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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 2, jul./dez. 2001


 

LINGUAGEM COMO MEDIAÇÃO

ENTRE A VONTADE DO EU E DO OUTRO*  

 Renata Aparecida Paupitz Dranka**

 

Resumo: Este texto pretende identificar o papel da vontade e da liberdade a partir de reflexões sobre a obra de Vygotsky, levando em consideração a importância da linguagem que, ao mesmo tempo, atua como função psicológica superior e faz a mediação entre a vontade do “eu” e do “outro”.

Palavras-chave: Mediação, intra-subjetivo, inter-subjetivo.

Resumé: Ce texte prétend identifier la fonction de la volonté et de la liberté a partir de réflexions sur l’ouvre de Vygotsky, en considévant l’importance du langage, qui en même temps exerce une fonction psychologique supérieure et fait la médiation entre la volonté du “moi” et la volonté de l’autre.

“Sou uma estrutura psicológica e histórica.

Recebi uma maneira de existir, um estilo de existência.

Todas as minhas ações e meus pensamentos estão em relação com essa estrutura.

No entanto, sou livre, não apesar disto ou aquém dessas motivações, mas por meio delas, são elas que me fazem comunicar com minha vida, com o mundo e com minha liberdade.”

O objetivo desse trabalho é identificar o papel da vontade e da liberdade a partir de reflexões sobre a obra de Vygotsky, levando em consideração a linguagem como mediação.

Atualmente, muitas áreas de conhecimento estão revendo a obra de Vygotsky, construindo novos conhecimentos e fazendo diferentes sínteses, na busca de sistematizações de conceitos, a partir de seus princípios teóricos. Devido à riqueza, à complexidade e à morte prematura do autor, essa teoria nos possibilita apropriações inusitadas.

Sendo assim, respeitando os conceitos expostos no quadro teórico vygotskyano, procurarei identificar o papel da vontade, levando em consideração que o autor, na construção de sua teoria, utilizou diferentes interlocutores, entre eles, Spinoza, Hegel, Engels e Marx. É importante ressaltar que, para Vygotsky, só existe o reconhecimento do “eu” no reconhecimento do “outro”. O “outro” determina o “eu”, ambos mediados socialmente.

 Frente a essas considerações, é importante refletir: 

a) qual o papel da vontade num “sistema” onde o autor concebe a subjetividade enquanto processo?;

b) que é a vontade e a liberdade, e quais são os seus papéis na “filosofia” vygotskyana? 

A própria teoria de Vygotsky é uma realização da vontade. Podemos dizer que qualquer realização do espírito - intelectual, filosófica, científica e moral - é fruto de um esforço ou uma função da vontade. Entretanto, este ponto de vista pode parecer banal, se nos depararmos com uma teoria, onde a realização do espírito não é fruto de “um” esforço. A teoria de Vygotsky ultrapassa esse ponto de vista.

Para caracterizar a vontade, é necessário que tenhamos em mente todas as concepções que formam o “sistema vygotskyano”, pois poderemos constatar que a vontade está em constante tensão. Nada é seguro, nada é firme no solo desta teoria. Para Vygotsky, a segurança só é encontrada no processo em pleno movimento. A vontade é historicamente construída.

Inúmeras são as considerações a respeito da vontade. Segundo Spinoza, a própria atividade interna do intelecto garante que a atividade do espírito siga o seu caminho, como se a vontade já estivesse constituída. Descartes, ao contrário, afirma que é necessário um constante esforço da vontade, uma constante tensão.

A diferença de concepção de “tensão da vontade” entre Descartes e Vygotsky diz respeito ao aspecto interno e externo do sujeito. Para Descartes, a vontade se desenvolve individualmente e, segundo Vygotsky, ela se desenvolve na “relação” do sujeito com o outro. Há uma certa individualidade no desejo de cada um, mas o meu desejo só existe porque vivo em um mundo compartilhado com os desejos do outro.

Posto nesses termos, não é demasiado supor que, de acordo com a teoria de Vygotsky, o limite individual é a vontade do outro e está inscrito neste mundo simbólico que só se torna realidade, porque é também realidade para o outro. Logo, não hesitamos em afirmar que, no sistema de Vygotsky, só podemos falar em vontade, liberdade e autodomínio, se esses conceitos tiverem concordância com a “relação com o outro” (1995, p. 301).

Vygotsky afirma que suas idéias de liberdade, vontade e autodomínio coincidem com as idéias que Spinoza desenvolveu em sua Ética.

Spinoza estabelece que a vontade é um certo modo de pensar “cada volição não pode existir nem ser determinada a agir, se não for determinada por outra causa, esta por uma outra, e assim sucessivamente, ao infinito” (Ética I, p. 109). Sendo assim, para ele, a vontade não é livre, mas depende de motivos externos. Dessa forma, o livre arbítrio, a liberdade, são ilusões. Tudo, para Spinoza, é governado por uma necessidade lógica absoluta. A causa da existência singular do homem é a existência de outros homens singulares que o produzem. Portanto, a minha própria existência pressupõe a existência do outro. O domínio do homem sobre os próprios processos de seu comportamento constrói-se da mesma forma que se constrói o domínio do homem sobre os processos da natureza. O homem, que vive em sociedade, está sempre sujeito às influências de outras pessoas

Segundo Vygotsky, a linguagem é um dos mais poderosos meios de influência sobre a conduta do outro. O próprio homem, no processo de seu desenvolvimento, chega a dominar os mesmos meios que foram utilizados para orientar o seu comportamento.

Controlar a vontade e ser livre, para Vygotsky, seria compreender os meios que orientam e conduzem o seu próprio comportamento, isto é, compreender a linguagem. Parece que existe, em Vygotsky, uma espécie de coação que pode ser tanto externa quanto interna. Se há uma coação, o homem não é responsável por seus atos. Vivemos em uma sociedade casualmente determinada. Sendo assim, como o homem pode ser responsável, se a responsabilidade exige a possibilidade de decidir e agir livremente? Como superar o problema da relação necessidade e liberdade, se tudo o que fazemos é resultado de atos anteriores, e tem relação com todos os atos? Como a minha ação pode ser livre? Eu não escolho. Um conjunto de circunstâncias escolhe por mim.

Pode-se, também, dizer que o homem, por ser dotado de consciência, pode conhecer a causalidade que o determina e atuar conscientemente, deixando de ser mero efeito para ser causa consciente de si mesma. Porém, isso não rompe a cadeia causal e continua sendo válido o mesmo princípio. Pode-se pensar que existe uma “certa” liberdade em Vygotsky de romper o que foi posto. Se algo aconteceu, que poderia não ter acontecido, embora se tivesse querido que acontecesse, isto significa que se tem uma liberdade de decisão que foge à determinação causal. Nota-se, então, que liberdade e causalidade não se excluem na teoria de Vygotsky. Há uma superação da antítese liberdade e necessidade. Vygotsky não fala sobre essa superação, mas, de acordo com seus textos, há pistas que podem mostrar-nos essa superação.

A teoria de Vygotsky tem por base o materialismo dialético de Marx e Engels e fala constantemente da Ética de Spinoza. O que nos interessa pôr em relevo, no que concerne à liberdade, vontade e autonomia, é o que Spinoza e o Materialismo Dialético têm em comum com a teoria de Vygotsky.

 Ser livre, para Spinoza, é ser coagido a agir e a existir pela necessidade da sua natureza. Deus existe livremente, embora exista necessariamente, porque existe pela única necessidade da sua natureza. Para Spinoza, a “liberdade não consiste numa decisão livre, mas na livre necessidade” (Ética I, p. 76). A noção de Spinoza sobre a liberdade depende da natureza do objeto desejado e de causas muito definidas que excluem a idéia de livre-arbítrio e a de contingência. O conceito que lhe é antitético é o de “coação, isto é, de determinação extrínseca” (Ética I, p. 77). Liberdade não é uma propriedade do sujeito, mas um estado do ser.

Quem age por dever não é autônomo, não é livre, age por mandamento. O homem livre, para Spinoza, não é aquele que decide o que quer, como quer, e onde quer. A ação do mundo externo provoca no homem “paixões” ou “afetos”. Ser livre, para Spinoza, não consiste em livrar-se das paixões - elas são necessárias - isto é, não dependem da vontade do homem, mas da lei da natureza humana. A liberdade consiste em possibilitar que as leis da natureza humana atuem, o homem deixando-se vencer apenas pelas paixões positivas. Frente a isso, como o homem não pode escapar às leis da natureza humana ou, como o homem não pode deixar de estar sujeito à necessidade universal, a sua liberdade não poderia consistir em subtrair-se a essa sujeição. Não se pode conceber a liberdade independentemente da necessidade. Ser livre é ter consciência da necessidade.

Neste ponto reside a diferença entre o homem livre e o escravo, o qual, por não compreender a necessidade, está sujeito a ela. Ser livre, portanto, é elevar-se da sujeição inconsciente, cega, própria do escravo, à sujeição consciente. Para Spinoza, deve existir uma conciliação, na relação necessidade e liberdade. 

Comparando as teorias de Spinoza e de Vygotsky em relação à liberdade, percebe-se que, em Vygotsky, essa teoria tem limites, pois qual seria a relação entre conhecimento da necessidade pelo suposto homem livre, é o que diz respeito à ignorância da mesma por parte do homem escravo, já que todos compartilham afetos e paixões, na mesma sociedade? 

Já que os trabalhos de Vygotsky integram a corrente histórico-cultural de Marx e Engels e estes trabalham com alguns conceitos de Hegel, veremos como pode ser trabalhada a relação necessidade e liberdade na concepção hegeliana. Assim como Spinoza, Hegel não coloca em confronto a relação liberdade e necessidade, caracterizando a liberdade como necessidade compreendida. A diferença entre Spinoza e Hegel situa-se na relação liberdade e história. Segundo Hegel, em cada época, o conhecimento da necessidade depende do nível em que se encontra o espírito em seu desenvolvimento e este se manifesta na história da humanidade. Para o filósofo, “la história universal es el progresso en la consciencia de la libertad - un progresso que debemos conocer en su necesidad” (Hegel, s. d., p. 68). Compreende-se, então, que a liberdade é histórica, há graus de liberdade ou de conhecimento da necessidade. Quanto mais a vontade é livre, mais conhece.

Apesar de colocar a teoria da liberdade em relação à história e ver a conquista da liberdade como um processo histórico, a liberdade, para Hegel, é ainda um assunto teórico, ou da consciência, assim como o é para Spinoza. Para Hegel, “el fin último del mundo, es que el espiritu tenga conciencia de su libertad y que de este modo su libertad se realice” (s. d., p. 68). 

Marx e Engels conseguem superar dialeticamente a antítese entre liberdade e necessidade. Para os filósofos, a liberdade é caracterizada como consciência da necessidade, assim como a conceituou Spinoza, e histórica como a caracterizou Hegel, só que a consciência, para Marx e Engels (1987, p. 37), “é o processo da vida real”. A liberdade seria, por conseguinte, a consciência histórica da necessidade. Porém, Marx e Engels vão além, pois não se trata de somente transformar a escravidão voluntária em escravidão consciente. O conhecimento, por si só, não impede que o homem esteja sujeito passivamente à necessidade natural e social. O desenvolvimento da liberdade está vinculado ao desenvolvimento do homem como ser prático, criador, que transcende o mundo dado, natural. Para Marx (1985, p. 39), “é precisamente a modificação da natureza pelos homens (e não a natureza como tal) o que constitui a base mais essencial e imediata do pensamento humano. É na medida em que o homem aprendeu a transformar a natureza que a sua inteligência foi crescendo”. Porém, sem o conhecimento da necessidade, não é possível haver liberdade.

A liberdade acarreta um domínio do homem sobre a natureza e sobre a própria natureza. Este duplo domínio traz a transformação do mundo, a transformação da necessidade que rege o homem.

Para Marx, o homem não é apenas um ser natural, é um ser natural humano, que pode atuar tanto no seu ser como no seu saber. A natureza, nem objetivamente, nem a natureza subjetivamente é presente ao ser humano de imediato. O homem é uma espécie cuja evolução ultrapassou a evolução biológica. Ultrapassou-a para uma ordem que não é da natureza, mas da cultura. O que caracteriza a espécie humana como humana, é que houve uma transposição das barreiras da materialidade para a materialidade simbólica, que é a cultural, ou melhor, faz-se cultural. Pela natureza do produto, o simbólico pode ser reapropriado, pois sua unidade é o signo.

O que permite ao homem construir-se como ser cultural e simbólico é o símbolo. O mundo é um conjunto de sinais. O homem não capta o real em si, mas os sinais, o simbólico. O que é simbólico para mim é simbólico para o outro. Nesse confronto, percebo como o outro percebe a realidade, dando-me segurança para ratificar o meu modo de ver. A certeza de que aquilo que eu percebo corresponde ao real em si, é confirmado pelo outro. Para Vygotsky, o meu “ser” humano é constituído pela convivência com o outro. Esta constituição ou reconstituição é de natureza semiótica, tendo como função de mediação o signo, a linguagem. 

A relação do sujeito com a realidade se faz, sempre, mediada pelo outro, através da linguagem. Para Vygotsky, a linguagem é constituidora do pensamento, da consciência, da vontade, enfim, das funções mentais superiores. O conhecimento é construído, inicialmente, na relação entre as pessoas através da linguagem, como interação social. Só depois torna-se intrapessoal. Esse processo de internalização consiste na produção interna da atividade realizada externamente. A consciência individual é um contato do homem consigo mesmo, a partir dos outros. Tornamo-nos nós mesmos através das outras pessoas. O eu só existe a partir da relação com o outro. E essa relação com o outro ocorre através de signos, onde a linguagem é a mais importante. Ela funciona como mediadora da relação do homem com a realidade e constitui-se no material da consciência. A linguagem, porém, não se incorpora a uma consciência vazia que se mantém à espera. A própria consciência é uma construção da linguagem. Não há consciência fora dela. As imagens sensoriais formadas na consciência só adquirem seu caráter significativo pela mediação da linguagem. Para a construção da consciência, o organismo deve unir-se ao mundo exterior através do signo. A matéria do psiquismo é, portanto, semiótica.

A linguagem é adquirida a partir da sociedade humana. Ela é um produto da atividade humana, um produto social nascido da necessidade de comunicação social. Essa é, também, a condição da verdade, que só pode ser constituída a partir da sociedade.

A palavra encontra sua essência em sua função de signo, é o material semiótico da consciência. É no significado da palavra que encontramos as respostas às nossas questões sobre a relação entre o pensamento e a fala. Para Vygotsky, o significado da palavra é um ato do pensamento, mas, ao mesmo tempo, o significado é parte inalienável da palavra como tal, pertencendo, tanto ao domínio da linguagem, como ao domínio do pensamento. Por isso, Vygotsky utiliza, como “unidade de análise”[1], o significado da palavra e o método usado para explorar a natureza do pensamento verbal é a análise semântica. Trabalhar com o significado da palavra torna possível alcançar a análise das relações entre pensamento e linguagem, que, segundo o autor, não é somente um problema semântico mas também psicológico. Do ponto de vista semântico, para Vygotsky (1984, p. 4), “uma palavra sem significado é um som vazio, que não mais faz parte da fala humana”. Do ponto de vista psicológico, é um fenômeno do pensamento que ganha corpo na fala.

Nos escritos de Vygotsky, as funções psicológicas superiores (atenção, pensamento abstrato, memória, vontade, etc.) não são fruto do processo de maturação biológica, mas sim fruto do desenvolvimento cultural, construído pela mediação através de instrumentos psicológicos. Dentre eles, o mais importante é a linguagem.

O sistema de atividade da criança é determinado, nos primeiros meses de vida pelo seu grau de desenvolvimento orgânico, em especial, pelo uso que ela faz de instrumentos. Com esses instrumentos, ela interage com o mundo. Esses instrumentos, para Vygotsky, são de natureza física e simbólica. Os signos, assim como os instrumentos físicos, constituem atividades de mediação. A diferença entre eles pode ser caracterizada nas forma como orientam o comportamento. O instrumento, cuja função é servir como um condutor da influência humana sobre o objeto, é orientado externamente, devendo, por conseguinte, originar mudanças nos objetos. Assim, o instrumento seria um meio pelo qual a atividade externa controla e domina a natureza. Entretanto, o signo, a linguagem, que é um utensílio que faz a mediação da relação do homem com os demais e consigo mesmo, não modifica o objeto da operação psicológica, à medida que se constitui um meio da atividade interna dirigida do próprio indivíduo. Ao contrário do instrumento ou da ferramenta, o signo, a linguagem, está orientada internamente. Para Vygotsky (p. 146), ele “es siempre um medio de influência sobre los demás y tan sólo después se transforma em médio de influência sobre sí mesmo”.

 A linguagem permite a regulação e a transformação do meio externo e também a regulação da própria conduta e da conduta dos outros. Poder-se-ia dizer que a consciência humana e a vontade têm uma estrutura semiótica e, analisando a linguagem em sua tarefa de mediação, tanto interna como externa, poderemos investigá-las com mais objetividade, tornando esses processos mais científicos.

A criança já nasce inserida num mundo em constante constituição, ou melhor, num circuito de ordem simbólica, sendo sujeito e objeto de ações significantes para os outros. Os adultos, nomeando os objetos, estabelecem associações e relações para ela, ajudando-a na construção de formas mais complexas e sofisticadas de conceber a realidade. Todas as experiências do cotidiano oferecem elementos, por meio dos quais, ela organiza sua percepção. Interagindo, a criança vai se orientando, sendo capaz, posteriormente, de fazer suas escolhas por sua própria vontade.

Neste ponto, é importante questionar até que ponto a vontade, a escolha, é minha ou é um conjunto de circunstâncias que escolhem por mim. Interagindo, a criança vai compreendendo a realidade. Poder-se-ia dizer que a criança vai compreendendo a realidade que os adultos querem que ela compreenda, já que compartilham da mesma realidade? A criança vai reconstruir, em si, essa realidade, e não simplesmente reproduzir o que já é aquisição dos pais ou da sociedade. Entretanto, tal reconstituição será diferente, pois a forma como a criança recebe e trabalha o conhecimento não é a mesma dos adultos. O funcionamento interno ou intra-subjetivo não é um plano da consciência pré-existente que é sempre atualizada, mas uma norma de funcionamento que se cria com a internalização, pois quem vai fazer a regulação é a própria criança. O plano intra-subjetivo não é cópia do plano externo, e o seu funcionamento interno resulta de uma apropriação das formas de ação. Depende, tanto do que o sujeito já dominou, quanto do que dominará no contexto interativo.

Vygotsky recorre ao conceito de “zona de desenvolvimento proximal”[2] para explicar os mecanismos, pelos quais, na relação com o outro, as experiências de aprendizagem criam o desenvolvimento. Além do mais, o sujeito não é passivo, é interativo, isto é, há uma interdependência dos planos inter e intra-subjetivos, onde a linguagem faz esta ponte. A vontade, para Vygotsky, é construída sobre interações, e os seus avanços são resultados de revoluções, pois, como explica em seu conceito de “zona de desenvolvimento proximal”, o desenvolvimento consolidado abre sempre novas possibilidades, focalizando o emergente, o potencial. Por isso, a linguagem é, ao mesmo tempo, instrumento e signo para constituir a vontade. Ela não somente é o veículo para as formas superiores das outras funções da qual faz parte, mas é também veículo de si própria.

Sendo assim, através da linguagem, o homem controla primeiro o ambiente e, mais tarde, seu próprio comportamento. Para o autor, “las funciones superiores del pensamiento se manifiestam en la vida colectiva de los niños como discusiones y solamente después aparece em su propria conducta de reflexion” (Vygotsky, 1995, p. 147).

A aquisição de um sistema lingüístico organiza todos os processos mentais da criança, pois, segundo Vygotsky (1989, p. 44), “o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos lingüísticos do pensamento”. A palavra, além de indicar um objeto do mundo externo, especifica as principais características deste objeto, generalizando-as, para, em seguida, relacioná-las em categorias. Para o autor, “O crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem” (1989, p. 44). A linguagem sistematiza a experiência vivida da criança, orientando o seu comportamento, propiciando-lhe condição de ser, simultaneamente, sujeito e objeto deste comportamento.

Para Vygotsky, a criança opera com as palavras que foram concebidas como propriedade dos objetos e, logo após, descobre e consolida sua função como signo. Ela “descobre” a função simbólica da fala, de forma gradual, por meio de uma série de mudanças que o autor denomina “moleculares”[3]

Para o autor, no início, ação e fala fazem parte de uma mesma função psicológica, pois a criança fala enquanto age, visto que estes dois fatores são igualmente importantes no esforço para atingir um objetivo. Quanto mais complexa for a ação requerida pela situação, maior a importância que a fala adquire na operação como um todo. Sendo assim, ação e fala, constituem objeto central nos trabalhos voltados para a origem de formas humanas de comportamento.

A dinâmica da relação fala e ação, ao longo do desenvolvimento, altera-se. Até por volta dos três anos de idade, a fala acompanha as ações da criança e apresenta-se dispersa e caótica, refletindo as mudanças do processo. Essa fase é denominada fala social.

Num segundo momento, dos três aos seis anos, a fala começa a deslocar-se para o início da ação, terminando por precedê-la. Este deslocamento temporal da fala implica mudança de função. Ela passa a atuar como auxiliar do plano de ação, já concebido, mas ainda não realizado. Vygotsky denomina esse período de fala egocêntrica, embora não atribua a essa expressão a mesma conotação de Piaget. Na concepção piagetiana, a fala egocêntrica não cumpre nenhuma função útil no comportamento da criança e simplesmente se atrofia, à medida que se desenvolve o pensamento socializado. Porém, para Vygotsky, a fala egocêntrica desempenha um papel muito importante na atividade da criança. Ela é um estágio transitório na evolução da fala social para a fala interior.

Inicialmente, a fala segue a ação, sendo provocada e dominada pela atividade. Posteriormente, quando a fala começa a preceder a ação, surge uma nova relação entre palavra e ação. À medida que a criança cresce, após os seis anos, a fala externa vai se tornando fragmentada, sendo substituída por sussurros e, eventualmente, desaparece, tornando-se interna. Através dessa internalização progressiva, a fala dirige, determina e domina o curso da ação, surgindo “a função planejadora da fala, além da função já existente da linguagem, de refletir o mundo exterior” (Vygotsky, 1994, p. 38). Nessa fase, o sujeito adquire a função de auto-regulação da vontade, sendo capaz de controlar seu comportamento.

Para Vygotsky (1994, p. 138), “assim como um molde dá forma a uma substância, as palavras podem moldar uma atividade dentro de uma determinada estrutura”. Uma vez que a criança aprende a usar efetivamente a função planejadora da linguagem, diferentemente dos macacos que, segundo Kohler, são “os escravos de seu próprio campo de visão” (apud Vygotsky, 1994, p. 38), ela deixa de agir apenas em função do espaço compreendido pelo seu campo visual, mudando completamente o seu campo psicológico.

Em síntese, a capacitação especificamente humana para a linguagem, permite à criança: utilizar instrumentos auxiliares nas tarefas difíceis; superar a ação impulsiva; planejar uma ação antes que ela aconteça; controlar seu próprio comportamento; orientar sua vontade; organizar as formas historicamente transmitidas e socializadas que influenciam o seu comportamento; orientar sua vontade; organizar as formas historicamente transmitidas e socializadas, que influenciarão o seu comportamento individual e, ainda, uma especial forma de convivência, de relação, que somente o ser humano possui.

O desenvolvimento da linguagem, para Vygotsky, é posto como um paradigma para explicar a formação de todas as outras operações mentais que envolvem o uso de signos. Assim como a linguagem, a vontade e outras funções intelectuais superiores aparecem duas vezes no curso do desenvolvimento da criança. Primeiro, nas atividades coletivas, no social, que se definem como funções de caráter interpsíquico. Convém enfatizar que o caráter interpsíquico ou intersubjetivo, não é o plano “do outro”, mas o da relação do sujeito com o outro.

Em seguida, aparecem nas atividades individuais, como propriedades internas do pensamento, passando a ser de natureza intrapsíquica. Nesse momento, a linguagem passa a adquirir uma função intrapessoal além de seu uso interpessoal, porque ela é responsável pela mediação.

A linguagem nasce e se desenvolve a partir e no processo de trabalho e, sendo produto e produtora da atividade prática conjunta dos homens, faz a mediação dos processos, funções e sistemas psicológicos, atuando, paralelamente, como função psicológica superior.

Como tudo o que é natural deve ter uma origem, assim também o homem tem seu ato de origem – a história, que é, por si só, um ato de origem pelo qual o homem tem consciência. A história é a verdadeira história natural do homem. Por isso, Vygotsky afirma que “la voluntad se desarrolla, es um producto del desarollo cultural del niño” (Vygotsky, 1995, p. 300).

Examinando as questões de vontade e liberdade, parece-nos necessário aprofundar e sistematizar as idéias a respeito desse assunto, visto que a vontade na atividade do espírito humano, desempenha, segundo a teoria de Vygotsky, um papel muito importante, que só pode ser compreendido à luz das concepções mais vigorosas deste ilustre pensador.

Conforme a teoria de Vygotsky, pode-se dizer que há uma certa preeminência da vontade em relação ao intelecto, pois é livre quem conhece, mas quem impulsiona o intelecto é a vontade. Poder-se-ia dizer que é a vontade que faz com que o homem consiga sair de seu estado de escravidão. É bom lembrar que, para Vygotsky, o homem é escravo, à medida que aquilo que acontece é determinado por causas internas não sujeitas a sua vontade. É livre, à medida que determina o próprio ato.

 Em Descartes, o mais alto que pode alcançar o espírito humano é a harmonia entre o intelecto e a vontade, o que caracterizaria, no homem, a imagem de Deus. Em Vygotsky, é difícil ocorrer essa harmonia, pois a vontade está sempre em constante mudança, constituindo um elemento ativo do espírito.

 Segundo Spinoza, o homem é um ser ativo, quando, dentro e fora, ocorre algo em que ele não é a causa adequada, ou melhor, quando, dentro ou fora dele, ocorre algo que depende apenas de seu poder. O homem é passivo, quando, nele ou fora dele, ocorre algo em que ele seja a causa inadequada. Segundo o filósofo, o homem é mais passivo do que ativo, visto que, freqüentemente, deixa-se dominar e conduzir-se por forças exteriores ao seu corpo e à sua alma. Como o homem vive rodeado de outros seres que agem sobre ele, é ele mesmo quem controla suas paixões.

No “sistema vygotskyano”, o homem não somente vive rodeado de outros seres que vivem com ele. O homem vive em relação, num mundo compartilhado. A razão do meu “eu” é o “nós”. Para Marx, onde houver a linguagem, há relação. O animal, para ele, não está em relação a nada, não conhece relação nenhuma. Para o animal, as suas relações com os outros não existem como relações. Segundo Vygotsky, a característica fundamental das funções psíquicas humanas é que estas possuem sua origem na atividade conjunta externa, sendo inicialmente compartilhadas pelas pessoas e, só depois, convertendo-se numa atividade interna. Tudo o que nos define como seres humanos, as nossas funções psicológicas superiores, são adquiridas pela convivência com o outro. O referencial dos outros vai corroborar o meu modo de ver. A vontade é uma função psicológica superior e a sua construção depende do social. A vontade pressupõe o auto-controle e o auto controle é função da coerção social. Sendo assim, pode-se dizer que a coerção promove a voluntariedade para Vygotsky?

Para Vygotsky, parece que a coerção social promove a voluntariedade. A vontade pressupõe o auto-controle, e este só é realizado na relação de um homem com outro. É essa relação que medeia a relação do homem com o mundo. Os meios regulados pelo “outro” para regular a ação do sujeito, e vice versa, são transformados em meios para o sujeito regular sua própria ação através da internalização. Dessa ação, nasce a auto-regulação, fundamento do ato voluntário.

Segundo Vygotsky, os condicionamentos da vontade não sconstituem um obstáculo à liberdade. Pode-se pensar que estes obstáculos à liberdade correspondem a um meio pela qual esta poderia exercer-se.

 Segundo Spinoza (Ética I, p. 76) “diz-se livre o que existe exclusivamente pela necessidade da sua natureza e por si só é determinado a agir”. Liberdade, para Vygotsky, significa conhecer e dominar a própria natureza. De acordo com ele,

“el hombre es parte de la naturaleza, su comportamiento es um processo natural, la dominación del hombre se estructura com cualquier dominio de la naturaleza, según el principio de Bacon la naturaleza se vence obedeciendo-la” (Vygotsky, 1995, p. 300).

Nota-se que, em Spinoza, o homem é coagido pela própria natureza e, em Vygotsky, o homem é coagido na relação com o outro.

Vygotsky, citando Bacon, diz que só se vence a natureza quando a ela se obedece, e Bacon equipava a dominação da natureza com a dominação do intelecto. Nota-se aí, portanto, uma ruptura entre a teoria e a prática, onde a atividade, não só determina a essência do homem, mas também, sendo a substância da cultura, cria o homem. “La mano desnuda y la razón, dejados a su aire, no valen gran cosa; las herramientas y los medios auxiliares son los fundamentos de la actividade humana” (Vygotsky, 1995, p. 300). 

Segundo Spinoza, o homem é mais livre no convívio com os outros do que na solidão. Para Vygotsky, o homem nunca estará sozinho, nem mesmo na solidão.

Quando o homem avaliar, pelo entendimento, as circunstâncias existentes, segundo Vygotsky, estará avaliando a si mesmo, porque as circunstâncias existentes são produto da atividade humana. Avaliando os produtos da atividade humana, através da linguagem, é possível penetrar no mundo interior do homem.

Frente a essas conclusões, é possível inferir que, para Vygotsky, a vontade é construída culturalmente, assim como a liberdade também o é. A linguagem não só faz a mediação dessa construção, mas também atua como função psicológica superior.

“Los primeros hombres surgidos del mundo animal no tenian essencialmente una liberdad diferente a la de los propios animales; pero cada paso dado por el camino de la cultura era um paso hacia la libertad” (Vygotsky, 1995, p. 300).

Referências

 

HEGEL, Friedrich. Lecciones sob la filosofia de la historia universal. S. l.: Ed. Alianza, s.d.

MARX, Karl. A miséria da filosofia. São Paulo: Global, 1985.

MARX, Karl, ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1987.

SPINOZA, Benedictus. Os pensadores. 5. ed. São Paulo: Nova cultural, 1991.

VYGOTSKY, Lev. S. Obras escogidas III. Madrid: Visor Distribuciones, 1995.

_____. A formação social da mente. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

_____. Pensamento e linguagem. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

 

 Notas


* Ensaio apresentado à disciplina de Filosofia da Linguagem do Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul.

** Mestranda do Curso de Ciências da Linguagem.

[1] Vygotsky utilizou um tipo de análise diferente de seus predecessores. "Unidade de análise" é um produto de análises, que ao contrário dos elementos, conserva todas as propriedades básicas do todo. Para o autor, a chave para a compreensão das propriedades da água são as suas moléculas e seu comportamento, e não os seus elementos químicos. É a célula viva que possui as propriedades básicas do organismo vivo, por isso ela é a unidade de análise. Encontra-se esta unidade no pensamento verbal e no significado da palavra. Esta opção metodológica foi inspirada em Marx, que fez da "mais valia" o instrumento de análise do modo de produção capitalista.

[2] Vygotsky define a zona de desenvolvimento proximal como a distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela produção independente de problema sob a orientação de um adulto ou de um companheiro mais capaz.

[3] Os primeiros trabalhos de Vygotsky e Luria em relação à linguagem, publicados pela primeira vez em 1930, favorecem uma interpretação da linguagem como instrumento, enquanto os trabalhos posteriores permitem entrever a questão do caráter constitutivo da linguagem.

 

 

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