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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 2, número 1, jan./jun. 2002


 

P-PRIME E PRODUÇÃO LINGÜÍSTICA:

PERCEPÇÃO E PRECONCEITO*

Maria Marta Furlanetto**

 

Resumo: Neste trabalho discute-se a possibilidade de uma linguagem que se desloque do esquema essencialista de Aristóteles, associando-se isto à idéia mais ampla de proporcionar (também na perspectiva pedagógica) um melhor desempenho na escritura de documentos formais. Aposta-se na possibilidade de que isso represente um modo de pensar mais adequado, mais científico, representando um ganho de percepção e de consciência de mundo, e finalmente de reconhecimento das redes que compõem a vida humana em seu processo de conhecimento e de reconhecimento da alteridade. Trata-se de buscar uma linguagem que corresponda a uma flexão do sujeito para a própria expressão, para descobrir de que ela fala, e como fala em nós (pré-conceitos).

Palavras-chave: Essencialismo; textos formais; percepção; escrita; alteridade.

Resumé: Dans cette étude on discute la possibilité d’un langage déplacé du schéma essencialiste d’Aristote, rapporté à l’idée plus large de mettre à portée de main (aussi d’une visée pédagogique) la réussite dans l’écriture de documents formels. On tient le pari que cela représente um gain de perception et de conscience du monde; enfin, de reconnaissance des réseaux qui composent la vie humaine vis-à-vis de son procès de connaissance et de reconnaissance de l’altérité. Il s’agit de mettre à point un langage qui corresponde à un dédoublement du sujet vers sa propre expression, pour y déceler sur quoi ce langage parle, et comment il parle en nous (pré-jugés).

Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir (...) o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, a atividade filosófica – senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento?  

 

(FOUCAULT, O uso dos prazeres) 

1. Introdução

 

Uma obra sobre o pensamento não-aristotélico foi lançada em 1933 por Alfred Korzybski (Science and sanity). Alguns dos princípios então ali estabelecidos, dizendo respeito à semântica geral, pareciam deveras transparentes: "o mapa não é o território", "a palavra não é a coisa". E. W. Kellogg nos aponta que, após um momento de ingenuidade a partir da leitura daquele autor (em 1976), concluiu que ter uma compreensão intelectual do pensamento não-aristotélico não significa que se pode passar à sua prática automaticamente. 

Algumas das expressões que conformam padrões em nosso comportamento cotidiano são: ou este ou aquele, ou tudo ou nada, sim ou não – ou seja, aplicamos a chamada "lei do terceiro excluído", temos a tendência a absolutizar, o que nos faz incorrer em erros lógicos e em distorções. Como deixar de pensar dessa forma e passar a uma percepção de possibilidades, probabilidades, multiplicidades e complexidades? E por quê? 

É nesse ponto que entra a compreensão de E-Prime, cuja "tradução" para a língua portuguesa aparece aqui sugestivamente como P-Prime. E-Prime corresponde a uma variedade derivada da língua inglesa que elimina o uso do verbo to be (para nós, ser e estar). O objetivo: uma disciplina da escritura que evitaria o falseamento de fatos, recorrente com o uso dos padrões lingüísticos convencionais, ou seja, da linguagem rotineira. Em suma, deveríamos evitar o "é" que aponta uma relação de identidade (Isto é um computador), bem como o "é" de predicação (O computador é caro).  

Kellogg dá seu testemunho da força potencial de E-Prime como elemento catalisador e clarificador do pensamento verbal na escritura de um trabalho científico – mas não só: também na vida diária. Entretanto, a possibilidade (e a decisão) de falar em E-Prime só lhe ocorreu posteriormente. Era preciso perguntar-se, então, como essa alternativa funciona e o que ela significa em termos de vida mental, de percepção e de comportamento social. 

Neste ponto, convém lembrar um autor cuja obra constituía referência importante no início dos estudos em Lingüística no Brasil: Benjamin Lee Whorf, que passamos a conhecer através da discutida hipótese Sapir-Whorf, ou da relatividade lingüística. Em termos genéricos e práticos, afirma-se que a língua particular de uma pessoa exercerá influência sobre ela, sobre seu comportamento, sobre seus estados mentais, seus processos de cognição[1]. Admite-se, com efeito, que o comportamento em geral pode ser afetado pelas categorias lingüísticas de que disponhamos. Sabemos, por outro lado, que nosso uso lingüístico se orienta culturalmente: sofremos um constante condicionamento lingüístico e social, configurado nas normas todas que regem nossas atividades. 

As idéias fundamentais dessa hipótese foram formuladas nos anos 20 e 30 do século XX (Sapir morreu em 1939, Whorf em 1941). Sapir foi mestre de Whorf, o qual, a partir de asserções gerais daquele, realizou pesquisas pessoais sobre a língua dos índios Hopi, estabelecendo a hipótese da relatividade lingüística. Sapir, de uma forma concisa, entendia que "cada língua contém uma visão específica do mundo"; ou ainda: "a língua socialmente formada influencia, por sua vez, a maneira como a sociedade concebe a realidade." (Schaff, op.cit.). Trata-se aqui, segundo a interpretação de Schaff, de focalizar o problema da interação dialética da linguagem e do conhecimento, salientando que não se trata de uma tese idealista da ação formadora e unilateral da linguagem sobre o mundo. 

Se as formas lingüísticas condicionam nossos modos de observação e de interpretação, Sapir tinha razão em afirmar que "devemos aprender a combater as implicações da linguagem" na mesma medida em que cresce a experiência científica, pois que nossas línguas ajudam e ao mesmo tempo atrasam tais experiências. 

São estes, na formulação de Schaff, os elementos principais da hipótese Sapir-Whorf: 

a) a linguagem é um produto social, e o sistema lingüístico definido, no qual fomos educados e pensamos desde a infância, influencia a nossa maneira de perceber o mundo que nos rodeia; 

b) em razão das diferenças entre os sistemas lingüísticos, as quais são o reflexo dos diferentes meios em que nasceram esses sistemas, os homens percebem diferentemente o mundo. (p. 109) 

As marcas do paradigma que hoje se concretiza nas ciências e na concepção larga do mundo podem ser apontadas nas palavras de Whorf: "o indivíduo não pode descrever a natureza com uma imparcialidade absoluta"; ele é "constrangido a certos modos de interpretação, ainda quando está convencido de ser livre" (apud Schaff, p. 113). 

O estudo específico de línguas indígenas como o Hopi e o Nootka, em comparação com as línguas européias, leva Whorf a dizer que as primeiras tratam o mundo como um conjunto de acontecimentos (em "frases" que não se equiparam às nossas frases) e as últimas concebem a realidade como conjunto de coisas, de objetos. Da mesma forma, o tratamento do que chamamos tempo e espaço (que nos parecem categorias imprescindíveis) difere fundamentalmente. Isso resulta em reconhecer que a estrutura sujeito/predicado, consagrada por Aristóteles, não configura um fenômeno universal. Nosso mundo nos aparece reificado, ao contrário do mundo daqueles povos indígenas. E essa ideologia, lembra Schaff, resulta "cada vez mais contraditória com a física contemporânea do campo, com as matemáticas, etc." (ibidem, p. 120). 

No plano do cotidiano, Kellogg nos dá um exemplo elucidativo de como evitar o falseamento: você vê um homem exalando uísque, cambaleando na rua e depois caindo, e então deve pensar (em sua língua cotidiana): É um bêbado[2]. Kellogg sugere que em E-Prime teríamos algumas opções: He acts drunk (Ele age como (ou representa) bêbado), ou He looks drunk (Ele parece bêbado), por exemplo. Uma possibilidade, ele explica, seria que se tratasse de um ator fazendo o papel de bêbado. De qualquer forma, E-Prime joga com as possibilidades, o que uma afirmação com ser não consegue fazer: ela se torna incisiva. Ou seja, E-Prime promove uma visão de mundo na qual o usuário percebe situações como eventos mutáveis e não como formas estáticas. Conseqüentemente, nossas expressões trabalham com possibilidades e não com certezas. 

Quero ressaltar ainda o que Kellogg vê como desvantagem no uso de E-Prime, para encaminhar minha própria reflexão. Primeiro, perde-se no inglês o verbo auxiliar em sua função de indicar processo contínuo: It is raining outside, que seria traduzido em E-Prime como It rains outside (o que não perturba na língua portuguesa: usaríamos estar); perde-se o auxiliar to be na indicação do futuro: He is coming se traduziria como He comes (o autor considera isso dramatic!) ou He will come later. Embora isso possa soar estranho, ele releva a possibilidade, uma vez que deve tratar-se apenas de gosto e convenção, e não de perda de sentido. 

Como, infelizmente, muitas vezes se usa a linguagem para manipular pessoas, provocando certas reações físicas ou emocionais, seqüências em E-Prime, que buscam justamente esclarecer, especificar, facilitar interações e comunicar, teriam um impacto bem menor, eventualmente nulo. Compare-se, por exemplo: Você é um idiota! com o "possível" enunciado substituto: Às vezes você age como um idiota". Aqui, com efeito, o sentido muda drasticamente. Kellogg interpreta esse fenômeno da linguagem falada cotidiana como tendo os componentes cortical e talâmico do cérebro, agindo pela congruência e pelo antagonismo. 

Mas o principal está aqui: o uso de E-Prime provoca a perda da força da metáfora em vários contextos. Ele é um tigre!, no nível do sentido, não tem muito a ver com Ele age como um tigre! Perderíamos, nesse caso, uma qualidade das línguas naturais que também implica fornecimento de informação (produzindo conhecimento e não simplesmente manipulando), tanto nas produções mais técnicas como na arte literária.  

Pretendo discutir aqui esta questão, associada à idéia mais ampla de que se pense em como proporcionar (também em termos pedagógicos) um melhor desempenho na escritura de documentos técnicos, apostando na possibilidade de que isso, no decurso das atividades, represente uma maneira de pensar mais adequada, mais científica – em última análise, represente um ganho em termos de percepção e de consciência de mundo, e finalmente de reconhecimento das redes que compõem a vida humana em seu processo de conhecimento e de reconhecimento da alteridade. Gostaria de encaminhar tal com um objetivo semelhante ao que se propôs Kellogg: a busca de uma linguagem que reduza as discrepâncias entre o "mapa" e o "território", uma educação da linguagem que corresponda a uma flexão do sujeito para a própria expressão, para descobrir de que ela fala, e como fala em nós (pré-conceitos). 

2 Por que pensamento não-aristotélico?

Comecemos com um exemplo discutido por Wilson em Toward understanding E-Prime, em que ao lado de uma asserção em inglês standard aparece outra em inglês-prime (traduzo para o português): 

1 A. O elétron é uma onda. 

1 B. O elétron mostra-se como uma onda quando medido com o instrumento-1. 

2 A. O elétron é uma partícula. 

2 B. O elétron mostra-se como uma partícula quando medido com o instrumento-2. 

Considera-se que, pelo estilo de afirmação em A, assume-se (conscientemente ou não) um ponto de vista medieval chamado "essencialismo aristotélico" ou "realismo ingênuo". Ou seja, o mundo é percebido como um conjunto de entidades que comportam essências, e como tal essas entidades são buscadas em seu "estado" ou verdade fundamental. O modo essencialista de olhar provoca, então, contradições. Por outro lado, o estilo de afirmação em B corresponde a uma nova percepção da realidade, tal como se projeta na ciência contemporânea. Lingüisticamente, ocorre a supressão do verbo ser, que pressupõe uma essência independente do sujeito observador e definidor. A percepção de um elemento do mundo passa pelo reconhecimento da perspectiva do observador (sua linguagem mostra que a observação se dá com relação à sua habilidade de percepção no interior da cultura em que se move) e de eventuais instrumentos físicos usados por ele. Nesse sentido, também a linguagem verbal aparece como um instrumento. 

Se o que os físicos chamam elétron (e nós aceitamos como tal) "é" uma partícula mas também "é" uma onda, verifica-se um aspecto interessante de nossas costumeiras definições: algo pode projetar-se sobre nós como x, como y e como z, dependendo do "mirante" em que nos colocamos, ou seja, nossa posição de observador. Se insistimos em usar nossos sentidos de uma única posição (ou seja, situados num ponto do espaço), nossa "sensação" se constrangerá a uma área muito pequena do que entendemos por mundo real. A conformação de nossas línguas particulares, como notado acima através da teoria da relatividade lingüística, fará com que fiquemos cegos às possibilidades de conhecimento.  

O contato com (e o estudo de) culturas diferentes contribui, certamente, para nos mostrar que a percepção pode ser outra, que a interpretação pode diferir: a alteridade estabeleceria a própria compreensão da identidade, da mesma forma que poderia promover o respeito a esse outro que contribui para o autoconhecimento. 

Eis um exemplo capaz de mostrar essa alteridade e a abertura que ela provoca. Observe-se a visão do índio Ailton Krenak em relação à natureza, comparada à nossa forma de encará-la hoje: ele afirma que o respeito à natureza, pelos povos indígenas, não se dá em função do medo, mas em função de ela fornecer tudo aquilo de que necessitam para viver. Assim, o respeito à natureza se antecipa ao conceito ecológico de preservar a natureza. “Uma coisa muito perigosa nesse conceito de proteger, preservar, que vejo no pensamento das chamadas sociedades civilizadas, é que elas podem transformar a natureza em refém da humanidade (...) aquilo que você pode proteger você pode também submeter (...) a floresta é refém da humanidade...” (Entrevista ao Jornal do Brasil, 8/7/91) (apud Moriconi, 1994, p. 85). 

A idéia de domínio da natureza tem raízes profundas na cultura ocidental. Essa atitude se encontra vinculada à própria concepção dualista de nossa tradição cultural e filosófica, que fragmenta a unidade para conhecer, obtendo pares em contraste como o natural e o cultural, o objetivo e o subjetivo, o bem e o mal, o escuro e o claro... "A partir de Bacon [século XIII], o objetivo da ciência passou a ser aquele conhecimento que pode ser usado para dominar e controlar a natureza e, hoje, ciência e tecnologia buscam sobretudo fins profundamente antiecológicos" (Capra, 1998a, p. 51). 

Jacques Derrida, em sua obra de maior impacto, a Gramatologia (publicada originalmente em 1967), estabelece um projeto de "desconstrução" (que se pretende, mais especificamente, uma "problematização") de tudo o que se originou no Logos (a razão, o sopro divino, o discurso, a verdade, a fala) e que acabou se tornando o fundamento da razão ocidental. Em busca de outra forma de olhar, ele destaca pontos cegos e contradições de uma concepção de mundo que, apesar da proliferação de teorias, vem marcada por uma construção hierárquica e notadamente dicotômica da realidade. Uma de suas vertentes, assim, se apresenta como a necessidade e o "direito" do homem de dominar a natureza. Como centro do mundo, o homem devia estar parado da mesma forma que a Terra (estaria): ponto nodal, estático, observatório do que se movia ao redor.  

Uma convicção largamente expandida (embora inconsciente), no tocante às relações língua/pensamento, expressou-se como a independência das duas entidades: pensar e falar seriam atividades distintas por excelência. As possibilidades da língua consistiriam em "recursos oferecidos ao espírito para o que se chama expressão do pensamento" (Benveniste, 1966, p. 66 [trad. minha]). Como, porém, definir um conteúdo de pensamento, se ele recebe forma apenas quando se o enuncia? Benveniste propõe uma questão interessante e procura uma resposta: poderíamos reconhecer ao pensamento características que nada devam à expressão lingüística? Dada a materialidade da expressão lingüística, sua descrição se torna possível; como entretanto, atingir o pensamento em sua "nebulosa", como diria Saussure? 

Benveniste se propôs investigar os dados elaborados por Aristóteles: as categorias como inventário das propriedades que o filósofo julgava poder predicar de um objeto (do ser), uma lista de conceitos a priori que, segundo ele, organizam a experiência. Essas categorias, em sua paisagem metafísica, assim se apresentam: substância; quanto; qual; relativamente a quê; onde; quando; estar em postura; estar em estado; fazer; sofrer. Exemplos possíveis, respectivamente: general, homem, cavalo/ de duas côdeas/ branco, instruído/ duplo, meio, maior/ no Liceu, no mercado/ ontem, no ano passado/ ele está deitado, está em pé/ ele está calçado, está armado/ ele corta/ ele está queimado, está doente. 

Qual a tarefa seguinte de Benveniste? Mostrar "que essas distinções são primeiramente categorias de língua, e que de fato Aristóteles, raciocinando de uma maneira absoluta, reencontra simplesmente categorias fundamentais da língua na qual pensa." (op.cit., p. 66). Para ele, então, Aristóteles apresenta um pretenso quadro de condições gerais e permanentes que não representa mais que a projeção conceptual de um estado de língua dado. E, observa ele, acima de toda essa categorização eis a noção de ser que envolve tudo, como condição de todos os predicados. De fato, no grego, o verbo ser tem várias funções, uma riqueza incrível de empregos. Tal situação lingüística particular gerou toda a metafísica do ser e estabeleceu sua objetivação. 

Através de uma comparação etnolingüística, Benveniste mostra que "a estrutura lingüística do grego predispunha a noção de "ser" a uma vocação filosófica". Conclui que, na epistemologia moderna, mais produtivo que estabelecer um quadro de categorias constitui "conceber o espírito mais como virtualidade que como quadro, como dinamismo que como estrutura." (ibidem, p. 73). 

Essa estratégia essencialista de conhecimento, que ainda perpassa a cultura ocidental (e entra em conflito com a ciência contemporânea), tem suas raízes na antiguidade clássica; teria nascido  

...do sentimento de não-aceitabilidade da realidade imediata, povoada de ambigüidades e aparências que confundem o espírito e o induzem ao erro (...), e, em conseqüência, da necessidade de encontrar uma região mais firme e estável do ser – a ordem das essências –, que não apenas revele a natureza íntima das coisas, como também explique as suas aparências, remontando-as até ela (ordem das essências) (Domingues, 1991, p. 365). 

Note-se que é nesse quadro que encontramos o modelo lógico-metafísico da linguagem, resultado da busca de coerência de duas exigências contraditórias: a) exigência da ontologia de princípios, que quer que a verdade do discurso se reporte ao em-si da coisa (sua verdade); b) exigência do matematismo (logicismo), que quer que a verdade do discurso nasça do jogo dos conceitos no interior do discurso (e apenas dele), valendo como verdade do pensamento (ibidem, p. 366). Nesse jogo, vemos desenhar-se como correspondência lingüística a "função de referência" (através da descrição ou do nome), a "função de predicação" (nexo), a "proposição" (com a forma canônica "S é P"). 

3 A teia da vida e o metadiscurso

O eu é posto pelo pensamento, mas até agora acreditava-se, tal como crê o povo, que no "eu penso" residisse algo de imediatamente evidente e que este "eu" fosse a causa dada do pensamento, por analogia com o qual perceberíamos todas as outras relações causais. Por muito enraizada nos hábitos e imprescindível que hoje seja aquela ficção, isso só, por si, nada prova contra o seu carácter fictício: uma crença pode ser condição de vida e, apesar disso, ser falsa (Nietzsche, apud Marques, 1989). 

Em que pese o respeito que devemos a Descartes, como um dos fundadores da ciência moderna, eis (acima) nas palavras de Nietzsche um índice do reconhecimento de que a "certeza" de um correto raciocínio não nos põe a salvo de falsificações e igualmente não nos leva necessariamente a tocar o que se possa chamar 'verdade'. 

O século XX acompanhou uma série de mudanças dramáticas que se sucederam em várias áreas teóricas e experimentais, desde a Física até a Teoria da Literatura, conduzindo paulatinamente a uma reviravolta de concepções e idéias. A Física, lidando com a natureza do universo, foi um marco indiscutível do impulso para uma nova percepção da realidade, em contraste com a visão mecanicista de Descartes e de Newton, que dominou/domina por mais de trezentos anos. A nova visão se caracteriza como holística, ultrapassando a metodologia da fragmentação, da análise para a busca do conhecimento, mostrando um mundo multifacetado, movente e em inter-relação constante.  

Assim, vê-se contestada a profusão de rígidas dicotomias estabelecidas filosoficamente e decretadas, como resposta, nas ciências em geral. A dominante talvez seja aquela discutida por Descartes: mente/corpo, com a mente sobrepujando o corpo. Mas interessa também saber que, uma vez "desconstruída" essa independência – essa (não) relação –, nada impede, a partir de um trabalho crítico, continuar aceitando o ponto de vista dualista, sem, contudo, manter a independência estabelecida. Veja-se, por exemplo, a proposta de Popper no seu conhecido De nuvens e relógios (1975, p. 231 [or. 1973]): “como Descartes, proponho a adoção de um ponto de vista dualista, embora, sem dúvida, não recomende falar de dois tipos de substâncias interatuantes. Mas penso ser útil e legítimo distinguir dois tipos de estados (ou eventos) interatuantes, os físico-químicos e os mentais.”  

Essa proposta se encaixa numa teoria evolucionária bastante abrangente, que Popper discute detalhadamente no trabalho citado. Para contextualizar melhor a proposta – que segue, como pano de fundo, os princípios do indeterminismo como solução moderna a uma série de problemas estudados na Física –, veja-se este recorte: 

Devemos admitir que a consciência cresce de começos pequenos; talvez sua primeira forma seja um vago sentimento de irritação, experimentado quando o organismo tem um problema a resolver, tal como afastar-se de uma substância irritante. Seja como possa ser, a consciência assumirá significação evolucionária – e significação crescente – quando começar a antecipar meios possíveis de reagir; movimentos possíveis de experiência e erro e seus possíveis resultados. 

Podemos dizer agora que os estados conscientes, ou as seqüências de estados conscientes, podem funcionar como sistemas de controle, de eliminação de erro: a eliminação, via de regra, de comportamento (incipiente), que é movimento (incipiente). A consciência, deste ponto de vista, surge como somente um de muitos tipos de controle interatuantes. (op.cit., p. 229-230)

Por outro lado, a consciência também sofre o controle de sistemas lingüísticos que Popper chama de exossomáticos – ainda que produzidos pela própria consciência. Ou seja, usando a comparação do autor, da mesma forma que um sistema legal ou social, produzido por nós, nos controla (há muitas evidências) e também interage conosco, assim os estados de consciência (a mente) controlam parcialmente o corpo e interagem com ele. 

Penso que só teremos de fazer um ajuste a essa formulação de Popper, se quisermos seguir os últimos desdobramentos da perspectiva indeterminista: "Na emergente teoria dos sistemas vivos, a mente não é uma coisa, mas um processo." (Capra, 1998b, p. 209). A ênfase me parece válida, apesar de Popper salientar o movimento da consciência, estabelecendo uma teoria evolucionária. 

Pontuemos agora a noção de 'metadiscurso', referida no subtítulo acima para ser relacionada com tudo o que se encontra em discussão.  

Essa expressão faz parte do arcabouço da Análise de Discurso dita de orientação francesa, que assim, segundo um de seus representantes, define o seu campo:  

... a disciplina que, em vez de proceder a uma análise lingüística do texto em si mesmo ou a uma análise sociológica ou psicológica do seu "contexto", visa articular a sua enunciação com um determinado LUGAR social. Deste modo, a análise do discurso tem de se ajustar aos GÊNEROS DE DISCURSO na obra, nos setores do espaço social (...), ou nos campos discursivos... (Maingueneau, 1997). 

O metadiscurso se qualifica pela possibilidade que um locutor tem de  

... comentar a sua própria enunciação no interior dessa enunciação: o discurso é recheado de metadiscurso. Este metadiscurso pode incidir igualmente sobre a fala do coenunciador para a confirmar ou a reformular: ao mesmo tempo que se realiza, a enunciação avalia-se a si própria, comenta-se, solicitando a aprovação do coenunciador ("se me for permitido dizer", "estritamente falando", ou antes", "quer isto dizer que...") (idem, ibidem). 

Essa bizarra função, salientada pelos analistas do discurso, corresponde a um desdobramento do sujeito enunciador e a um desdobramento de seu discurso, na instância da enunciação (fluxo discursivo), assumindo papéis variados que não vou detalhar aqui: autocorreção, nota sobre eventual inadequação de termos efetivamente usados, especificação do sentido que se busca, desculpa pelo uso de certas expressões, reformulação de propósito... Embora se possa pensar que essas ocorrências seriam esperadas apenas no discurso face a face mais espontâneo, isso ocorre com muita freqüência nas formas mais elaboradas, o que mostra que se trata de uma estratégia discursiva (mesmo que pouco consciente), apontando para uma dimensão profundamente dialógica das manifestações lingüísticas, ou seja: os interlocutores negociam num espaço heterogêneo de linguagens que se cruzam e interagem. 

Constituiria isto uma parte da "teia da vida"? Por que esse perene conflito com um material que talvez gostássemos de ver sem equívocos (podemos legitimamente lembrar os filósofos que, objetivando lidar com a ciência, "imaginaram" uma língua higienizada, límpida, sem corrupções...)? 

Capra (1998b) nos relata que, a partir da descoberta da caverna Chauvet (1994, Ardèche, sul da França), mostrou-se que há cerca de 30.000 anos nosso ancestral já produzia pinturas extremamente bem acabadas. Essas pinturas marcam a presença do Homo Sapiens, aquele capaz de trabalhar artisticamente e de usar símbolos para algum tipo de comunicação. E Capra conclui: "Isto significa que um entendimento adequado da evolução humana é impossível sem um entendimento da evolução da linguagem, da arte e da cultura" (p. 208). Tal decisão se articula com o interesse pela mente e pelo processo da consciência (elemento-chave como articulador do conhecimento). 

A "limpidez" da linguagem já foi amplamente perseguida, mas curiosamente ela sempre escapava dos modelos ou só podia ser utilizada limitadamente, pela redução que sofria. Hoje, de um modo geral, os cientistas aceitam que a linguagem que usam (embora com certos ajustes técnicos, seleção e preferências, e como auxiliares de outras linguagens, adequadas aos gêneros da ciência) tenha aplicabilidade limitada, e como conseqüência as teorias e conceitos engendrados para explicar a natureza sejam necessariamente limitados. Em termos claros, nas palavras de Capra (1998a, p. 45), "os cientistas não lidam com a verdade; eles lidam com descrições da realidade limitadas e aproximadas." 

4 Aproximações

Tentemos agora articular o que foi assumido como metadiscurso, P(ortuguês)-Prime como uma nova forma de expressão – especialmente em certas circunstâncias – e a proposta de mudar nossas percepções de mundo, considerando o pano de fundo das novas concepções na área da Física e da revisitada teoria da relatividade lingüística. Adicionalmente, perguntemo-nos que papel terá a metáfora (se tiver) nessa forma de ação. Por fim, perguntemos se aí se delineia algo que se possa designar como "preconceito" (tal como sugerido no título deste texto). 

Essas relações interessam particularmente porque: 1) há aí bem mais que indício de uma crise (a expressão se traduz, na perspectiva do chinês, pela junção de dois símbolos que representam "perigo" e "oportunidade"), crise que implica a necessidade (e a possibilidade) de uma mudança de atitude; 2) desencadeiam em nós a preocupação em tornar adequada nossa expressão lingüística tanto nos contextos orais quanto nos escritos, "forçando-nos" a fletir sobre ela e nossos conteúdos de consciência – o que pode parecer um esforço angustiante e desestimulante sobretudo quando escrevemos; 3) correspondem a um convite para mudar o ângulo de visão e não aceitar facilmente tudo o que pacificamente consideramos "evidente", "óbvio", "lógico"; trata-se de um deslizamento que nos faz buscar novo equilíbrio.  

De certa forma, fazem-nos o convite para aprender uma nova língua, que se revela também como o aprendizado de uma nova cultura e o envolvimento para produzi-la.  

P-Prime, analogamente a E-Prime, corresponderia a uma "lavagem cerebral" (no bom sentido), que nos livraria de toxinas, agentes destrutivos. Essa aprendizagem obrigaria a olhar para o funcionamento da mente, pelo uso de certos protocolos. Tal mudança autoforçada evocaria horizontes em ampliação, com imagens que aos poucos se tornariam menos embaçadas. Seria como providenciar novas lentes para corrigir nossa miopia. 

O metadiscurso – parafraseando a caracterização feita acima – corresponde à monitoração daquilo que linearizamos para formar o texto. Ele tem em vista, de maneira marcante, o interlocutor (virtual ou real), e se processa por um retorno ao já formulado, pela "leitura" silenciosa. Monitorar, nesse sentido, pode ser entendido como colocar-se em duas posições articuladas de leitura: uma, de enunciador recuperando suas estratégias de leitura na própria formulação oral ou escrita; outra, da imagem que este faz do co-enunciador, de suas reações. Assim é que, em situação face a face, as oportunidades de negociação crescem, pelos numerosos indícios disponíveis à medida que o discurso flui.  

Qual a relação entre a proposta de P-Prime e o metadiscurso? Ora, esse processamento quase paralelo de monitoração continuaria existindo para se produzir textos em P-Prime, mas teríamos um objetivo final um pouco diferente: abolir relações essencialistas nas seqüências textuais que assumimos, pela implicação aí presente. Suponhamos um enunciado como: Na verdade, X é Y, correspondendo a uma identificação, a uma inclusão em classe ou a uma predicação de atributo. Eis uma forma alternativa não essencialista: X aparece (ocorre) como (com a característica) Y. Isso nos constrange a uma atenção redobrada, visto que sabemos estar enraizada em nosso comportamento a relação X ser Y. Mas podemos ainda realizar o retorno metadiscursivo, com um acerto de rota (sentido): Na verdade, X é Y, quero dizer, X aparece com tais características em tais situações. 

Nossas estratégias discursivas gerais – e isso se mostra aqui como alentador – já apontam que nossa produção textual mais madura emerge eivada de pistas para relativizar certas asserções e conduzir a leitura por nosso interlocutor, e isso marca bastante a formação heterogênea de nossas formulações. Alguns exemplos desse processamento (cf. termos em negrito): 

1. A fala é aí considerada um sistema cultural, uma atividade regida por normas implícitas... 

2. Os discursos, segundo Maingueneau, dividem-se em dois pólos. 

3. Em sentido estrito, atribui-se esta designação a um conjunto de pesquisas... 

4. A consciência, deste ponto de vista, surge como somente um de muitos tipos de controle interatuantes;... 

5. Fulano de tal teria dito... 

6. Na perspectiva da teoria da gramática gerativa... 

7. Acredita-se que... 

8. Isto sugere fortemente que... 

9. X aponta para a possibilidade (probabilidade) de... 

10.  Com base em X, é possível dizer que... 

11.  A crer na postulação de X, podemos concluir que... 

12.  Se isto for verdade, então podemos dizer que...  

13.  Partindo desta afirmação, não seria contraditório afirmar... 

Tais modos de expressão nos levam a pensar num compromisso autoral de demarcar sujeitos, espaços, tempos e circunstâncias no imenso entrelaçado textual. Compare-se esse conjunto assim modalizado com o seguinte, abundante em nossas gramáticas antigas e modernas: 

14. Fonética é a parte da gramática que estuda e classifica os fonemas de uma língua. 

15. Fonema é a menor unidade sonora que possui a propriedade de estabelecer distinção entre palavras de uma língua. 

16. A letra é simplesmente a representação gráfica do fonema. 

17. A língua é um organismo vivo, modifica-se no tempo. [mas não a concepção de 'língua', parece] 

18.  Substantivos epicenos são substantivos uniformes que designam animais. 

19.  Substantivo é a palavra variável em gênero, número e grau que dá nome aos seres em geral. 

Nessa forma de caracterização o temporal some, não há sujeitos, mas "verdades" proferidas para permanecerem como tais, independentes e objetivas. Bem notamos que muitos dos proferimentos cotidianos em nossa língua se pautam por esse molde rígido, e assim foram modeladas nossas mentes. 

Do ponto de vista do discurso, sob o aspecto funcional, associo a esse modo de perceber o mundo a inevitabilidade do interdiscurso, conceito recorrente na Análise do Discurso. Nossos textos sempre se mostram formulados a partir de um conjunto discursivo (variável em termos de campo/tema e época) que constitui uma fonte para a construção subjetiva, em conformidade com certos critérios. Esse retorno ao "manancial", que, segundo Popper, constitui o Mundo3[3] (mundo objetivado, compondo sistemas lingüísticos exossomáticos, "universo de significados", como referi anteriormente), implica um controle de nossa consciência.  

... se lembrarmos os sistemas de controle incorporados, por exemplo, em livros – teorias, sistemas de lei e tudo quanto constitui o "universo de significados" – então a consciência dificilmente poderá ser tida como o mais elevado sistema de controle na hierarquia. Pois ela é, em considerável extensão, controlada por esses sistemas lingüísticos exossomáticos – ainda mesmo que se possa dizer que eles são produzidos pela consciência (Popper, 1975, p. 230). 

Lembremos apenas que tal controle não se dá como determinístico, mas "plástico" (termo usado por Popper).  

Não somos forçados a nos submetermos ao controle de nossas teorias, porque podemos discuti-las criticamente e podemos rejeitá-las livremente se pensarmos que não atingem nossos padrões reguladores. (...) Não só nossas teorias nos controlam, como podemos controlar nossas teorias (ibidem, p. 220). 

Quero dizer com isto que os discursos se apóiam numa tradição (o Mundo 3, uma memória de quadros lingüísticos), tal e qual faço aqui, e ao mesmo tempo possibilitam a formação de sua própria tradição, ou seja, um certo modo de existir. Ora, a nossa tradição mais ampla, que tem regulado nosso modo genérico de pensar e nossas formas de perceber o mundo, está sendo seriamente questionada através de uma série de conhecimentos e de mudanças significativas que apontam uma crise, como salientei acima. Estamos, pois, sendo convidados a mudar nosso comportamento, em cada um de seus aspectos. 

Podemos, então, conceber a proposta de exercitar P-Prime como um aspecto dessa mudança, que reforçará nossa preliminar concordância quanto à crise e quanto à necessidade de fazer novas opções. A crise na linguagem corresponde já a um sintoma pouco duvidoso de que os grupos sociais enfrentam problemas que não conseguem resolver, sobressaindo então fortes conflitos e descontentamento generalizado. 

Como fica a metáfora nessa forma de ação? 

Kellogg nos lembrava (v. início deste trabalho) que o exercício em E-Prime provocaria a falência da metáfora. Uma expectativa, na área científica, seria que os pesquisadores não utilizassem construções metafóricas, pela implicação subjetiva que elas comportam. Poderíamos talvez dizer que elas aparecem aí, sim, mas a ocorrência de certas figuras se tornou tão comum que elas passaram a ser chamadas de "metáforas mortas", tais como em células adultas, célula-mãe, células prismáticas, parede das células, ilhas embrionárias, comportamento vegetal, família de plantas, plantas jovens... (cf. Coracini, 1991). Acrescentemos a memória e a inteligência dos computadores... 

A forma canônica da metáfora assim se mostra: X é Y, e se baseia num elemento lexical isolado; a aproximação de dois termos, um substituindo o outro, por algum tipo de semelhança, produziria um efeito de sentido que chamamos "figurado". Outra configuração deixa implícito o verbo ser. Veja-se este exemplo:  

20. A base filosófica da teoria da matriz S é conhecida como abordagem bootstrap.(Capra, 1998a, p. 87) 

Bootstrap remete a "tira ou correia de bota"; fez-se aí um uso metafórico da expressão, que é conhecida na seqüência to raise oneself by one's own bootstraps (subir puxando pelas tiras das próprias botas) "subir por seus próprios esforços", o que lembra várias passagens das aventuras do barão de Münchhausen. Com efeito, a filosofia denominada bootstrap não aceita entidades fundamentais. O autor do enunciado processou uma figuração já aceita (criativa, por sinal), e que se justifica, em última análise, pela própria abordagem que faz do mundo: pela imagem de uma teia de complexas relações. Não deve admirar-nos que essas aproximações tenham sempre abastecido as mentes humanas. 

Assumimos hoje, entretanto, que longas seqüências metafóricas atravessam os textos, e a simples idéia de substituição de um termo por outro não explica esse processo. Parece mais justo, com efeito, encará-lo como uma espécie de intercâmbio entre campos lingüísticos correspondentes a áreas de conhecimento, todas tocando-se de alguma forma e criando relações novas e novo modo de percepção. Mais um motivo, portanto, para considerar que a utilização de metáforas, longe de ser basicamente um sintoma de concepção essencialista, apresenta-se como uma estratégia discursiva (argumentativa) conveniente para provocar deslizamentos de cognição. Diga-se ainda que as boas metáforas, chamadas "metáforas vivas", emergindo no fio discursivo como novo vetor para a compreensão, supõem um trabalho criativo capaz de concretizar o "desvio" que se pretende. 

Alguns exemplos poderão evidenciar esse esforço (observar negrito): 

21. "... um número cada vez maior de fenômenos poderia ser gradualmente coberto, com crescente precisão, por um mosaico de modelos engrenados entre si... " (Capra, 1998a, p. 88); 

22. "... seu [de David Bohm] objetivo é explorar a ordem que ele acredita ser inerente à teia cósmica de relações em um nível mais profundo, 'não manifesto'." (Idem, ibidem, p. 90); 

23. "Eles [os biólogos] conhecem algo sobre os circuitos nervosos, mas a maioria das ações integrativas ainda está para ser entendida." (Ibidem, p. 97); 

24. "... essas teorias de chave-mestra – quer a de Descartes, quer as teorias de amplificador dos físicos de quantum – pertencem ao que eu talvez possa chamar teorias "bebês miudinhos". Parecem-me quase tão sem atrativos quanto tais bebês." (Popper, 1975, p. 214); 

25. "De nuvens e relógios" (título de uma conferência de Popper (1975)); 

26. "Quando (...) o Cônego Charles E. Raven (...) descreveu a controvérsia darwiniana como uma "tempestade numa chávena vitoriana", concordei, mas critiquei-o por dar demasiada atenção "aos vapores que ainda saíam da chávena", com o que me referia ao ar quente das filosofias evolucionárias (...). Mas agora tenho de confessar que esta chávena tornou-se, afinal de contas, minha xícara de chá; e com ela tenho de comer humilde bolo." (Ibidem, p. 221). 

Ampliaremos em muito os exemplos palpáveis se observarmos que os autores muitas vezes fazem analogias explícitas (comparações): o indeterminismo comparado a uma nuvem, o determinismo comparado a um relógio, a vida comparada a uma teia, a práxis funcionando como uma espora ou uma rédea, a imaginação como algo capaz de vôos teóricos... 

A perspectiva de organização cognitiva, por sua vez, de culturas consideradas diferentes (e mesmo divergentes, oponentes), leva-nos a entender que o enraizamento de sistemas lingüísticos nas comunidades produz filtros que condicionam o modo de projeção da realidade. Eles constituem, pois, pré-conceitos que influenciam nosso comportamento e constituem travas na aventura do conhecimento. 

5 Preconceitos...

Basta juntar as teorias e as perspectivas apresentadas no curso desta reflexão para constatar que a forma como vemos e interpretamos o mundo e as relações que conseguimos vislumbrar se encontra condicionada pelos sistemas de linguagem (semióticas) que aprendemos em nossas comunidades, a partir da aquisição (já condicionada, por sua vez) da língua materna, de sua expansão através de sistemas de ensino e, posteriormente, por nossas próprias preferências teóricas em nível mais formal. Tais aparatos geram em nós um mundo referencial (de significações) que associamos a tipos de verdades, convicções e identidades, ao mesmo tempo que desconfiança e rejeição com respeito ao que se possa interpretar como alteridade, diferença, oposição. 

A percepção da mudança, a compreensão da necessidade de estabelecer novos ângulos e assumir novas atitudes não se verifica sem a possibilidade de optar, ou seja, de fazer uso da parte de liberdade que podemos exercer, através dos processos de autoconsciência: isso, parece-me, apresenta-se como a via de reconhecimento do preconceito, efeito ideológico mascarado na parte de inconsciência que habita nossa linguagem, falando em nós... 

 

Julho de 1999 

Referências

BENVENISTE, Émile. Catégories de pensée et catégories de langue. In: _____. Problèmes de linguistique générale I. Paris: Editions Gallimard, 1966, p. 63-74. 

CAPRA, Frtjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1998a.  

_______. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução de Newton Roberval Eichemberg. São Paulo:

 Cultrix, 1998b. 

CORACINI, Maria José. Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da ciência. Campinas: Pontes, 1991. 

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Mirian Schnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973. 

DOMINGUES, Ivan. O grau zero do conhecimento: o problema da fundamentação das ciências humanas. São Paulo: Loyola, 1991. 

KELLOGG, E.W. Speaking in E-Prime: an experimental method for integrating general semantics into daily life. Disponível em http://www.crl.com/~isgs/speak_e.htm. Acesso em 19 jul. 1999. 

MAINGUENEAU, Dominique. Os termos-chave da análise do discurso. Trad. de Maria Adelaide P. P. Coelho da Silva. Lisboa: Gradiva, 1997. 

MARQUES, António. Sujeito e perspectivismo: seleção de textos de Nietzsche sobre teoria do conhecimento. Tradução de Rafael Gomes Filipe. Introdução e notas de António Marques. Lisboa: Dom Quixote, 1989. 

MORICONI, Ítalo. A provocação pós-moderna: razão histórica e política da teoria de hoje. Rio de Janeiro: Diadorim, 1994. 

POPPER, Karl R. De nuvens e relógios. In: _______. Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionária. Tradução de Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975. 

SCHAFF, Adam. A etno-lingüística: a hipótese de Sapir-Whorf. In: _______. Linguagem e conhecimento. Tradução do texto francês Manuel Reis. Coimbra: Almedina, 1974. (Or. pol. 1964) 

TERWILLIGER, Robert F. Psicologia da linguagem. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix; Edusp, 1974. 

WILSON, Robert Anton. Toward understanding E-Prime. Disponível em http://members.icanect.net/~zardoz/eprime.htm. Acesso em mar. 1999.

Notas


* Dedico esta reflexão aos alunos da primeira turma de Mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul (1999).

** Professora da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul.

[1] v. Terwilliger, 1974, p. 301 ss.; para uma reflexão em detalhe da hipótese, v. Schaff 1974, IIParte.

[2] Em inglês, He is drunk, que preferi não traduzir por Ele está bêbado, porque perderíamos o efeito de sentido que aquele enunciado apresenta, considerando que em inglês não há o contraste ser/estar).

[3] Em síntese, o Mundo 1 seria constituído por objetos físicos ou de estados materiais; o Mundo 2 seria auqele dos estados mentais (disposições comportamentais para agir); o Mundo 3 seria aquele de conteúdos objetivos de pensamento (teorias, leis, sistemas em geral e obras de arte, mundo de significados produzidas e estabelecidas).

 

 

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