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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 2, jul./dez. 2001


 

ESTRATÉGIAS DE COMPOSIÇÃO DE COLAS-RESUMO*

 Elisângela de Castro Reynaldo**

Resumo: Este trabalho verificou estratégias de composição de colas-resumo. Nesse esforço, coletaram-se onze exemplares de colas produzidos por alunos de Ensino Médio da região de Tubarão. As sentenças desses documentos foram emparelhadas, e as estratégias de “para-construção”, analisadas. Os resultados demonstraram que os infor-mantes prenderam-se à linearidade lingüística do documento de base, elaborando colas-resumo por estratégias de cópia.

Palavras-chave: Texto, discurso, resumo.

Abstract: His work verified strategies of cheat-summary composition. In this effort, eleven units of cheat-summaries produced by pupils of Average Education of the region of Tubarão, Santa Catarina, had been collected. The sentences of these documents had been pair uped, and the para-construction strategies had been analyzed. The results had demonstrated that the informers had used the linguistic linearity of the original document, elaborating cheat-summaries with copy strategies.

“Eu tô aqui pra quê? Será que é pra aprender? Ou será que é pra aceitar, me acomodar e obedecer? Tô tentando passar de ano pro meu pai não me bater, sem recreio, de saco cheio porque eu não fiz o dever. A professora já tá de marcação porque sempre me pega disfarçando, espiando e colando a prova dos colegas (...)

Manhê! Tirei um dez na prova. Me dei bem, tirei um cem e eu que-ro ver quem me reprova. Decorei toda a lição. Não errei nenhuma questão. Não aprendi nada de bom, mas tirei dez (boa filhão!). Quase tudo que aprendi, amanhã já esqueci. Decorei, copiei, me-morizei, mas não entendi”

Gabriel, o Pensador

1 Introdução

A letra da música criada por Gabriel, o Pensador, traz à tona a questão da per-tinência do que se ensina na escola. A expressão “decorar” ainda é a tônica de um ensino que não privilegia a criticidade e a reflexão. A dicotomia decorar/colar ainda se põe evi-dente nesse contexto, dado que a segunda opção se torna um subterfúgio para não se in-vestir na primeira.

Cola é definida como um texto produzido pelo estudante, para fins de apoio ilegal à realização de exames. Para Ferreira (1993, p. 128), cola é uma “cópia clandestina feita em exames escritos”. Mas essa seria sua única função? Não haveria algum mérito subjacente de apoio ao estudo, de aprimoramento da habilidade da produção de textos, por exemplo?

No que se refere à composição textual, uma das formas de verificar se há mé-ritos na elaboração de colas é analisar os documentos de cola-resumo. Neste sentido, veri-fiquei, neste trabalho, as estratégias de transposição das informações do documento de base para os documentos de cola-resumo, elaborados por alunos do Ensino Médio. 

2 Reflexões teóricas

Resumir é reproduzir, em poucas palavras, as idéias relevantes de um texto. Para Marconi e Lakatos (1991, p. 68), o resumo é a “apresentação concisa e freqüente-mente seletiva do texto, destacando-se as principais idéias do autor da obra”. 

Tanto Marconi e Lakatos (1991, p. 68) quanto Flôres, Olímpio e Cancelier (1994, p. 139) afirmam que o caráter de um resumo depende dos seus objetivos, quais se-jam, apresentar sumário descritivo-narrativo das partes mais significativas; condensar o conteúdo; ou analisar interpretativamente o documento de base. Nas colas-resumo, os alu-nos visam a comprimir a linearidade de base, inclusive em seu aspecto gráfico.

Para resumir o texto, tornam-se necessárias estratégias que são “parte de nosso conhecimento geral. Elas representam o conhecimento procedural que possuímos sobre compreensão de discurso” (van Dijk, 1992, p. 23). Além disso, as estratégias variam de pessoa para pessoa, porque dependem, tanto das características textuais, quanto das carac-terísticas do usuário da língua, seus objetivos, interesses e conhecimento de mundo.

Existem vários tipos de estratégias, todavia, para atender às intenções deste ar-tigo, é suficiente abordar as estratégias de paraconstrução, que observam a construção de um documento, a partir da interpretação de outro.

Para o trabalho, apoiei-me em critérios de paraconstrução definidos por Rauen (1996, p. 83-85)[1],  para quem as paraconstruções podem ser observadas pela:

a) extensão linear – estratégias de expansão, de manutenção e de compressão;

b) relação sentença de base/sentença de resumo – estratégias biunívocas ou não marcadas, de divisão e de aglutinação; e

c) formas de paraconstrução - estratégias de cópia e de paráfrase.

As estratégias de cópia consistem na transcrição de algum fragmento do docu-mento original, podendo ser divididas em estratégias de citação, quando há transcrição fiel e de cópia acrescida de apagamento(s), quando determinadas partes das sentenças são co-piadas e as demais, apagadas.

A paráfrase implica processos de substituição que se subdividem em estratégias de parafraseamento simples e complexo. As primeiras podem dar-se por alteração lexical (expansão, substituição, redução, generalização, transferência e transformação discursiva) ou por alteração sintática (transformação de voz, transformação clausal, inversão sintag-mática entre as cláusulas, inversão sintagmática entre constituintes de cláusulas, conexões intersentenciais em sentenças paraconstruídas por aglutinação).

As últimas dividem-se em: paráfrase complexa, quando há dentro de uma sen-tença facilmente delimitável, um conjunto complexo de parafraseamentos simples, de tal modo que a paráfrase prepondere sobre a cópia; e, construção, quando a sentença procura abarcar o tópico do documento ou substituir trechos do documento.

3 Metodologia

Neste artigo, trabalhei com a hipótese geral de que “se fossem analisadas as estratégias de construção das colas-resumo, seriam mais freqüentes as estratégias de cópia e/ou paráfrase(s) simples do que as estratégias de paráfrase complexa e de construção”.

Segundo Kleiman (citado por Rauen, 1996, p. 87), o autor do resumo tende a prender-se à linearidade lingüística presente no documento de base. Por outro lado, sabe-se também que há professores de ensino fundamental que exigem, do aluno, a elaboração de resumos, sem orientá-lo para essa produção. Fica a noção de resumo como cópia fiel das partes relevantes do texto, até porque copiar é muito mais simples e prático que refletir, analisar e pôr no papel o que realmente o texto quis transmitir.

Os documentos de cola-resumo advieram de uma prova de História da 3a série do Ensino Médio. Os alunos estudaram o texto “O mundo moderno e a descoberta da li-berdade”, composto por 141 sentenças, do livro “Toda a história: história geral e história do Brasil” de José Jobson de Arruda e Nelson Piletti. 

Foram coletados 11 documentos, perfazendo 23 sentenças. Depois de transcre-vê-los, emparelhei as sentenças, dispondo-as em quadros de três colunas. Na primeira co-luna, transcrevi a sentença de base que foi paraconstruída a partir da sentença do docu-mento de cola-resumo. Na segunda coluna, analisei as estratégias de paraconstrução utili-zadas e, na terceira coluna, transcrevi as sentenças dos documentos das colas-resumo. 

O número de cada estratégia utilizada foi dividido pelo número total das estra-tégias em cada texto de cola, estabelecendo-se o percentual da estratégia no conjunto de estratégias que constitui cada texto de cola. Por fim, comparei os resultados por meio da razão entre: a) as estratégias de cópia, acrescidas ou não de apagamento(s) e/ou paráfra-se(s) simples; e b) as  estratégias de parafraseamento complexo, paráfrase complexa e construção. 

4 Os documentos de colas-resumo

Vejamos, agora, cada um dos documentos de resumo.

INFORMANTE 1

O informante 1 construiu uma cola-resumo com uma única sentença que se li-mitou a copiar fielmente as informações da sentença 73 do documento de base.

Quadro 1 - Emparelhamento 1:

Documento de base: 73

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

Na arquitetura, destacou-se o es-cultor-arquiteto Gian Lorenzo Bernini, autor das grandes colunas da praça de São Pedro e do balda-quino (cúpula sustentada por colu-nas), no interior da catedral.

Citação

Na arquitetura, destacou-se o escultor-arquiteto Gian Lorenzo Bernini, autor das grandes colunas da praça de São Pedro e do balda-quino (cúpula sustentada por colunas), no interior da catedral.

INFORMANTE 2

O informante 2 construiu uma cola-resumo com quatro sentenças. 

Quadro 2 - Emparelhamento 2:

Documento de base: 3

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

[*]

Alteração sintagmática

 

foi dominado pela idéia de que

Apagamento

 

somente um governo dotado de poder absoluto podia garantir a paz e a segurança

cópia/paráfrase

redução lexical

Só um governo dotado de poder abisoluto podia garantir a paz e a segurança

dos indivíduos organizados em sociedade

Apagamento

 

[*O século XVII] 

cópia/paráfrase

substituição lexical 

- sec 16

A estratégia básica dessa paraconstrução foi a de cópia, acrescida de apaga-mento e paráfrase. O informante parafraseia “somente” por “só”. É interessante ressaltar que, ao substituir o dado temporal “século XVII”, ele emprega “sec 16”, revelando dificul-dade no trato com os números romanos.

Quadro 3 - Emparelhamento 3:

Documento de base: 43, 44, 45

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 2, 3

[43] Agora, vamos conhecer os aspectos da cultura do 

Apagamento

 

século XVII.

Cópia/paráfrase

Substituição lexical

[2] Século 16

[44] Sua principal expressão foi o Barroco

Citação

A principal expreção foi o Barroco[2]

[45] Influenciado pelos conflitos religiosos europeus,

Cópia/paráfrase

expansão lexical

[que foi] influenciado pelos com-flitos religiosos europeus.

o movimento foi uma reação à estética do final do Renascimen-to, considerada artificial.

Cópia/apagamento

[3] Foi uma reação a extética do final do renascimento.

A sentença [2] constitui a chamada “conexão intersentencial por aglutinação”, já que o informante construiu uma sentença em lugar de três do documento de base. Ob-serve-se também que, ao substituir o numeral romano “XVII”, ele emprega o numeral car-dinal “16”, causando um desvio temporal mais uma vez. A sentença [3] é basicamente uma cópia acrescida de apagamento e caracterizada pela quebra da sentença 45 do documento de base, uma vez que o informante já havia copiado uma das suas partes na sentença de cola-resumo [2].

Em “que foi”, o informante 2 estabeleceu uma conexão intersentencial com acréscimo de elementos coesivos. O referente da primeira sentença, “Barroco”, é mantido pelo pronome relativo. Pela interação sintática obtida, o referente da primeira sentença, “a definição da sociedade da época”, acaba por não ser mantido. Se houvesse mera justaposi-ção dos elementos das duas sentenças, haveria melhor desempenho.

Quadro 4 - Emparelhamento 4:

Documento de base: 46

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 4

Por isso, buscava uma repre-sentação dramática da realidade.

Citação

Por isso buscava uma represen-tação dramática da realidade.

Esse emparelhamento evidencia o segundo caso de citação.

INFORMANTE 3

O informante 3  elaborou uma cola-resumo com apenas uma sentença, que mostra um caso de “conexão intersentencial por aglutinação”. Note-se que o informante, ao reproduzir as duas sentenças de base em uma única sentença de cola-resumo, apaga a pala-vra “trata-se” para conectar as duas sentenças, troca o ponto final por uma vírgula e trans-creve o restante da sentença, com exceção da última expressão “ainda em formação”, que também é apagada. Essa opção pode ser explicada como uma tentativa de se conseguir coesão com a sentença [35] do documento original, explicada pela sentença [36].

Quadro 5 – Emparelhamento 5:

Documento de base: 35 e 36 

Estratégias de paraconstrução 

Documento de cola-resumo: 1

[35] Definir a sociedade da época moderna é tarefa das mais complexas.

[36] Trata-se de um período que mantém fortes traços da sociedade feudal e aspectos típicos do novo sistema capita-lista, ainda em formação

Cópia/apagamento

Conexão intersentencial por aglutinação

Definir a sociedade da época moderna é tarefa das mais com-plexas, de um período que mantém fortes traços da socie-dade feudal e aspectos típicos do novo sistema Capitalista.

INFORMANTE 4

O informante 4 preparou um documento de cola-resumo com cinco sentenças, todas utilizando-se de estratégias de citação.

Quadro 6 - Emparelhamentos 6, 7, 8, 9 e 10

Documento de base: 16

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

[16] Em 1688, a Revolução Gloriosa, também na Inglaterra, estabeleceu que o poder do rei seria doravante limitado pelo Parlamento e que este devia obediência aos cidadãos.

Citação

[1] Em 1688, a Revolução Glo-riosa, também na Inglaterra, estabeleceu que o poder do rei seria doravante limitado pelo Parlamento e que este devia obediência aos cidadãos.

[17] Nessa mesma época, John Locke preconizava a separação entre os poderes Executivo e Legislativo e afirmava que os povos tinham o direito de se rebelar contra as tiranias

Citação

[2] essa mesma época, John Locke preconizava a separação entre os poderes Executivo e Legislativo e afirmava que os povos tinham o direito de se rebelar contra as tiranias.

[29] Em 1776, na América do Norte, um grupo de indivíduos animados pelos ideais republi-canos de cidadania e liberdade lançou as bases de uma nova nação, os Estados Unidos.

Citação

[3] Em 1776, na América do Norte, um grupo de indivíduos animados pelos ideais republi-canos de cidadania e liberdade lançou as bases de uma nova nação, os Estados Unidos.

[70] O Barroco na Europa

Citação

[4] O Barroco na Europa

[73] Na arquitetura, destacou-se o escultor-arquiteto Gian Loen-zo Bernini, autor das grandes colunas da praça de São Pedro e do baldaquino (cúpula sustenta-da por colunas), no interior da catedral.

Citação

[5] Na arquitetura, destacou-se o escultor-arquiteto Gian Loenzo Bernini, autor das grandes colu-nas da praça de São Pedro e do baldaquino (cúpula sustentada por colunas), no interior da catedral.

INFORMANTE 5

O informante 5 produziu um texto de cola-resumo com apenas uma sentença. Nesse emparelhamento, evidencia-se mais um caso de “conexão intersentencial por agluti-nação”, onde as sentenças estão ligadas por meio de uma vírgula. Apesar das duas senten-ças de base estarem no documento de cola-resumo formando uma só, a estratégia que pre-valece é a de citação, pois os elementos lingüísticos foram apenas transcritos.

Quadro 7 – Emparelhamento 11

Documento de base: 52, 53

Estratégias de paraconstrução 

Documento de cola-resumo: 1

A essa tendência,

 Influenciada pelas obras de Michelangelo Buonarrote e Rafael Sanzio, deu-se o nome de Maneirismo.

[53] Na península Itálica, os maiores representantes do Ma-neirismo foram Pontormo e Parmigianino.

cópia/paráfrase simples

conexão intersentencial por aglutinação

A essa tendência,

influenciada pelas obras de Michelangelo Buonarrote e Rafael Sanzio, deu-se o nome de Maneirismo, na península Itáli-ca, os maiores representantes do Maneirismo foram Pontormo e Parmigianino. 

INFORMANTE 6

O informante 6 limitou-se a transcrever fielmente os dados do documento de base, evidenciando-se outro caso de citação.

Quadro 8 – Emparelhamento 12

Documento de base: 71

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

A península Itálica permanecia o cento da cultura artística, mas influenciada pela temática reli-giosa, fruto da Contra-Reforma.

Citação

A península Itálica permanecia o cento da cultura artística, mas influenciada pela temática reli-giosa, fruto da Contra-Reforma.

INFORMANTE 7

O documento do informante 7 é formado por sete sentenças. Na primeira, ele se limitou a transcrever os dados existentes no documento de base, apagando apenas o iní-cio da sentença que era dispensável à compreensão do assunto.

Quadro 9 – Emparelhamento 13

Documento de base: 40

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

De forma simplificada, e por-tanto incompleta,

Apagamento

 

a cultura da época moderna pode ser dividida em três grandes momentos: Renascimento, Barroco e Iluminismo (ou Ilustração)

Citação

A cultura da época moderna pode ser dividida em três grandes momentos: Renascimento, Barroco e Iluminismo (ou Ilustração).

Nas demais, limitou-se a citar.

Quadro 10 – Emparelhamento 14

Documento de base: 55

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 2

[55] A Igreja da Contra-Reforma,  nesse meio tempo, tentava estabelecer limites para as artes plásticas. 

Citação

[2] A Igreja da Contra-Reforma, nesse meio tempo, tentava esta-belecer limites para as artes plásticas.

[56] Por ordem sua foram pin-tadas roupas nas figuras nuas de Michelangelo na Capela Sistina. 

Citação

[3] Por ordem sua foram pinta-das roupas nas figuras nuas de Michelangelo na Capela Sistina.

[57] Proibiu-se que Deus fosse representado em pinturas ou esculturas. 

Citação

[4] Proibiu-se que Deus fosse representado em pinturas ou esculturas.

[76] Na parte católica dos Países Baixos, dominada pela Espanha, Peter Paul Rubens pintou gran-des telas em que exaltava a sensualidade de mulheres cheias de carne e pele rósea, ilumina-das por uma luz radiante. 

Citação

[5] Na parte católica dos Países Baixos, dominada pela Espanha, Peter Paul Rubens pintou gran-des telas em que exaltava a sensualidade de mulheres cheias de carne e pele rósea, ilumina-das por uma luz radiante.

[113] Isaac Newton viveu entre 1642 e 1724. 

Citação

[6] Isaac Newton viveu entre 1642 e 1724.

[114] Uma de suas descobertas mais famosas, a lei da gravitação universal, estabelece que a força de atração entre dois cor-pos é diretamente proporcional à sua massa e inversamente pro-porcional ao quadrado da dis-tância que os separa. 

Citação

[7] Uma de suas descobertas mais famosas, a lei da gravitação universal, estabelece que a força de atração entre dois cor-pos é diretamente proporcional à sua massa e inversamente pro-porcional ao quadrado da dis-tância que os separa.

INFORMANTE 8

O documento do informante 8 apresenta apenas uma sentença. Esta sentença se dá por construção, porque o informante converte o sintagma verbal da sentença [113] na expressão “(1642) (1727)”, subentendendo que se trata de datas de nascimento e de morte. A ligação das sentenças [113] e [114] se dá pelo uso de “descobriu”, que é o núcleo do sintagma verbal da sentença de resumo. Por meio desse verbo, o estudante apresenta a lei de gravitação universal. Nessa junção está a qualidade da construção estabelecida.

Quadro 11 – Emparelhamento 20

Documento de base: 113, 114 

Estratégias de paraconstrução 

Documento de cola-resumo: 1

[113] Isaac Newton viveu entre 1642 e 1727.

[114] Uma de suas descobertas mais famosas, a lei da gravita-ção universal, estabelece que a força de atração entre dois cor-pos é diretamente proporcional à sua massa e inversamente pro-porcional ao quadrado da dis-tância que os separa.   I

construção

saac Newton (1642) (1727), descobriu a lei da gravitação universal.

INFORMANTE 9

O informante 9 elaborou o documento de cola-resumo apenas com uma senten-ça, que constrói todo um conjunto de 11 sentenças de base[3].

Sentença de resumo: O Barroco começou a se destacar na época do Renascimento, foi influênciado pelos conflitos religiosos europeus, o movimento foi uma reação à estética do Renascimento, conside-rada artificial.

Estratégia de paraconstrução: construção

Sentenças de base: [50] Por essa época, o movimento renascentista nas artes plásticas (pintura, escultura e arquitetura) dava sinais de esgotamento. [51] Em vez do equilíbrio e da simetria preconizados por ele, a pintura e a escultura começaram a apresentar figuras re-torcidas, tensas e, de certo modo, frias e impassíveis. [52] A essa tendência, influenciada pelas obras de Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, deu-se o nome de Maneirismo. Na Península Itálica, os maiores representantes do Maneirismo foram Pontormo e Par-migianino. [53] Paralelamente a esse movimento, alguns pintores como Correggio, sob a influência de Ticiano Vecellio, começaram a dar maior importância à cor do que ao desenho e à linha. [54] Na arquitetura, as construções passaram a apresentar curvas e sinuosi-dades, em lugar da linha reta e da simetria, tão ao gosto do Renas-cimento.[55] A Igreja da Contra-Reforma, nesse meio tempo, ten-tava estabelecer limites para as artes plásticas. [56] Por ordem sua foram pintadas roupas nas figuras nuas de Michelangelo na Capela Sistina. [57] Proibiu-se que Deus fosse representado em pinturas ou esculturas. [58] Ao mesmo tempo, era restaurada a Inquisição. [59] Procedeu-se, assim, a uma reação contra o humanismo renascen-tista. Em seu lugar, ou em luta contra ele, começou a afirmar-se uma corrente influenciada em grande parte pelo pensamento religi-oso da Contra-Reforma, que exaltava a emoção no lugar da razão, a fé mais do que a experiência científica. [60] Foi em meio a esse estado de espírito que tomou forma um novo estilo artístico: o Bar-roco.

INFORMANTE 10

O informante 10 elaborou a cola-resumo com uma sentença. Nesse empare-lhamento, observa-se mais um caso de citação, pois o informante se limitou a transcrever os dados do documento de base, apagando apenas a seqüência “ou Ilustração”. 

Quadro 12 – Emparelhamento 22

Documento de base: 40 

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

De forma simplificada, e por-tanto incompleta, a cultura da época moderna pode ser dividi-da em três grandes momentos: Renascimento, Barroco e Iluminismo 

Citação

De forma simplificada, e por-tanto incompleta, a cultura da época moderna pode ser dividi-da em três grandes momentos: Renascimento, Barroco e Iluminismo.

(ou Ilustração). 

Apagamento

 

INFORMANTE 11

O último informante, como muitos outros, limitou-se a copiar fielmente os elementos lingüísticos presentes no documento de base.

Quadro 13 – Emparelhamento 23

Documento de base: 109

Estratégias de paraconstrução

Documento de cola-resumo: 1

Classicismo: na literatura e nas artes, estilo inspirado nas for-mas artísticas greco-romanas.

Citação

Classicismo: na literatura e nas artes, estilo inspirado nas for-mas artísticas greco-romanas.

 

 

5 Análise geral

Os dados obtidos em campo podem ser agrupados na tabela a seguir:

Tabela 1 – Estratégias de paraconstrução do texto de base para as colas-resumo con-forme os 11 informantes amostrados:

Estratégia

Freqüência

Percentual

Cópia

17

73,91

Paráfrase Simples

4

17,39

Paráfrase Complexa 

8,69

Total

23

99,99

Nos 23 emparelhamentos, obtidos a partir da análise dos 11 textos de colas-resumo, houve 17 casos de cópia, incluindo-se, nessa classificação, 15 casos de citação literal e 2 casos de cópia acrescida de apagamento simples. Em 5 outros casos, as estratégi-as de cópia e de apagamento foram acrescidas de estratégias de paráfrase simples, desta-cando-se: alteração sintagmática, substituição lexical e conexão intersentencial por agluti-nação. Nesses textos, foram encontrados apenas dois casos de paraconstrução por paráfrase complexa. Nos casos, os estudantes utilizaram-se da estratégia de construção.

Uma vez obtidos os resultados, contrabalancei-os com a hipótese de pesquisa. Para isso, calculei a razão de utilização das estratégias como se segue:

R = Estratégias de Cópia, acrescidas ou não de Apagamento(s) e/ou Paráfrase(s) Simples/ Estratégias de Parafraseamento Complexo (Paráfrase Complexa e Construção)

Substituindo-se os elementos da razão pelos dados de campo, obtive:

R = 21/2

Dado que a razão obtida foi de 10,5, os resultados corroboraram amplamente a hipótese de pesquisa.

Do ponto de vista dos informantes, as estratégias foram assim distribuídas:

Estratégias                                         Quantidade de Informantes

Utilização exclusiva de cópia                  6

Utilização de cópia e paráfrase simples   3

Utilização de paráfrase complexa            2

Total                                                    11

Houve prevalência de estratégias de cópia, dado que 9 informantes a utiliza-ram, apesar de 3 destes informantes utilizarem alguma estratégia de paráfrase simples. 

Os resultados desta pesquisa põem em xeque a posição segundo a qual há al-gum mérito redacional, pelo menos, na composição das colas. Pelo que observei, a cola é tão-somente uma estratégia de burla, de mero arrolamento de dados de base em pequenos papéis ou estratégias assemelhadas, sem maior reflexão, algo muito semelhante às tradici-onais “pesquisas escolares”. Todavia, antes de motivo para escândalos, os dados do corpus constituem-se um alerta sobre a qualidade do ensino e, pior, da aprendizagem de nossos estudantes.

Referências

 

ARRUDA, José Jobson de, PILETTI, Nelson. Toda a história: história geral e história do Brasil. São Paulo: Ática, 1999. 

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

FLÔRES, Lúcia L., OLÍMPIO, Lúcia M. N., CANCELIER, Natália L..  Redação: o texto técnico/científico e o texto literário, dissertação, descrição, narração, resumo, re-latório.   2. ed. revis..   Florianópolis: UFSC, 1994.   Série Didática.

LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodo-logia científica. São Paulo: Atlas, 1991.

RAUEN, Fábio José. Influência do sublinhado na produção de resumos informati-vos.     Tese (Doutorado em Letras/Lingüística) - Curso de Pós-Graduação em Le-tras/Lingüística. Florianópolis: UFSC, 1996.

_____. Elementos de iniciação à pesquisa: inclui orientações para a referenciação de documentos eletrônicos. Rio do Sul: Nova Era, 1999.

van DIJK, Teun A. Cognição, discurso e interação. São Paulo: Contexto, 1992. Cole-ção Caminhos da Lingüística.

 

 Notas


* Monografia de Conclusão de Curso apresentada ao Curso de Licenciatura Plena em Letras Potuguês/Inglês da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul, em julho de 2000.

**Aluna do Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul; Professora de Ensino Fundamental da Rede Pública Estadual.

[1] Ver, neste fascículo, artigo intitulado "Estratégias de paraconstrução de sentenças de base na elaboração".

[2] Neste artigo, transcrevi literalmente os excertos dos estudantes, inclusive erros ortográficos.

[3] Para efeitos de apresentação, não apresento esse caso na forma de quadros.

 

 

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