PORTAL UNISUL     BIBLIOTECA     CONSULTA AO ACERVO     BASE DE DADOS      DISSERTAÇÕES     TESES     PORTAL DE PERIÓDICOS     MINHA UNISUL     FALE CONOSCO

Página Inicial > Periódicos do Programa > Linguagem em (Dis)curso > volume 1, número 2, jul./dez. 2001

 

Linguagem em (Dis)curso

Página Principal

 

Linguagem em (Dis)curso

vvolume 1, número 2, jul./dez. 2001


 

SOBRE A SINGULARIDADE DO SUJEITO NA POSIÇÃO DE AUTOR*

Alessandra Fernandes Carreira**

 

Resumo: Partindo da noção, na análise do discurso de “linha” francesa e na psicanálise lacaniana, de sujeito submetido à linguagem, explora-se a noção de autoria como uma posição do sujeito que permite o fe-chamento dos sentidos e a instalação da singularidade. Na repetição insistente de seus significantes primordiais e enigmáticos, instala-se no sujeito a busca pelo sentido, por um fechamento provisório, o que se dá a partir dos sentidos “já-lá” (interdiscurso), os quais, neste movimento, são (re)significados. É nesta (re)significação que se vislumbra a instalação da singularidade na posição de autor.

Palavras-chave: Discurso, autoria, psicanálise.

Resumé: À partir de la notion, dans l’analyse du discours de “ligne” françai-se et dans la psychanalyse lacanianne, de sujet soumis ou langage, on explore la notion de la qualité de l’auteur comme une position du sujet qui permet la fermeture des sens et l’ instalation de la sin-gularité. Dans la répétition insistante de ses signifiants primordiaux et énigmatiques, il s’instale dans le sujet la recherche du sens, d’une fermeture provisorie, donée à partir des sens “déjà-là” ( in-terdiscours), lequels, dans ce mouvement, sont des (re)signifiés. C’est dans cette (re)signification que l’on peut apercevoir l’instalation de la singularité dans la position de l’auteur.

Partindo do título da sessão no qual este trabalho foi apresentado, ou seja, “Do sujeito ao autor em análise do discurso”, gostaria a princípio de chamar a atenção dos leito-res para o fato de que a pretensão de um deslizamento da noção de sujeito para a de autor se funda, obviamente, em uma não sobreposição destas duas noções na análise do discurso. Todavia, segundo o legado de Pêcheux (1988), não se diz o óbvio... 

No que diz respeito à conceituação de sujeito e de autor, sempre falamos de um quando falamos de outro. Mais especificamente, sempre falamos do sujeito quando fala-mos do autor. Podemos, entretanto, em nossas discussões teóricas e análises, falar do su-jeito sem falar do autor. Acredito que aqui o óbvio aparente se desfaz, pois, além da não sobreposição destas duas noções, vislumbramos, se me permitem a expressão, uma assi-metria entre elas. Da noção de sujeito à noção de autor, e não vice-versa, eis a questão!

Por que partimos da noção de sujeito e não da de autor? Por que precisamos falar do sujeito quando falamos do autor? Por que não precisamos falar de autor para falar do sujeito? Estas perguntas, embora de respostas aparentemente simples, não o são de fato. Tentarei produzir ao redor delas.

A análise do discurso, como aponta Orlandi (1996), é uma disciplina de entre-meio, isto é, constitui-se no espaço indistinto das relações entre outras disciplinas. Pode-mos destacar três regiões do conhecimento científico que constituem a análise do discurso: o materialismo histórico, a lingüística e uma teoria do discurso. A psicanálise, ainda, fica com o encargo de fornecer uma teoria sobre a subjetividade que articule estas três regiões (Pêcheux & Fuchs, 1975).

Diante disto, quando falamos de sujeito em análise do discurso, remetemos à definição de sujeito na psicanálise, precisamente na releitura lacaniana da obra de Freud (Maingueneau, 1996; Maldidier, 1990), que parte do axioma “o inconsciente estruturado como uma linguagem” (Lacan, 1964). É a esta referência à psicanálise na análise do dis-curso que tenho me dedicado em minhas reflexões. Mas, o que é um sujeito para Lacan? 

Longe de ser “um” sujeito, o sujeito na concepção lacaniana é aquilo que um significante representa para outro significante, ou seja, o que emerge entre os significantes (Lacan, 1969-1970). Não há uma posição para o sujeito, ele está suspenso ou, para fazer o trocadilho, no suspense. O sujeito é a possibilidade de ocupar alguma posição e nela signi-ficar algo. Daí o suspense: no não saber o que significará no minuto seguinte, quando se descaracterizará enquanto sujeito porque se fiará a um sentido. 

O sujeito se define, ainda, em seu submetimento ao significante, só emergindo por ele mortificado e só vivente se por ele suspenso ou sustentado. Ele não está no signifi-cante, embora este o indicie, marcando que o sujeito “passou por ali e deixou seus rastros”. Daí estar suspenso, como no movimento dos dados no ar, antes (de)caírem, ou do chicote no ar, antes de tocar a carne, de ser encarnado.

Para Lacan (1949), isto que chamarei de a suspensão do sujeito, com toda a ambigüidade que a expressão traz, tem início quando o bebê, ainda um infans, pode advir como um sujeito ao ser falado por um Outro (geralmente encarnado na mãe). Isso lhe per-mite reconhecer-se no discurso do Outro, entre os significantes deste discurso, nos espaços vazios. Assim, o sujeito depende do significante para existir e o significante está primeiro presente no campo do Outro: “O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. (...) petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito” (Lacan, 1964, p. 197).

Petrificado por uma dependência primordial, mortal e alienante, em relação aos significantes do Outro, o sujeito está no terror. Mas, como a linguagem é incompleta, é possível que sobre um espaço para o bebê produzir as “suas” cadeias significantes, desco-lando-se da relação especular com o Outro, se parindo, separando-se. Trata-se do recalque, que se dá graças à introdução do Nome-do-Pai, introdução esta que quebra a holófrase mãe-bebê durante o Complexo de Édipo, e desemboca na construção do “eu”. Não me aprofundarei nestas colocações em virtude da brevidade deste trabalho, mas tenho dedica-do-me a elas em outras reflexões (por exemplo: Carreira, 2000). Destaco apenas que a construção do “eu” no sujeito pressupõe o recalque do discurso do Outro, constituindo o inconsciente como uma cadeia de significantes primordiais que se repete em uma Outra Cena (Lacan, 1966).

O “eu” é, a grosso modo, uma função do sujeito e tem a ver com a construção de uma imagem de unidade para si que, apesar de vir a princípio do Outro, parece ser ab-solutamente inédita por causa do recalque, do distanciamento necessário e ilusório deste Outro. Trata-se, ainda, de uma função exercida a partir de uma posição que, ao ser ocupada pelo sujeito, o apaga para que ele possa advir como “eu”. Dizendo de outra forma, e se-gundo o aforismo freudiano: “Onde isso era, o eu deve advir” (Freud, 1933).

Todavia, longe de ser uma operação totalmente segura e eficaz, o recalque dei-xa restos porque o discurso do Outro não deixa de ecoar, de retornar, atestando a exteriori-dade primordial que constitui o sujeito. Este discurso torna-se o inconsciente e, enquanto tal, continua lá, interferindo no discurso efetivo e organizado do sujeito, mostrando-se como algo que está fora das significações egóicas, como algo sem-sentido e contra o quê o “eu” precisa defender-se. O que fazer diante disto que “força a barra”?

É importante considerar aqui que o distanciamento do Outro primordial, fun-damental para a construção do “eu” no sujeito, também engloba o que Lacan (1949) chama de “a entrada na dialética social”, a qual faz as coisas se acomodarem, ganharem um lugar na história. Nisto entrevejo um ponto de diálogo entre a psicanálise e a análise do discurso no que diz respeito à noção de sujeito. Explicarei melhor porque penso assim.

Cabe à ideologia, como nos diz Pêcheux (1990), fornecer coisas-a-saber, um já-lá interdiscursivo, que visam homogeneizar o mundo. É, a meu ver, justamente isto que socorrerá o sujeito em seu descolamento do Outro primordial: a interpelação ideológica que, é importante frisar, já estava afetando o sujeito desde os primórdios de sua constitui-ção, o que torna esta ordem que vai do primordial ao histórico puramente lógica[1], e não cronológica. Além disso, arrisco-me a dizer que a ideologia, enquanto exterioridade cons-titutiva do sujeito, é da dimensão do Outro.

Todavia, se a dependência mortal em relação ao Outro primordial aterrorizava, uma dependência mortal em relação à ideologia também aterroriza, também é alienante. Como lidar com isto? Seria possível ao sujeito escapar desta exterioridade que o constitui ou seria ele um condenado, como nos diz Lacan (1964), a só surgir no campo do Outro?

Segundo Pêcheux & Fuchs (id.), existem duas ilusões constitutivas do sujeito e do discurso, que eles chamam de esquecimentos nº 1 e nº 2. É bastante interessante apelar para esta teorização porque, a meu ver, ela não toca apenas na questão da constituição, mas também apontam um manejo possível ao sujeito diante desta dependência mortal em rela-ção à exterioridade. O que quero dizer com isso é que as noções de esquecimentos nº 1 e nº 2 abordam aquilo que permite ao sujeito suportar seu assujeitamento, especificamente seu assujeitamento à ideologia, segundo estes autores. 

Mas, mais do que isso, segundo a posição que tenho defendido, estas noções permitem abordar o manejo do sujeito em relação ao submetimento ao discurso do Outro de maneira geral, inclusive em sua dimensão primordial, que é trabalhada por Lacan. Digo isto porque considero que a interpelação ideológica não só afasta o sujeito da dependência ao Outro primordial, ampliando sua gama de identificações, mas também a repete de ma-neira deslocada[2]

Porém, tal qual apontado nos comentários sobre a constituição primordial do sujeito, o que está recalcado retorna. Há sentidos não autenticados que, ainda lá, irrompem no discurso do sujeito, aparentando um sem-sentido. Diante desta irrupção, um outro es-quecimento precisa atuar. O esquecimento nº 2 atua neste retorno dos restos deixados pelo esquecimento nº 1, criando uma “zona do rejeitado” que abarca tudo o que o sujeito pode-ria ter dito, mas não disse (Pêcheux & Fuchs, id.), provavelmente porque seria absurdo em um dado contexto e/ou na relação imaginária com um dado interlocutor. 

Mais ou menos próxima da consciência, esta “zona do rejeitado” é, de certa forma, penetrada pelo sujeito, o qual (re)investiga seus ditos e os reorganiza, procurando precisar o que queria dizer e, concomitantemente, denegar o que não queria dizer. Trata-se, acima de tudo, de uma tentativa de controlar o sentido, o que aponta inevitavelmente para o seu descontrole.

“É isto e não aquilo o que quero dizer”, é mais ou menos esse o enunciado que materializa esta (re)investigação, que comporta no nível da enunciação um movimento de defesa, se assim posso dizer, contra o recalcado. Segundo a análise do discurso, o recalca-do são os sentidos interditados pela ideologia para um dado sujeito, ou seja, a interdição de dá sobre o imaginário do sentido, que se constitui no simbólico para tentar dar conta do real. Já para a psicanálise, o recalque atua sobre os significantes primordiais, quer dizer, sobre um simbólico ainda vazio, mas que clama por imaginarização e do qual o sujeito depende mortalmente para existir.

Bem, diante disto, talvez possamos dizer que os esquecimentos nº 1 e 2 atuem na construção do “eu” porque procuram apagar a submissão do sujeito à ideologia, que defino como formações imaginárias que procuram universalizar o sujeito, calando o retor-no de seus significantes primordiais ao preenchê-los de significados compartilhados pelos seus “semelhantes”. É justamente este o movimento de construção do “eu”: o movimento de um fechamento provisório e imaginário para o enigma que é o retorno do primordial, fechamento este análogo àquele que, segundo Gallo (1995), se produz em um texto.

 Condenado, por um lado, a repetir seus significantes primordiais e, por outro, a tentar preenchê-los com o imaginário perpassado pela ideologia, como o sujeito pode singularizar-se? Esta singularização sem dúvida ocorre e, a meu ver, tem relação com a figura do autor, o qual é definido na análise do discurso como uma posição enunciativo-discursiva do sujeito caracterizada pela responsabilização pelo dizer, fruto do esqueci-mento nº 1, e pela tentativa de controle do sentido, fruto do esquecimento nº 2. Trata-se de uma posição no discurso e, enquanto tal, localiza-se na ideologia.

Princípio organizador do discurso (Foucault, 1969, 1970; Orlandi & Guima-rães, 1988), o autor é aquele que reinvestiga seus ditos, preocupando-se em se fazer enten-der por seus interlocutores, tentando cercar o sentido e apagar a heterogeneidade constitu-tiva do sujeito e do discurso (Authier-Revuz, 1990). Isso se dá através de manobras para conter o sentido (emprego de incisas, autonímias, etc.), que colocam em mostra a hetero-geneidade porque atuam pela via da denegação (id., ibid.).

Considero o autor como aquele que, de certa forma, penetra pelo menos pré-conscientemente no esquecimento nº 2, uma vez que a busca de controle do sentido pres-supõe algum reconhecimento de seu descontrole. Entretanto, se o esquecimento nº 2 lida com os restos do nº 1, penetrar em um implica em penetrar no outro. É aqui que encontra-mos a dimensão subjetiva do autor: em uma noção, por mais vaga que seja, de seu subme-timento à linguagem, a algo que fala a sua revelia e que lhe faz emergir entre os signifi-cantes. 

Não nos esqueçamos, porém, que o que fala à revelia do autor não é só a ideo-logia, mas também o discurso do Outro primordial que estabelece uma porta de entrada singular no simbólico para cada sujeito. Acredito que é ao procurar preencher os seus si-gnificantes primordiais, a partir de sua localização na ideologia (posição), que o autor irá (re)significar o que vem da mesma, dando aos sentidos já-lá uma interpretação particular. Eis, talvez, o caráter inédito da autoria. Já a unidade se dá devido à semelhança, não a so-breposição total, entre o que um autor diz e o que a ideologia dita, o que cria uma inter-cambialidade necessária para o sujeito e para o discurso.

Singular e intercambiável, deixando marcas significantes do sujeito em suas manobras de contenção do sentido, o autor é apreensível enquanto posição, diferente do sujeito, que está suspenso. Mas, o autor é também o sujeito que se descaracterizou en-quanto tal ao ocupar esta posição, ele indicia o sujeito. Desta forma, embora na teoria par-tamos da noção de sujeito para chegar à noção de autor; tal qual eu fiz durante esta exposi-ção, talvez na análise seja partindo das marcas de autoria que chegamos ao sujeito, aquele que emerge entre os significantes, como uma criança que salta entre as casas de um jogo de amarelinha, esperando sair do inferno e chegar no céu.

Referências

 

AUTHIER-REVUZ, J. Heterogeneidades enunciativas. In: Cadernos de Estudos Lin-güísticos, Campinas, v. 19: p. 25-42, jul./dez., 1990.

CARREIRA, A. F. Subjetividade e autoria: o sujeito como vacilo do “eu”? Ribeirão Preto, 2000. Tese (Doutorado em Psicologia) - Programa de Pós-Graduação em Psico-logia do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso - aula inaugural no Collège de France, pro-nunciada em 2 de dezembro de 1970. 4. ed. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sam-paio. São Paulo: Loyola, 1970

_____. Qu’est que c’est un auteur?. Littoral, n. 9, Paris, Ères, 1983.

FREUD, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. In: Strachey, J.. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.  Trad. de José Luís Meurer. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (©1933). V. XXII, p. 13-220.

GALLO, S. L. Discurso da escrita e ensino. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995.

_____. Texto: como apre(e)nder esta matéria? – análise discursiva do texto na escola. Campinas, 1994. Tese (Doutorado em Lingüística) Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP.

LACAN, J. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MAINGUENEAU, D. Les termes clés de l’analyse du discours. Paris: Seuil, 1996.

MALDIDIER, D. L’inquiétude du discours (textes de Michel Pêcheux choisis et présentés par). Paris: Éditions des Cendres, 1990.

ORLANDI, E. P. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petró-polis, RJ: Vozes, 1996.

_____. O lugar da sistematicidade lingüística em análise do discurso. Aula apresenta-da no concurso para professor titular no Departamento de Lingüística do IEL/UNICAMP,1990.

ORLANDI, E. P., GUIMARÃES, E. Unidade e dispersão: uma questão do texto e do sujeito. In: ORLANDI, E. P. et al. (1988). Sujeito e Texto, série Cadernos PUC. São Paulo: EDUC, 1988. p. 17-36.

PÊCHEUX, M., FUCHS, C. A propósito da análise automática do discurso: atualização e perspectivas. Trad. de Péricles Cunha. In:. GADET, F, HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso. 2. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. p. 163-252.

PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. de Eni Pulcinelli Orlan-di. Campinas: Pontes, 1990.

_____. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. de Eni Pulcinelli Orlandi et al. Campinas: Editora da UNICAMP, 1988.

 

 Notas

 


* Trabalho apresentado no "XV Encontro da ANPOLL" durante a sessão de comunicações coordenadas "Do Sujeito ao Autor em AD".

**  Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia pela USP. Professora titular B-D da Universidade de Ribeirão Preto.

[1] O tempo lógico, em Lacan, corresponde ao fato de haver um tempo para ver, outro para compreender e outro para concluir (Lacan, 1945, 1964).

[2] O esquecimento n°1 refere a um processo de autenticação para o sujeito de alguns sentidos (Gallo, 1994), e não de outros, o que pressupõe um trabalho da ideologia de simulação de unicidade de sentidos (Orlandi, 1990). Os sentidos autenticados ganham uma aparência de naturalidade, obviedade e transparência dentro de uma dada formação discursiva (Pêcheux, 1988). Isto fornece uma ilusão de unidade ao sujeito, que pode assim acreditar que é a fonte do sentido, pois "se esquece" que os sentidos advém do interdiscurso. Trata-se, na expressão de Pêcheux (op. cit.), de um "recalque do interdiscurso", da memória do dizer historicamente constituída, recalque este que encontra seu protótipo no recalque do discurso do Outro, o que constitui o inconsciente. Esta é uma hipótese teórica minha, a qual se funda no fato de que Pêcheux utilizar um termo advindo da psicanálise ("recalque"), mantendo para ele a filiação de sentido psicanalítica.

 

 

Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem

Campus Tubarão:  Av. José Acácio Moreira, 787, Bairro Dehon, 88.704-900 - Tubarão, SC - (55) (48) 3621-3369

Campus Grande Florianópolis: Avenida Pedra Branca, 25, Cidade Universitária Pedra Branca, 88137-270 - Palhoça, SC - (55) (48) 3279-1061