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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 2, número 1, jan./jun. 2002


 

um percurso pelo admirável mundo novo e o rizoma

 

Jussara Bittencourt de Sá*

 

Resumo: Na leitura de Admirável Mundo Novo, de Aldoux Huxley, que apresento, atento para o movimento utópico que advém deste texto articulando-o ao Le principe Espérance, de Ernst Bloch. Um outro aspecto é o agenciamento entre a teoria de reprodução social da obra de Huxley e a teoria do rizoma, desenvolvida em Mil Platôs, de Deleuze e Gattari (1995-1997).  

Palavras-chave:  Utopia, clonagem, rizoma.

Abstract: In this article, I present a study of Admirável Mundo Novo by Aldoux Huxley, intent for the utopian movement that becomes from this text in articulation with the Le principe Espérance, by Ernst Bloch. One another aspect is the agency between the theory of social reproduction of the Huxley’s bibliography and the theory of rizoma, developed in Mil Platôs, by Deleuze and Gattari (1995-1997).

“Ó, maravilha!

Que adoráveis criaturas aqui estão!

Como é belo o gênero humano!

Ó Admirável Mundo Novo

Que possui gente assim!”

(William Shakespeare, A Tempestade, Ato V)

A peça A tempestade, publicada por Shakespeare em 1611, foi elaborada numa época em que os europeus se lançavam a mares cheios de seres monstruosos que habitavam o imaginário. A ação é situada no Novo Mundo, para onde o rei Próspero vai com seu séqüito, após ser destronado. Os conflitos entre a nova cultura e a autóctone dominam o enredo. O tema da peça é a busca da liberdade e, por causa da época em que foi escrita, mostra o vislumbre que Shakespeare teve: “Como é belo o gênero humano!/Ó Admirável Mundo Novo/Que possui gente assim!”. Porém se percebe que a história da humanidade nos apresentaria, com o decorrer dos tempos, a depreciação da cultura americana e a imposição dos dogmas europeus.

Pensar a humanidade é sempre algo complexo. Os homens e, por conseqüência, suas obras, vislumbrando, deslumbrando, das mais diferentes maneiras, nos diversos lugares, em todos os tempos, promoveram/promovem tentativas que conduzem a reflexões sobre a condição humana neste mundo.

Ernst Bloch apresenta, em Le Principe Espérance, alguns dos questionamentos que inúmeras vezes norteiam o pensar a humanidade: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?...[1]”. A procura por respostas pode instaurar movimentos de projeção, de buscas e ao mesmo tempo de esperanças, que estão sempre em construção e transformação.

Permanecer neste lugar conectivo entre os movimentos do passado e a esperança do movimento que está por vir configura, muitas vezes, o que Bloch apresenta como Utopia: o devir, “o princípio da esperança”. Minha pretensão, neste estudo, é conectar este tema à obra Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, estabelecendo também articulações com o pensar de Deleuze e Guattari.

No prefácio da obra Mil Platôs[2], estes autores comentam que as obras, com o decorrer do tempo, “envelhecem ou recebem uma segunda juventude”. Por isso torna-se importante, segundo eles, que haja uma reflexão sobre o lugar que tal trabalho ocupou, sobre o tempo decorrido entre a obra e sua segunda juventude em relação ao projeto inicial.

Ao focalizar Admirável Mundo Novo, publicada no ano de 1932, cuja epígrafe é o fragmento acima de A Tempestade, de Shakespeare, observo que Huxley, nas edições das duas décadas posteriores à primeira publicação, acrescentou um prefácio à sua obra, o que permite inferir que o autor repensou-a e optou por prefaciá-la.

O que presenciamos, pelas reflexões que emergem desse prefácio, é que Huxley, ao tecer suas considerações sobre Admirável Mundo Novo, elaborou uma nova Utopia. O autor afirma que “o remorso crônico, e nisso estão de acordo todos os moralistas, é um sentimento muito indesejável...[3]”. Em suas observações, porém, admite que, se fosse reescrevê-la com olhar de alguém muito mais velho, modificado pelas experiências do próprio tempo e, além disso, diante dos destroços da Segunda Grande Guerra Mundial, descaracterizaria a obra. Todavia, na medida em que vai pontuando seu texto, Huxley apresenta as novas possibilidades que seriam dadas ao povo, principalmente ao Selvagem.

Assim, um novo texto vai sendo projetado e, pelo viés destas novas possibilidades, uma nova Utopia é configurada. Huxley comenta:

“Os benfeitores da humanidade merecem ser honrados. Devemos construir um Panteão[4] para os professores. Deveria ser erigido entre as ruínas da Europa e do Japão; sobre a entrada do ossuário, eu mandaria inscrever, em letras de cerca de dois metros de altura, as simples palavras: Consagrado à Memória dos Educadores do Mundo[5]”.

Em Admirável Mundo Novo, o autor, ao inserir no enredo o processo de condicionamento, anula de certa forma o papel do educador. Ao colocá-lo em um Panteão, Huxley se redime desta atitude caminhando para outro lado: o da exaltação. Continuando o prefácio, Huxley ainda afirma que, se voltasse ao tempo em que elaborou o livro, agora ele concederia uma terceira opção ao Selvagem. Entre as alternativas de seu dilema – a utópica e a primitiva (situada na reserva) – apresentaria a opção de viver numa comunidade de exilados e refugiados do Admirável Mundo Novo, localizada no limite da Reserva. A economia dessa comunidade, seria descentralizada e henry-georgiana; a política, a cooperativa kropotkinesca. A ciência e a tecnologia seriam usadas, à semelhança do repouso semanal, como se fossem destinadas ao homem, e não (como atualmente e mais no Admirável Mundo Novo) como se ele devesse se adaptar e submeter-se a elas. A religião seria a busca consciente e inteligente do Tao ou Logos imanente, da Divindade Transcendente ou brâmane[6]. E conclui, retomando Admirável Mundo Novo, que o tempo do romance fora projetado para 600 anos, porém aquela utopia parecia estar muito mais próxima do que ele poderia imaginar. A ficção parecia-lhe agora possível, e este sentimento, de certa forma, o assustava. Mediante estas considerações, acredito que tal prefácio talvez possa ser um sinalizar de Huxley sobre o movimento que Deleuze e Guattari propõem. Sendo assim, Admirável Mundo Novo parece caracterizar o que os autores consideram como uma obra que permite uma evolução “a-paralela do livro e do mundo[7]”, promovida principalmente pelas peculiaridades das descrições, sub-narrativas e intertextualidades inseridas em seu corpus, as quais pretendo tentar elucidar neste texto.

Ainda sobre o termo “nova roupagem”, apresentado pelos autores, gostaria inicialmente de propor um pensar sobre o locus e o cronos da elaboração deste texto de Huxley, que, acredito, se apresentam como dados instigantes.

Escrito na América do Norte e situado entre a 1ª Guerra e a iminência da 2ª Guerra, ante as descobertas científicas da segunda metade do século XIX e início do século XX e o fortalecimento do ideário nazista da eugenia da raça e da superioridade ariana, Admirável Mundo Novo possui um período peculiar, cuja data referência é Ford. De acordo com Harvey, “a data simbólica do fordismo deve por certo ser de 1914, quando Henry Ford introduziu seu dia de oito horas e cinco dólares como recompensa para os trabalhadores da linha de montagem de carros que ele estabelecera no interior em Dearbon, Michigan[8]”. O tempo presente do enredo se inicia em 632 d. F., uma época projetada para o ano de 2526 d.C.

Creio que “um tempo projetado”constitui-se num devir. Em Admirável Mundo Novo, apesar de pontuá-lo, o autor institui também no tempo da narrativa movimentos constantes, que sinalizam para o futuro. Assim, a presença do futuro atribui uma peculiaridade especial ao romance, que nos conduz ao movimento produzido por textos considerados utópicos.

Muitos autores já elaboraram considerações sobre a utopia. A obra de Huxley tem sido tema para inúmeros ensaios, manifestando também novas maneiras artísticas de se ler e apresentar Admirável Mundo Novo. E seguindo a linha tradicional e teórica de abordagem, sinalizo, dos enfoques que tratam deste tema, as evocações que advêm dos pontuamentos de Ernest Block, em Le Principe Espérance.

Segundo Block, a utopia é instaurada a partir da esperança, que é superior ao temor, não é passiva, nem está confinada ao vazio. Está, sim, em constante movimento, projetando-se no futuro, do qual fazem parte aqueles que a trazem. Para Bloch, o homem tende ao futuro, e o futuro é o que se teme e o que se espera, é onde está o desejo. O desejo é a única particularidade sincera nos homens, é o não-consciente-ainda. Desta maneira, o fenômeno gigantesco da utopia é um dos menos explicados e elucidados, na opinião deste autor. A utopia configura-se, assim, como a esperança, a espera, a intenção voltada em direção da possibilidade ainda não tornada constituinte[9].

De acordo com Bloch, Marx inaugurou a filosofia, que denominou Novo. O Novo é aquele que nos espera para nos destruir ou para nos satisfazer plenamente. A consciência do novo nos faz descobrir uma saída no perigo e abrir um caminho para a vitória, conduzida conforme suas próprias condições. Seria o que Bloch apresenta como espaço na possibilidade objetivamente real, no processo. Assim, para ele, Marx foi o primeiro a inaugurar uma teoria, apesar da dialética explosiva, que não se resigna mais à contemplação e à descrição instituídas no mundo arcaico-mítico e da cultura racionalista. Concluindo, a utopia, para Bloch, seria este movimento cognitivo, que faz parte da evolução humana. A representação e os pensamentos da intenção prospectiva, do agora em diante[10]. Assim sendo, ao articulamos a esperança à prospeção, ao desejo e ao movimento que instaura o não-acabado, estabelecemos tentativas de apreender a utopia na vida e na também nas obras de artes.

Huxley, em sua obra, projeta esse movimento que conduz ao futuro. Esta projeção é inclusive pontuada em locais e tempos. Inserem-se nela novas projeções que tentam resolver problemas existenciais e físicos. Apresentam-se possibilidades de melhora na qualidade de vida, mas também há a emersão de problemas instaurados pelos avanços tecnológicos.

Desta maneira, os avanços preconizados no texto resolveriam problemas de transporte, alimentação, ensino, controle de natalidade, a angústia do convívio com o pensamento da morte, além de outros. Todavia, os vieses para a resolução destes problemas instauram o paradoxo entre a dúvida e a esperança que advém das projeções de Huxley para o futuro: a tecnologia a serviço do homem, e o homem à mercê desta mesma tecnologia.

Contudo, apesar de ser classificada como obra que sinaliza uma utopia tecnológica, pretendo, agora, caminhar por uma abordagem especial, que começo a desenvolver na seqüência.

Huxley, no prefácio de Admirável Mundo Novo, concede, como visto, uma importância fundamental ao processo de ensino, quero todavia focalizar, mais especificamente, em meu estudo, o Processo Bokanosvky, observando seu percurso, a maneira como este é introduzido e descrito, no romance.

Na obra, a cor cinza e a imensidão do edifício do “Centro de Incubação e Condicionamento”, a “luz gelada”, em contraste com o amarelo nos tubos de ensaio, são as imagens que introduzem o enredo. Percorrendo a simbologia das cores, percebemos que, dentre outras, a cor cinza, numa concepção judaica-cristã, significaria a união da inocência, sugerida pela cor branca, e a culpabilidade, sugerida pela cor preta. Em outras palavras, a morte terrestre e a imortalidade espiritual, ou seja, o prolongamento da vida na morte.

Na seqüência, a trajetória detalhada dos alunos nesse “Centro”, acompanhada por explicações, diálogos e interferências de um narrador onisciente, apresenta novas características desse “admirável locus”.

O mundo já se tornara um “Estado Mundial”, diluíram-se as fronteiras entre Oriente e Ocidente, e dez dirigentes mundiais o governavam, sob o lema “Comunidade, Identidade, Estabilidade”: o lema com que Huxley anuncia esse “único” mundo, como se pode observar, remete ao ideário iluminista refletido na Revolução Francesa, marco da consolidação da sociedade moderna.

A sociedade do Admirável Mundo Novo é dividida em castas geneticamente programadas, nomeadas a partir do alfabeto grego. Os Alfas são seres superiores, mais inteligentes, altos, fortes, ocupam cargos de comando e são gerados a partir de um único embrião. Os Betas possuem posições hierárquicas inferiores aos Alfas e são gerados também a partir de um único embrião. Assim para cada embrião das classes Alfa ou Beta resulta um único ser. Já os Deltas, Gamas e Ipsilones – em ordem hierarquicamente decrescente – têm seus embriões submetidos ao Processo Bokanowsky. Tal Processo consiste na fecundação, através da multiplicidade e proliferação, de seres idênticos fisicamente. A metodologia do Processo apresenta, além de dosagens de Raios-X, para a multiplicação e a inserção gradativa de álcool, com objetivo de debilitar, limitar. Logo, os Ipsilones, por estarem no último patamar, recebem dosagens maiores e os embriões desdobram-se em maior número também.

Sobre o Processo Bokanowsky, também considero importante apresentar um registro feito em 2 de fevereiro de 2001, no jornal O Estado de São Paulo. No editorial, deste dia, encontram-se algumas considerações sobre o “Projeto Genoma”. Destaco o seguinte trecho:

“a alteração genética de seres humanos não é o futuro, ela existe aqui e agora. E é perturbadora. Para alguns, é a chave para um futuro digno de filmes de George Lucas. Para outros, o primeiro passo para o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A manipulação genética pode significar a cura do câncer, da diabete, da hipertensão e, quem sabe, a possibilidade de ampliar tendências como a aptidão para a matemática, talento musical, capacidade de desempenho esportivo. Por outro lado, pode representar também a criação de uma elite absolutamente saudável e uma massa de destituídos “imperfeitos", sem acesso a remédios e a tratamentos de ponta. Se houver um gene capaz de determinar a predisposição a comportamentos agressivos, um governo poderá manipulá-lo para intensificar essa tendência e criar um exército extremamente violento ou minorá-la para ter uma massa de operários dóceis ou determinar que este ou aquele feto seja abortado porque existe a probabilidade de ele vir a ser um assassino em série”.

Retornando aos apontamentos iniciais de Deleuze e Guattari, observo que tal referência à obra de Huxley, em pleno ano 2001, comprova o que os autores designam como “segunda juventude”ou evoluções “a-paralelas do livro e do mundo”[11].

Todavia, gostaria não somente de demonstrar os movimentos intertextuais de Admirável Mundo Novo, mas de observá-lo a partir de um foco intratextual. Entendo que o Processo Bokanovsky, descrito numa obra publicada em 1936, também prenuncia, além de outras, a concepção de rizoma, que Deleuze e Guattari apresentam em seu texto, publicado em 1980.

Segundo estes autores, “o rizoma é uma antigenealogia”, é a ruptura, o alongar-se e prolongar-se. No decorrer de sua obra, os autores estabelecem pontos e contrapontos para definir o rizoma e, entre eles, focalizam o Oriente e o Ocidente. Diferenciando-se do Ocidente, a imagem do Oriente remete a “uma cultura de tubérculos que procede por fragmentação do indivíduo; um afastamento, um pôr entre parênteses a criação confinada em espaços fechados ou relegada à estepe de nômades. Ocidente, agricultura de uma linhagem escolhida com muitos indivíduos variáveis; Oriente, horticultura de um pequeno número de indivíduos, remetendo a uma grande gama de “clones”[12].

No texto de Admirável Mundo Novo, comprovamos as alegorias sugeridas pelas explicações:

“Um ovo, um embrião, um adulto – normalidade. Mas um ovo bokanovskizado tem a propriedade de germinar, proliferar, dividir-se. (...) Mas naturalmente já se faz muito mais, prosseguiu em Centros Tropicais. Singapura tem produzido freqüentemente mais de dezesseis mil e quinhentos; em Mombaça já se atingiu efetivamente a marca dos dezessete mil[13]”.

Novamente volto minha atenção para a imagem que se produz a partir deste Processo: a clonagem, a multiplicidade de seres. Acredito que isto sinalize a noção de multiplicidade plana do rizoma, do movimento de proliferação no mesmo nível, sem raiz (família), nem fim. Ainda para Deleuze e Gattari, “o rizoma não começa e nem conclui, ele se encontra sempre no meio, um inter-ser[14]”. O entre não seria situar, demarcar um lugar, mas uma direção perpendicular, conectiva. Os seres resultantes deste processo estão em um mesmo plano, em constantes transformações, portanto na instituição do movimento do vir a ser: devir. Seres inacabados, as “multiplicidades rizomáticas[15]”, na medida em que se proliferam e podem sofrer mais e mais modificações, permanecem no entre-lugar do projeto homem-máquina.

Em Admirável Mundo Novo encontram-se outras elucidações do Processo:

“Neste momento estou trabalhando com ovários Delta-Menos. Tem apenas dezoito meses. Já produziu mais de doze mil crianças, já decantadas ou em embrião. E ainda está forte. (...) O Sr. Foster deu-lhes explicações precisas. Falou-lhes do embrião em desenvolvimento em seu leito de peritônio. (...) Falou-lhes de corpus luteum. (...) Referiu-se à perigosa tendência do embrião à anemia, às doses maciças de extrato de estômago de porco e de fígado de feto de potro que era necessário fornecer-lhes por esta razão[16]”.

Por um lado, a utopia instaurada por Huxley pode nos remeter a Adorno, que lembra que Karl Marx considerava admiráveis os tributos da química, física e da engenharia, porém denunciava como cruéis a promoção da promiscuidade e das drogas e a anulação do sentimento. Ao abortar as ideologias morais e religiosas, observo que, por outro lado, a estruturação do romance aponta o movimento do contínuo, do inacabado, do projeto, do devir como entendido por Ernest Bloch e que agora evoca as imagens que Deleuze e Guattari apresentam como rizoma.

Estes autores apontam a estimulação da multiplicidade e heterogeneidade dos desejos, o movimento contínuo, a instauração do pensamento nômade, o dinamismo e a multiplicidade das realizações. Em Admirável Mundo Novo, o desejo sexual se realiza pela promoção da alternância de parceiros sem envolvimento emocional, sem procriação. Há também uma super-droga denominada Soma. Tal substância química apresenta-se como panacéia para todos os males da mente (espírito). No texto, a dor e a angústia são resolvidas por dosagens de Soma, que, por sua vez, provoca prazer e, também, dependência: “um centímetro cúbico de Soma cura dez sentimentos[17]”.

A concepção de rizoma pode estender-se para outros locus de Admirável Mundo Novo. Na “Reserva de Selvagens”, no novo México, onde Bernard Marx, Alfa Mais, um dos protagonistas, juntamente com Lenina Disney, uma Beta, vão fazer um passeio, eles encontram John Selvagem, que se diz filho de pessoas do Mundo Novo. Neste ponto, Huxley apresenta os conflitos culturais entre os dois mundos.

A descrição da Reserva é instaurada a partir dos conflitos existenciais do Selvagem. Percebemos que, contrapondo-se à organização do Mundo Novo, ali há monogamia, maternidade, envelhecimento. A droga, neste caso não legalizada ou legitimada, foi substituída pelo Mescal[18], espécie de bebida alucinógena utilizada pelos Selvagens, fornecida a Linda por seu amante, Popé.

Linda, a mãe do Selvagem, uma Beta que ficara grávida de um Alfa durante um passeio, acidentalmente permaneceu na Reserva. A mudança de filosofia e atitudes de vida que ali acontece faz com que Linda seja considerada prostituta, sendo constantemente apedrejada pelas pessoas da Reserva. Excluída pelos dois mundos, Linda representa a prostituta, na Reserva, e a figura da mãe, uma figura obscena, no Mundo Novo.

Articulando as concepções do rizoma à apresentação deste novo lugar, a Reserva, observo que mais uma vez posso estabelecer uma ligação entre o tratamento ficcional deste locus e a teoria de Deleuze e Guattari. Todavia, agora, o que identifico é uma alegoria que suscita o que estes autores concebem como as árvores-raízes.

Contrapondo-se ao rizoma, que se propaga e espalha heterogeneamente, as árvores-raízes estabelecem a delimitação e limitação de espaços. A árvore tem um espaço, uma hierarquia. Institui a evolução somente por descendência, operando apenas na homogeneidade. Insere o dualismo, a concepção binária do uno e do múltiplo, e não a multiplicidade propagada pelo rizoma. Conforme Deleuze e Guattari, “os sistemas arborescentes são sistemas hierárquicos que se comportam como centro de significância e subjetivação[19]”. Por isso não há o devir, na medida em que há uma definição, uma demarcação.

Contudo percebemos que a sociedade do Mundo Novo também é caracterizada pela hierarquia e que o Processo Bokanosvki é utilizado principalmente para fazer com que ela seja assegurada. Porém o que gostaria de ressaltar mais uma vez, é que minha leitura busca, neste texto considerado utópico, o viés de um caminho alegórico projetado na narrativa. Não só uma teoria utópica que se projeta no enredo, mas principalmente como Admirável Mundo Novo preconiza e afirma, de certa forma, as concepções de Deleuze e Guattari.

Creio que a existência do Soma, dos condicionamentos e recondicionamentos podem ser concebidas como maneiras de segurar e assegurar o sucesso do projeto do Admirável Mundo Novo. E também podem sinalizar a confirmação de que os seres, que seriam considerados programados, programáveis, estão ainda em transformação e, sendo assim, necessitam destes mecanismos de controle. Daí podemos classificá-los como não-acabados, proliferáveis, multiplicáveis.

Acredito, portanto, que a obra Admirável Mundo Novo pode também ser apreendida não só pelo viés da utopia tecnológica que Huxley vai preconizar já em seu tempo, mas também podemos focalizá-la como vislumbre da idéia do rizoma.

Conforme mencionei anteriormente, pensar a humanidade é sempre algo complexo. Pensar as obras que se produzem como tentativas de apreendê-la, de projetá-la, torna-se mais complexo ainda. A cada leitura e releitura detectam-se novas possibilidades, novas caminhadas e novos vieses. A tentativa de se realizarem divagações promovem movimentos internos e externos, mudanças de comportamentos, projeções e introspeções, tais como os tubérculos, os rizomas, as ervas daninhas que se vão alastrando e nos impulsionando, fazendo com que a todo instante transformemos nossa maneira de olhar, pensar e caminhar, sempre numa projeção e esperança. Talvez seja isto realmente: uma Utopia.

Referências

BLOCH, Ernst. Le principe Esperance. Trad. de Françoise Wuilmart. Paris: Gallimard, 1976.

Enciclopédia Barsa, vol 11. Rio de Janeiro: Enciclopaédia Britânica do Brasil, 1997.

DELEUZE, Gilles, GATTARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol 1, Trad. de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 1995-1997.

HARVEY, David. A condicão pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1996.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Trad. de Felisberto Albuquerque. São Paulo: Abril, 1980.

 

Notas


* Docente do Curso de Letras e Secretariado Executivo da Unisul. Mestre em Literatura Brasileira pela UFSC, Doutoranda em Teoria Literária pela UFSC.

[1] BLOCH, Ernest. Le principe Espérance. Trad. de Françoise Wuilmart. Paris: Gallimard, 1976, p. 9.

[2] Gilles Deleuze e Feliz Gattari. Mil Platôs, Vol 1. Trad. de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa . São paulo: Editora 34, 1995, p. 7.

[3] HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Trad. de Flisberto Albuquerque. São Paulo: Abril, 1980, p. 11.

[4] Templo arredondado que na Roma Antiga era destinado a todos os deuses e mais tarde destinado a perpetuar a memória de homens famosos. Enciclopédia Barsa, vol. 11. Rio de Janeiro: Enciclopédia Britânica do Brasil. 1997, p. 112.

[5] HUXLEY, Aldous. op. cit. p. 13.

[6] Idem, p. 13.

[7] Deleuze e Guattari, op. cit. p. 20.

[8] HARVEY, David. O fordismo. In: A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo. Edições Loyola, 1996, p. 121.

[9] BLOCH, Ernest, op. cit. p. 10

[10] Idem, p. 14.

[11] Deleuze e Gattari, op. cit. p. 7.

[12] Idem, p. 29.

[13] HUXLEY, op. cit. p. 28-29.

[14] Deleuze e Gattari, op. cit. p. 37.

[15] Idem, cit. p. 46.

[16] HUXLEY, op. cit. p. 33.

[17] Idem, p. 50.

[18] Idem, p. 163-164

[19] Deleuze e Gattari. op. cit. p. 26.

 

 

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