PORTAL UNISUL     BIBLIOTECA     CONSULTA AO ACERVO     BASE DE DADOS      DISSERTAÇÕES     TESES     PORTAL DE PERIÓDICOS     MINHA UNISUL     FALE CONOSCO

Página Inicial > Periódicos do Programa > Linguagem em (Dis)curso > volume 1, número 2, jul./dez. 2001

 

Linguagem em (Dis)curso

Página Principal

 

Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 2, jul./dez. 2001


 

AUTORIA: QUESTÃO ENUNCIATIVA OU DISCURSIVA?*

Solange Leda Gallo**

 

Resumo: Trata-se de um estudo da noção de AUTORIA dentro dos parâmetros da Análise do Discurso. Nele parte-se da autoria no nível do enunciado, para em seguida desenvolver a noção no nível mais próprio do discurso, chegando, através do exame da heterogeneidade, à noção de EFEITO AUTOR.

Palavras-chave: Análise do discurso, autoria, heterogeneidade, sujeito.

Resumé: C’est une étude de la notion de la qualité de l’auteur, fondée sur les paradigmes de l’Analyse du Discours. On part d’une comprehension de la qualité de l’auteur au niveau de l’énoncé, pour tout de suite aprés développer la notion au niveau le plus appropié au discours, arrivant, a travers de l’examen de l’hétérogénéité, à la notion de EFFET AUTEUR.

1 Introdução

 

Retomo aqui um capítulo de minha tese de doutorado, em que eu discutia a questão da heterogeneidade em análise do discurso. 

A discussão, naquele texto, está incluída, não por acaso, em um capítulo que intitula-se: Sobre o sujeito do discurso. Esse fato já mostra o quanto, para mim, a noção de sujeito envolve a de heterogeneidade e a de autoria, esta última como uma noção central naquele trabalho.

Farei um rápido retrospecto teórico da noção de heterogeneidade para chegar à reflexão sobre autoria em A.D.

2 Heterogeneidade

Para ilustrar os trabalhos que se inscrevem no que foi denominada a terceira fase da teoria do Discurso, e caracterizada como sendo a fase do outro sobre o mesmo, Denise Maldidier cita, entre outros, o trabalho produzido por Jaqueline Authier, notadamente Héterogeneités Énounciatives.

Authier classifica a heterogeneidade como sendo de dois tipos: a constitutiva e a mostrada (sendo a última marcada ou não marcada).

A primeira refere-se a um nível do inconsciente em que todo sujeito “esquece” daquilo que determina os sentidos de seu dizer, e em razão desse “esquecimento” (apagamento), coloca-se na origem do dizer, conforme postula Pêcheux, quando formula o “esquecimento número um”. 

Segundo o autor, essa é uma condição necessária para a constituição do sujeito, sem a qual só haveria silêncio, pois o sujeito seria calado pela consciência (lembrança) de que “tudo” já foi dito antes, em algum lugar.

Quanto a esse nível de “esquecimento”, não há uma proposta de análise, no trabalho de Authier. A autora parte para as análises em que a heterogeneidade é mostrada, Essa última, a autora considera como sendo uma maneira de negociação do sujeito com a heterogeneidade do primeiro tipo, a constitutiva, na forma da denegação. Assim, por exemplo, ao enunciar: “Estamos no século XXI, ou final do século XX se preferirem, e ainda temos comunidades que não têm água encanada. A glosa: ‘ou final do século XX, se preferirem’, mostra uma sensibilidade imaginária por parte do locutor, a um sentido diferente, que estaria no universo do interlocutor, e em função do qual ele, locutor, se reformula, constituindo na glosa um espaço do ‘outro’ (o interlocutor), conseguindo com isso o efeito de que o restante do dizer é todo seu. Ou seja, entregando-se à evidência de uma voz que fala nele, o sujeito delimita o campo de ação dessa voz e garante a originalidade do restante.

Essa é a forma de negociação do sujeito com o inconsciente que irrompe como Outro, e que é denegado quando convertido em ‘outro-interlocutor’. O que significa que ao circunscrever a alteridade, o sujeito garante uma unidade aparente.

Assim, temos a heterogeneidade constitutiva como ‘sempre já denegada’ em todo enunciado, sendo essa denegação condição sine qua non da enunciação.

Toda interlocução se caracteriza pela substituição do “Outro” (alteridade constitutiva e de nível inconsciente), pelo “outro” (interlocutor). 

Orlandi é a única autora em A D., no meu entender, que trabalha positivamente coma noção de alteridade constitutiva, notadamente em seu texto: “As formas do silêncio”, especialmente quando a autora fala do “silêncio constitutivo”, dando a esse fato um tratamento analítico, e mostrando a presença necessária do silêncio no enunciado.

Mas, interessa-nos, aqui, refletir sobre os limites enunciativos e a dimensão mais propriamente discursiva da heterogeneidade, e para isso voltaremos, ainda, ao trabalho de Authier. A autora propõe, então, dois tipos de enunciados: aqueles que mostram a heterogeneidade, com marcas explícitas, e aqueles cujas marcas não são mostradas. Como exemplo de heterogeneidades mostradas e marcadas, temos as glosas enunciativas. Como exemplo de heterogeneidade mostrada, mas não marcada, temos a ironia, a imitação etc, que conta com o “outro dizer” sem explicitá-lo, para produzir o seu sentido.

No capítulo dois de minha tese, retomo então esses postulados e proponho que se fale de um nível de heterogeneidade especialmente discursivo, já que, no caso da heterogeneidade enunciativa ficamos no nível enunciativo, ou seja, no âmbito de análises de enunciados, e no caso da heterogeneidade constitutiva, ficamos no nível do inconsciente, ou seja, no nível de análises psicanalíticas.

Propunha, então, uma análise da heterogeneidade no nível discursivo. Nesse caso, trabalha-se com as noções de formação discursiva e pré-construído.

Se, por um lado, a relação do sujeito com a heterogeneidade constitutiva é sempre uma relação de denegação, por outro lado, sua relação com a heterogeneidade mostrada é sempre fruto de um breve instante de consciência ‘fantasmagórica’ em relação à heterogeneidade constitutiva. Como diz Authier, uma negociação com a heterogeneidade constitutiva. 

No entanto, no meu entender, a heterogeneidade no nível discursivo é permanente, sem ser denegada pelo sujeito. Ao contrário, o sujeito conta com ela para fazer sentido. Ou seja, o sentido se faz nela. 

Paul Henry propõe o termo “pré-construído”, para dar conta dessa presença do outro, que não é o outro enunciativo, nem o outro interdiscursivo, o primeiro, pontual demais, o segundo, amplo demais. O pré-construído é o outro do interdiscurso, circunscrito em uma região histórica e ideológica, delimitada no acontecimento do discurso.

Por exemplo, ao produzir um conto, o sujeito ocupa a posição de contista, que é já cunhada historicamente. Ele não inventa a posição. Essa é uma posição do sujeito do discurso literário, que já está lá para ser assumida.

Essas especificidades literárias, e mais precisamente do conto, constituem, no acontecimento da sua produção, o “pré-construído” (sentidos pré-existentes que estão na sustentação do atual sentido) sobre o qual o texto é produzido. Assim, por não se tratar de uma heterogeneidade constitutiva, alienante e caótica, o sujeito não precisa circunscrever uma parte de seu discurso e a mostrar como sua, o que constituiria a denegação dessa alteridade. Ou seja, ele não a denega, porque ele aí se identifica e o seu dizer se faz contando, justamente, com os limites e a unidade desse discurso.

3 Acontecimento discursivo e autoria

Um outro aspecto, já mencionado e não menos importante a ser considerado, é o aspecto do acontecimento discursivo. Esse termo também foi proposto na terceira fase da Análise do Discurso e tem relação estreita com o que viemos discutindo até aqui.

Isso porque, a noção de acontecimento discursivo dá conta do momento da constituição do sujeito, sem priorizar os aspectos enunciativos aí envolvidos.

Ao contrário, a prioridade fica para os aspectos discursivos, ou seja, a relação que se estabelece não entre um ‘eu’ e um ‘tu’, mas entre posições (de sujeito) em Formações Discursivas.

Pêcheux, no texto Discurso: estrutura ou acontecimento mostra o acontecimento da constituição de uma nova posição de sujeito a partir do confronto de duas formações discursivas: a F.D. que caracteriza o discurso político, e a F.D. que caracteriza o discurso esportivo, que em confronto, resultam em uma posição sujeito de um ‘discurso político para o povo’, materializada no enunciado on a gagné[1].

A esse efeito de sentido produzido por essa ‘nova’ posição sujeito que surge do confronto de ordens diferentes de discurso, chamei efeito-autor.

Assim, no enunciado “on a gagné”, nas condições em que foi produzido, conforme descreve Pêcheux, temos ali o efeito-autor: dizer de uma F.D. (o discurso esportivo) em confronto com o dizer de outra F.D. (o discurso político) instituído neste embate, uma terceira forma discursiva, no caso, o político assumido pelo “povo”. 

Outro exemplo foi apresentado por mim mesma, na tese, e se tratava da apresentação de um caso de produção de um sentido ‘novo’, resultante do confronto de duas formações discursivas, aquela que vinha do discurso radiofônico, e aquela que vinha do discurso pedagógico. 

Nesse exemplo, vários enunciados materializavam esse ‘novo’ sentido, conforme ali pode-se ver.

Assim, caracterizei o efeito-autor, como sendo o efeito do confronto de formações discursivas, cuja resultante é uma nova formação dominante.

 Voltando à questão da heterogeneidade, podemos dizer que a proposta da noção de efeito-autor foi possível na medida em que pude contar com a noção de uma heterogeneidade discursiva, pois é esse nível de heterogeneidade que permite a diferenciação de formações discursivas dominantes se confrontando em um mesmo enunciado. Nesses casos, o sujeito (re)vela sentidos (pré-construídos) heterogêneos com os quais ele não se identifica exatamente, fundando, por esse motivo, uma nova formação ideológica (discursiva) que integra de maneira inédita esses elementos do pré-construído. 

Por outro lado, a noção de heterogeneidade enunciativa mostrada (Authier, 1982) é produtiva para se observar o confronto de formações discursivas que não têm como dominante uma nova formação discursiva. Por exemplo, no enunciado: “Estamos cansados, se é que você entende o que estou dizendo”. Nesse caso, há uma heterogeneidade mostrada, já que há uma não coincidência, um estranhamento, do sujeito enunciador em relação à sua própria enunciação, materializada na segunda parte do enunciado, mas não há um efeito-autor aí produzido, pois não há uma nova formação discursiva dominante aí produzida. Não há o novo, nesse nível, mas há, no entanto, o novo (no nível enunciativo), fruto do confronto de duas posições enunciativas. 

Considero que nesse nível a autoria tem relação com uma função de todo sujeito, a função-autor. Essa noção já foi cunhada primeiramente por Foucault e posteriormente pelos autores Guimarães e Orlandi no artigo Nem escritor, nem sujeito, apenas autor, publicado no livro Discurso e Leitura. Para os autores, diferentemente de Foucault, essa é uma dimensão de todo sujeito, em que ‘se está mais afetado pelo contato com o social e suas coerções’ e mais visível. Do autor se exige unidade, clareza, coerência etc. 

A função-autor, portanto, tem relação com a dimensão enunciativa do sujeito do discurso, ou seja, tem a ver com a heterogeneidade interna a uma formação discursiva dominante, que ganha aí seu movimento e sua unidade sem perder, com isso, sua dominância.

Por exemplo, no caso do Discurso pedagógico, o sujeito pode estar identificado com diferentes formações discursivas, como por exemplo, aquela materializada na posição sujeito aluno, ou na posição sujeito professor etc. Mas nem sempre haverá um confronto de formações que resulte em uma dominante outra, que caracterize uma nova ordem discursiva.

Usando o mesmo exemplo do Conto, podemos ainda retomar o dizer popular de que “quem conta um conto aumenta um ponto”. Considero que esse fato se explica pela função autor do sujeito, que garante o movimento dos sentidos, interno a uma ordem de discurso mas, na contrapartida, a sua conservação.

Em relação à função-autor, podemos ainda observá-la em casos em que há uma forma de heterogeneidade enunciativa não mostrada. Por exemplo, no enunciado do discurso publicitário ‘Não é por acaso que os catarinenses adoram o chão aonde pisam’. Aí há uma formação discursiva representada pelo pressuposto: os catarinenses adoram o chão que pisam; e há uma segunda formação que representa o ‘posto’: o chão que os catarinenses pisam é de cerâmica ELIANE (passível de ser entendido pela imagem-foto da propaganda). Ambas formações são dominadas pela formação discursiva dominante que caracteriza esse enunciado como sendo inscrito no discurso publicitário, materializada pela posição-sujeito em questão.

Nesse caso, não se produz o efeito-autor, pois no confronto de formações discursivas, não há a produção de uma nova formação discursiva dominante. O sujeito se identifica com uma formação discursiva “já-lá”. No acontecimento discursivo que, no caso, é o jornal em circulação (que veicula essa publicidade), já há o espaço institucional da propaganda, que nesse espaço produz seus efeitos legítimos. Mas há, no entanto, autoria, perceptível no nível enunciativo, já que há uma maneira singular e inédita do sujeito mobilizar sentidos do discurso publicitário, ao mesmo tempo que conserva os velhos sentidos e se garante neles. Esses são os elementos que caracterizam a autoria: a singularidade e o fechamento, o primeiro garantido pela diferença, e o segundo pelo repetível. Como exemplo de efeito-autor, poderíamos citar o caso de um programa radiofônico produzido na escola, por estudantes. O sentido desse programa não se garante somente pelos sentidos (pré-construídos) do discurso da mídia, nem tampouco por aqueles do discurso pedagógico. Esse confronto inaugura uma formação ideológica (discursiva) nova.

Proponho, então, de forma conclusiva, que a autoria pode ser observada em dois níveis pela Análise do Discurso. Em ambos os níveis, a autoria tem relação com a produção do ‘novo’ sentido e, ao mesmo tempo, é a condição de maior responsabilidade do sujeito em relação ao sentido que o produz e, por essa razão, de maior unidade. 

Primeiramente, em um nível enunciativo-discursivo, que é o caso da função-autor, que tem relação com a heterogeneidade enunciativa e que é condição de todo sujeito e, portanto, de todo acontecimento discursivo. E em segundo lugar, em um nível discursivo por excelência, que é o caso do efeito-autor, e que diz respeito ao confronto de formações discursivas com nova dominante, verificável em alguns acontecimentos discursivos, mas não em todos. Sendo a função-autor condição de todo sujeito, esse nível de autoria é pouco operante para uma prática de produção de texto. Assim, venho trabalhando no nível da produção do efeito-autor, especificamente na relação do Discurso Pedagógico com outro discurso. Essa é a prática que denomino TEXTUALIZAÇÃO.

Referências

 

AUTHIER,  J. Hétérogéneité montrée et hétérogéneité constitutive: éléments pour une approche de l’autre dans le discours in: DRLAV – Revue de linguistique, n. 26, Paris, Centre de recherche de l’Université de Paris VIII, 1982.

_____. Hétérogénéités Enonciatives.  Langages, n. 73,  Paris, Larousse, 1984.

GADET, F. e HAK, T. (Org.).  Por uma análise automática do discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 1990.

GALLO, S. L. Discurso da escrita e ensino. Campinas: Unicamp, 1992.

_____. Texto: como apre(e)nder esta matéria? – análise discursiva do texto na escola. Campinas, 1994. Tese (Doutorado em Lingüística - Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP.

GUIMARÃES, Eduardo, ORLANDI, Eni. Nem escritor, nem sujeito, apenas autor In: MALDIDIER, D. L'inquietude du discours (textes de MICHEL PECHEUX choisis et présentés par). Paris: Editions des Cendres, 1990. 

ORLANDI, Eni. Discurso e leitura. 2. ed.. Campinas: Cortez/Unicamp, 1988.

_____. As formas do silêncio. Campinas: Unicamp, 1992.

_____. Autoria e Interpretação. In: ___. Interpretação. Petrópolis: Vozes, 1996.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso. Campinas: Unicamp, 1988.

_____. Discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1990.

 

 Notas


* Ensaio apresentado na ANPOLL 2000 em junho de 2000

** Doutora em Ciências da Linguagem/Análise do Discurso (UNICAMP/ Collège Internacional de Philosophie de Paris)

[1] Em francês significa "ganhamos" (a gente ganhou) dentro de uma realidade de competição, correspondendo aproximadamente ao grito de "campeão" nos nossos estádios de futebol.

 

 

Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem

Campus Tubarão:  Av. José Acácio Moreira, 787, Bairro Dehon, 88.704-900 - Tubarão, SC - (55) (48) 3621-3369

Campus Grande Florianópolis: Avenida Pedra Branca, 25, Cidade Universitária Pedra Branca, 88137-270 - Palhoça, SC - (55) (48) 3279-1061