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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 2, jul./dez. 2001


 

A CONSTRUÇÃO DA LÍNGUA ENTRE TELHADOS E TEIADOS:

UMA LEITURA DE “VÍCIO NA FALA”, DE OSWALD DE ANDRADE*  

Carla Beatriz Souza Lopes**

 

Resumo: Este artigo analisa o poema Vício na fala, de Oswald de Andrade, realizando uma abordagem sobre a linguagem verbal, com incursões pela linguagem poética  e num enfoque sociolingüístico.

Palavras-chave: Língua, fala, linguagem, escrita.

Resumé: Cet article analyse le poème “Vício na fala”, de Oswald de Andrade, réalisant un abordage sur le langage verbal, en faisant des incursions vers le langage poétique et dans perspective sociolinguistique.

 

1 Introdução

A língua é linguagem, na forma mais plena de possibilidades de comunicação entre os homens. No que se refere à linguagem e à língua, ou linguagem verbal, muitas pesquisas têm sido feitas, desde tempos longínquos. Mas, ao mesmo tempo, ainda persiste a necessidade de reflexões, para melhor compreensão do conhecimento já estruturado, bem como para indagá-lo.

No que diz respeito à língua, ainda são muitas as lacunas até que o desempenho, pelo falante, seja considerado, de fato, como exercício de uma gramática tão legítima quanto a do padrão oficial, maiúscula.

 

2 A construção da língua entre telhados e teiados: uma leitura de "vício na fala", de Oswaldo de Andrade

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha teia

Para telhado teiado

E vão fazendo telhados.

Oswald de Andrade

O texto de Oswald de Andrade atesta o que foi considerado na introdução, quanto à língua utilizada pelo falante.Os homens que falam “mio”, “mió”, “pió”, “teia”, “teiado” constroem os telhados, e os que usam o padrão oficial da língua provavelmente não conseguiram construí-los. Se constroem os telhados aqueles que dizem “teiado”, qual o problema com esta forma? Se a língua utilizada pelo falante pode ser compreendida enquanto mensagem, por que não se aceita com tranqüilidade esta forma de falar?

É possível perceber que o problema não está na escolha de “teiado”, mas na diferença que existe entre os que enunciam as duas formas da mesma palavra. São diferentes, já a partir da língua utilizada por eles, e tem prestígio social o que enuncia a forma “telhado”, em detrimento dos que usam “teiado”.

Para Aristóteles, um atributo é prestigiado, dependendo da pessoa em quem ele vive (Mondin, 1981, p. 83). Tem prestígio social a língua utilizada pelos falantes pertencentes a determinado grupo social: aqueles que possuem nível superior de letramento. Se estes utilizam “telhados”, não se vê como forma padrão a forma “teiado”. Oswald de Andrade apropria-se da forma “teiado” para, enquanto poeta, sacralizá-la. Para ele, cabe o uso desta forma, uma vez que se sabe ser possível, para o escritor literário, apropriar-se das formas menos prestigiadas da língua, sem que sofra qualquer tipo de censura.

Em seu poema, Oswald de Andrade utiliza a escrita para, de certa forma, revelar o conflito social existente entre as variedades de uma mesma língua e, ao mesmo tempo, o conflito social que se estende à relação língua/ fala.

Auroux (1998, p. 67), ao tratar das relações entre a escrita e o poder, atenta para o fato de que, embora a linguagem esteja presente em todas as sociedades humanas, o mesmo não ocorre com a escrita, presente só em algumas delas.

Esta relação escrita/ poder também é abordada por Jean-Jacques Rousseau em seu Ensaio sobre a origem das línguas. Este filósofo afirma que “a arte de escrever não decorre da arte de falar” (1998, p. 125). A arte de escrever resulta de necessidades de outra natureza, que nascem mais cedo ou mais tarde nas sociedades humanas, e poderiam nunca ter existido em algumas delas.

Auroux relaciona estas necessidades ao que Lévi-Strauss caracterizou como nascimento de novas formas de poder. Segundo Lévi-Strauss, os povos americanos que utilizavam a escrita antes da conquista viviam antes mesmo da chegada dos conquistadores em uma sociedade hierárquica, em que existiam as relações senhor/ escravo. As observações do antropólogo fortalecem a idéia de que a arte de escrever está intimamente ligada a relações de poder.

Conforme Rousseau, a escrita não fixa a língua, mas a altera, uma vez que a escrita não consegue abarcar todos os matizes da língua falada. Só a fala permite uma variação da acepção comum das palavras, conferindo à língua uma vivacidade praticamente inatingível pela língua escrita (p. 128-129).

Ao se retomar o texto de Oswald de Andrade como enunciador do conflito língua/ fala, é pertinente pensar o quão denunciador se faz o poema, no que diz respeito às relações de poder da escrita sobre a fala. É como se o poeta, por frágeis instantes, quisesse fixar a vivacidade das telhas que vão sendo sobrepostas a outras telhas, misturadas ao suor dos homens que trabalham sob o sol, para a construção dos “teiados”. A fala, língua viva do povo, desafia o estamento da língua escrita e se faz presente no texto: dessacraliza-se a escrita e sacraliza-se a fala, o elemento oral.

Sabe-se que a idéia da linguagem literária como desvio do padrão oficial vem de longa tradição. Masa Nomura (1993, p. 72-73), para retomar as origens desta linguagem, remonta aos formalistas russos, nas duas primeiras décadas de nosso século, que definiram a linguagem poética como estranhamento. Roman Jakobson, na década de 60, define a função poética dos signos lingüísticos como a mensagem sobre si mesma, portanto analisável lingüisticamente. Na mesma época, Siegfried J. Schmidt conceitua a linguagem poética enquanto ocorrência. Todorov e o grupo de Liège, na década de 70, estabelecem a tipologia das anomalias lingüísticas, reclassificando as figuras retóricas conforme a violação de regras representada por elas. E, na poética gerativa (1965), Manfred Bierwisch retoma a noção de desvio para a linguagem poética.

É exatamente por desviar-se do padrão lingüístico oficial que o texto de Oswald de Andrade revela o conflito social existente na diversidade de línguas. Tal conflito relaciona-se àquilo que Auroux denomina racismo lingüístico: as diferenças reais são interpretadas como diferenças de estatuto intelectual e espiritual, ou seja, como diferenças de humanidade (Auroux, 1998, p. 375).

Conforme o lingüista, este racismo tem duas fontes: a lingüística popular e a lingüística erudita. A primeira destas fontes relaciona-se à idéia que os povos possuem de que a língua utilizada por eles, por ser diferente de outras, é superior a elas. A segunda está ligada à concepção de que o grego ou o alemão, por exemplo, teriam ascendência insuperável, por serem línguas importantes na constituição das disciplinas lingüística e filosofia.

Vale dizer, ainda, que os gregos acreditavam na absoluta distinção e superioridade de sua língua sobre as demais. Para eles, havia muitas línguas nacionais no mundo, mas todas eram bárbaras ou inferiores (Clark e Holquist, 1998, p. 305).

O poema em análise rebela-se contra uma espécie de racismo lingüístico que não está representado pela diferença de línguas estrangeiras, como já se pode perceber, mas pela diferença de línguas dentro de uma mesma língua, diferença que, por muitas vezes, segrega. É contra este racismo lingüístico que o discurso de Oswald se volta e, mais especificamente, para a necessidade de uma ética lingüística que, segundo Auroux, caracteriza-se pela aceitação do fato da diversidade de línguas (Auroux, 1998, p. 375), neste caso, dentro de uma mesma língua. 

Ao ler o texto de Oswald de Andrade enquanto enunciador de conflito social, lê-se este texto como discurso, ação, numa perspectiva bakhtiniana. Para Bakhtin, as palavras isoladas perdem seu valor. Em contraposição, adquirem vida quando em um contexto maior, o contexto social. Não basta a ele o estudo da língua, mas o estudo da comunicação através desta língua. Quando as pessoas a utilizam, não procedem como máquinas, mas como consciências que sabem da existência de um falante e de um ouvinte.

É neste aspecto que o texto de Oswald se revela como “um elo em uma cadeia de comunicação” (Clark e Holquist, 1998, p. 237) e não se pode esgotar em uma abordagem lingüística que não se preocupe com a função social da linguagem. Trata-se de uma linguagem que, conforme o teórico russo, habita o aqui e o agora, tem vida concreta e respira. A vida extrapola a palavra grafada na folha de papel e encontra a rua, o mundo. Se assim não for, por que refletir sobre a língua e suas diversidades? Se a língua não se portar enquanto vida, como compreender que os homens que dizem “teiado” possam construir os “telhados” nos quais nos abrigamos do frio, do sol, da chuva para ler nossos livros e escrever nossos textos? 

3  Conclusão

Celso Pedro Luft afirma que “a língua é o que é, e não o que poderia ou deveria ser: ela é como a fizeram e fazem os que a falaram e falam”. 

É a língua do operário, do doutor, do sertanejo, que faz a história de um tempo. É a língua viva que se faz compreender àqueles que a querem ouvir. Mas, é nessas misturas de língua/ fala, que o homem vai construindo seu modo próprio de ver e viver a linguagem humana.

A língua do telhado ou do “teiado” assume, aqui, a identidade do falante que não perde o seu valor por internalizar uma dessas formas. Ela “é o que é”, porque o espaço existe, e permite a sua performance, no padrão oficial ou coloquial. 

 

Referências

ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

AUROUX, Sylvain. Filosofia da linguagem. Campinas: Ed. da Unicamp, 1998.

CLARK, Katerina, HOLQUIST, Michael. Mikhail Bakhtin. São Paulo: Perspectiva, 1998.

MONDIN, Battista. Curso de filosofia. São Paulo: Paulinas, 1981. 

MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

NOMURA, Masa. Linguagem funcional e literatura: presença do cotidiano no texto literário. São Paulo: Annablume, 1993.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Ed. da Unicamp, 1998.

 

 

Notas


* Trabalho apresentado à disciplina Formação das Ciências da Linguagem, orientado pelo professor Dr. Fábio José Rauen.

** Professora da Unisul, mestranda em Ciências da Linguagem pela Unisul.

 

 

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