformações, como Márcia o fez.

3 Outra história

 

Escrever ou falar sobre a vida de Márcia e de sua nova linguagem decorrente da sua vinda para a cidade é abrir um amplo leque de discussões no campo da lingüística e, especificamente, à teoria chomskyana.

Noam Chomsky, lingüista norte-americano, foi o pai do movimento da gramática gerativa, o gerativismo, também denominado gramática transformacional, ou gramática gerativo-transformacional.

Contrariando os apelos ao caráter empírico da lingüística, tão prementes a época, esta abordagem se caracteriza pelo tratamento matemático das propriedades da língua.

Segundo Lobato (1986, p. 35), sua argumentação é silogística. Partindo de premissas, segundo as quais:

a)   a estrutura física do corpo humano é geneticamente determinada e os sistemas motor e perceptivo são modulares;

b)   e os órgãos mentais podem ser estudados nas mesmas bases em que se estudam os órgãos físicos e os sistemas motor e perceptivo;

c)    ele conclui que as teses da estrutura inata e da modularidade, adotadas para o estudo da estrutura física do corpo humano, podem ser adotadas no estudo dos órgãos mentais, inclusive a linguagem.

Assim, Chomsky inovou esta área do conhecimento, ao declarar que a linguagem é inata, e que existem universais lingüísticos mentais, voltando-se à discussão das relações entre linguagem e pensamento.

Como poderia o homem aprender a infinidade de expressões do pensamento? Não é a linguagem uma das questões que nos diferencia dos animais? Estes até possuem a sua forma de comunicação, no entanto, ela não varia, como a do homem.

Para Lobato, o que diferencia a capacidade de comunicação do homem em relação aos outros animais, é o caráter da produtividade das línguas humanas (ou naturais) e o fato de que estas independem de estímulo. Quanto ao caráter de produtividade, a autora afirma que “os animais só podem transmitir um número reduzido de tipos de mensagens sobre um número limitado de temas (...), podendo os homens comunicar uns aos outros um número infinito de mensagens sobre um número indeterminado de temas” (1986, p. 41).

E, ao fato da independência de estímulos,

na linguagem animal, além de não haver troca de mensagens, não há possibilidade de reação adequada a novas situações, o que ocorre é a transmissão unilateral de uma mensagem (...) diretamente ligada a uma experiência própria. (...). Toda língua humana, ao contrário, recria e classifica a realidade ou experiência, construindo representações sobre as quais os homens operam, tornando-se assim um ‘substituto da experiência (1986, p. 42)

Na perspectiva do gerativismo, Márcia, assim como todos nós, já nasceu com seu potencial lingüístico, o que mais precisamente, poderíamos denominar de gramática universal. Assim como nascemos com a estrutura física pré-determinada, isto também acontece com a mente e, portanto, com a linguagem (considerada como um dos fenômenos cognitivos). Ela evoluirá até um estágio final, quando atingimos certa idade, modificando-se, a partir daí, em aspectos considerados marginais.

Crianças nascem todos os dias em todos os cantos do mundo: Brasil, Rússia, Itália, Canadá. Márcia, apesar de dizer o “nóis fumo” de uma variante estigmatizada, lá do Rincão das Câmaras, no Rio Grande do Sul, expressa-se de uma forma que poderia ser traduzida para uma outra língua e também para qualquer outra variante do português.

Quanto às questões relativas à variação das línguas, entre os lingüistas, há os que afirmam que isso se dá por uma série de fatores. Além das variações que dependem de indivíduo para indivíduo, pois cada um é uma personalidade e, como tal, se expressa de forma diferente, as línguas ainda podem variar de acordo com a classe social, com a região onde a pessoa reside, de acordo com a atividade profissional exercida, etc..

Ao analisarmos que a teoria chomskyana nos propõe o inatismo e ao tentarmos relacionar esta afirmação ao fato da variação lingüística, exposta no parágrafo anterior, poderíamos pensar: se há universais lingüísticos, como devemos considerar a influência do meio, a partir desta abordagem?

Chomsky, em nenhum momento, nega que os fatos externos a um indivíduo possam influenciar o seu pensar e, portanto, a sua linguagem. Ao contrário, afirma que, sendo inata, geneticamente herdada, como tantas outras estruturas físicas e mentais, esta faculdade começa a se desenvolver a partir do seu estado inicial à maturação, sofrendo a influência do meio e das experiências a que cada um de nós está sujeito.

Márcia nasceu com este dispositivo de aquisição da língua, gramática universal, bem como com tantas outras faculdades, como a audição, o pensamento, a memória, a visão, etc.. Com o passar do tempo, com as experiências que, desde bebê a menina passava, esta faculdade se desenvolveu, levando em conta, é claro, o meio em que estava inserida. O jeito de falar de seus pais, o trabalho, a localização geográfica da região onde morava, a relação com seus familiares, a escola, tudo, enfim, auxiliou no desenvolvimento da linguagem, que, no seu devido tempo, ia amadurecendo. Se não fosse assim, todos nós seríamos como robôs ou quem sabe amebas, ou seja, teríamos uma herança tal, que nos predestinaria a sermos iguais aos nossos pais, aos nossos parentes ou a algum ancestral.

Chomsky até concebe a criatividade como fator inato. No entanto, sua gramática foi construída, a partir de regras e processos explícitos, precisos e de aplicação automática. Tais regras propunham produzir uma infinidade de sentenças de uma língua natural. Salvaguarde-se que Chomsky propôs uma explicação da relação entre pensamento e linguagem atrelada a uma concepção de ciência que precisava provar ao mundo o seu caráter “verdadeiro”, tão importante à época. Todavia, essa explicação não dá conta das variações na língua, pois não estuda, de fato, questões pertinentes à relação linguagem e pensamento e linguagem e comportamento, uma vez que se atrela ao conceito de falante/ouvinte ideal e a uma postura homogênea de língua.

As transformações da linguagem de Márcia, do seu tom de voz, dos gestos, da maneira de se vestir, podem ser explicados, portanto, pelas influências do meio em que ela passou a viver. Não que as suas palavras anteriores não estivessem corretas, como a afirmaria o gramático tradicional. Nada disso. A moderna lingüística vem cada vez mais afirmar que, desprezar o “nóis fumo” de Márcia, seria pré-conceito. Enfim, dizer que “nóis fumo” não é pior que “nós fomos”, pois a estruturação gramatical da primeira é tão complexa quanto a da segunda.

Lobato, já atendendo aos reclames de uma postura heterogênea, afirma que “toda variação no uso de uma língua é lógica, complexa e regida por regras gramaticais. O que leva à escolha de uma como superior às demais são considerações culturais e políticas” (1986, p. 26).

Em nenhum momento, poderíamos dizer que “nóis fumo” é melhor formada que “nós fomos” pois, como já dissemos anteriormente, todas as duas sentenças refletem a competência lingüística, inerente ao homem. Mas Márcia, no Rio Grande do Sul, seria tão capaz quanto eu, em Santa Catarina, ou qualquer outra pessoa, em qualquer lugar do mundo, de reconhecer uma sentença mal-formada ou sem sentido.

Tanto eu, quanto Márcia, entendíamos tudo o que uma ou outra falasse, salvaguardados os regionalismos, é claro. Mas, se compartilhássemos “Joana viu ontem jornal lua bonita”, qualquer uma de nós reconheceria que esta é uma seqüência mal formada, sem lógica proposicional, para lembrar, por exemplo, Aristóteles. Tal reconhecimento acontece, porque conhecemos, mesmo sem sermos lingüistas, os sistemas que compõem a estrutura da Língua Portuguesa.

4 Algumas considerações

 

A história de minha prima é um meio à discussão e à análise de teorias lingüísticas, abrindo um leque de debates também no campo filosófico e psicológico, pois, há muito tempo, filósofos e psicólogos se interessam pelas questões que envolvem a fala e suas relações com o pensar humano.

Sabemos que a Filosofia foi o berço de ciências como a Psicologia e a Lingüística, apesar de que muitos ainda as considerem distantes daquilo que pode ser reconhecido como conhecimento exato, lógico e, portanto, verdadeiro.

Aqui, não cabe a discussão sobre o reconhecimento da Psicologia e da Lingüística como frutos de um estudo objetivo, sistemático, observável e experimental. Apenas, há espaço e tempo para dizer que temos certeza de que, tanto a Psicologia como a Lingüística, além da Filosofia, são, com certeza, formas de conhecimento tão pragmáticas quanto a das consideradas ciências exatas, levando-se em conta, é claro, os seus devidos e particulares métodos de produção e de pesquisa científica.

À Filosofia cabe a análise dos porquês que envolvem a linguagem: o que é linguagem? qual a sua natureza? por que o homem fala? existem diferenças entre a linguagem humana e o animal? quais? qual o papel da linguagem em nossa sociedade? etc., etc., etc..

Além dos questionamentos aprofundados pela Filosofia, a Psicologia, ciência dos fenômenos psicológicos exteriorizados ou não, define o estudo, a pesquisa, a produção de conhecimento acerca de que forma a linguagem se caracteriza como uma das funções da psiquê humana, de sua relação e interação com outros fenômenos mentais e de sua expressão e interferência em nossa vida diária.

Além dessas e de tantas outras abordagens acerca do tema em questão, detemo-nos também (se é que o estudo do pensamento e da linguagem pode ser detido apenas neste campo!), no que tange ao conhecimento da ciência da linguagem ou, como queiram outros, a lingüística, por ser esta o estudo da linguagem humana.

Lobato, considera que a linguagem é o que há de comum às diferentes línguas, tendo então a Lingüística um duplo objetivo: o estudo da linguagem em geral e o estudo das diferentes línguas” (1986, p.34). Ciência ainda em formação, a Lingüística vem sendo reconhecida desde 1916, com a publicação póstuma do Cours de Linguistique Générale, de Ferdinand de Saussure.

Consideramos, pessoalmente, que a Lingüística é um riquíssimo campo de estudo e trabalho ainda a ser explorado e aliado aos objetivos da Psicologia, na compreensão dos fenômenos mentais e da linguagem com vistas à promoção da melhor qualidade de vida dos homens.

Os estudos e o trabalho de homens como Paulo Freire bem demonstram o que expomos acima. Pensamento e linguagem para esse pedagogo são também objetos no alcance da cidadania.

Escolhemos aqui a introdução ao pensamento de dois teóricos expoentes de dois campos do conhecimento, Vygotsky e Chomsky, respectivamente localizados na Psicologia e na Lingüística. A representação de suas idéias se deve ao fato de tanto um como o outro voltaram os seus olhares aos fenômenos da linguagem e do pensamento.

A exposição das afirmações destes teóricos, acerca dos referidos temas, foi propositalmente apresentada para que possamos refletir sobre os mesmos, a partir de diferentes pontos de vista. Ao nosso ver, esta forma enriquece o pensar acerca do assunto. Em nenhum momento queremos fechar o tema.

A teoria de Vygotsky e a teoria padrão de Gramática Gerativa, a partir de Chomsky, possuem, em seu escopo, abordagens epistemológicas divergentes. Qualquer ramo científico ou do pensamento humano pode ser avalizado epistemologicamente, ou seja, qualquer campo do conhecimento se fundamenta em uma visão de homem, de mundo e, de sua relação, os quais podem ser reduzidos a três modelos: o empirismo, o inatismo e o interacionismo.

Chomsky é um claro representante do inatismo, através das afirmações de que o homem possui sua estrutura física e mental, já determinados ao nascer. Vygotsky acredita, como ele mesmo afirma, que o homem se constrói na e pela interação com os outros. Não nega a base biológica, assim como Chomsky não nega as influências do meio. No entanto, a base do pensar destes teóricos é muito diferente. São formas diferentes de conceber o ser humano.

Considerar o pensamento e a linguagem é questionar acerca da própria natureza humana. O mundo gira em torno destes fenômenos. Buscar o seu entendimento é o nosso desafio, seja como psicólogos, filósofos ou lingüistas.

5 Final da história

 

Minha prima teve que voltar para a casa de seu pai para cuidar da mãe que ficou cega devido à catarata, não se esquecendo, é claro, de levar um ferro elétrico na mala. Nunca me esqueci da cena. Márcia voltou a tirar leite, mas diz que não é isto o que gostaria de estar fazendo. Ela agora quer morar numa cidade maior do que a sua, “trabalhar menos no pesado” e poder estudar...

Referências

GÓES, Maria Cecília R. Os modos de participação do outro nos processos de significação do sujeito. Temas em Psicologia nº 1, 1993.

_____. A natureza social do desenvolvimento psicológico. Cadernos Cedes nº 24. Campinas: Papirus, 1991.

LOBATO, Lúcia Maria Pinheiro. Sintaxe gerativa do português: da teoria padrão à teoria de regência e ligação. Belo Horizonte: Vigília, 1986.

NOVÍSSIMA ENCICLOPÉDIA DELTA LAROUSSE. Rio de Janeiro: Delta, 1982. P.427. v.6.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento; um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1998.

PENA, Antônio Gomes. Introdução à psicologia cognitiva. São Paulo: EPU, 1984.

PINO, Angel. As categorias de público e privado na análise do processo de internalização. Educação e Sociedade nº 42. Campinas: Papirus, 1993.

SLOBIN, Dan Isaac. Psicolingüística. São Paulo: Ed. Nacional: editora da Universidade de São Paulo, 1980.

SMOLKA, Ana Luiza B. Construção de conhecimento e produção de sentido: significação e processos dialógicos. Temas em Psicologia. nº 1. 1993.

_____. A concepção da linguagem como instrumento: um questionamento sobre práticas discursivas e educação formal. Temas em Psicologia nº 2. 1995.

11. VYGOTSKY, Lev S. Génesis de las funciones psíquicas superiores. Obras Escogidas III. Madrid: Visor, 1995.

_____. Pensamiento y palabra. Obras Escogidas II. Madrid: Visor, 1992.

Notas


* Artigo apresentado a disciplina de Formação das Ciências da Linguagem do Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul.

** Psicóloga. Docente da Unisul. Especialista em Psicopedagogia pela UFRJ. Mestranda em Ciências da Linguagem pela Unisul.

 

 

Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem

Campus Tubarão:  Av. José Acácio Moreira, 787, Bairro Dehon, 88.704-900 - Tubarão, SC - (55) (48) 3621-3369

Campus Grande Florianópolis: Avenida Pedra Branca, 25, Cidade Universitária Pedra Branca, 88137-270 - Palhoça, SC - (55) (48) 3279-1061