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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 1, jan./jun. 2001


 

Texto: reorganizando sua compreensão*

Luana Medeiros Bonetti**

Resumo: Busca-se neste ensaio diferenciar os termos redação e texto, bem como, tecer algumas considerações sobre a implicação do uso de um termo por outro no ensino de produção escrita.

Palavras-chave: Texto, redação, ensino.

Abstract: On this essay I try to distinguish the labels redaction and text and to comment some considerations about the implication of the employment of one label for another in the writing production teaching.

 

 

1 Introdução

Sabe-se que boa parte da produção escrita nas escolas tem sido norteada pela palavra redação, embora indiretamente os professores esperem de seus alunos, como produto final, um texto. 

Essa confusão entre redação e texto se estendeu ao longo dos tempos, e a palavra redação tem sido usada com mais freqüência desde 1978 quando, nos exames vestibulares, por ordem do decreto 79.298 de 24/02/77, houve a inclusão obrigatória de prova ou questão de redação em Língua Portuguesa.

É objetivo deste ensaio, portanto, evidenciar a diferença existente entre esses dois termos, acentuando o que implica cada um deles, para se efetivar um melhor encaminhamento da produção escrita na prática pedagógica.

 

2 O texto

 

Considerando-se a linguagem como forma de ação entre os homens, cuja função básica é persuadir e convencer e não somente comunicar, evidentemente, os estudos da língua já não podem mais estar amparados, apenas, nos campos da morfologia, da fonética e da sintaxe frasal. É necessário inseri-los em contextos mais abrangentes, aqueles da lingüística textual, entre outros, para que se possa dar conta de explicar certos fenômenos lingüísticos, como os sintático-semânticos ocorrentes entre enunciados e seqüências de enunciados.

Por volta dos anos 60, na França, os lingüistas constataram a insuficiência da lingüística da frase para explicar tais fenômenos, e foi a partir daí que surgiram os primeiros estudos, mais voltados para os mecanismos da organização textual responsáveis pela construção do sentido.

O texto, desde então, passou a ser abordado sob o ponto de vista dos mecanismos sintático-semânticos e como objeto cultural. 

No Brasil, os primeiros estudos da lingüística textual chegaram em torno dos anos 80. A evolução desses estudos garante a análise do texto como uma unidade lingüística com propriedades estruturais específicas. O texto passa a ser considerado como uma unidade significativa.

Umberto Eco, em sua obra Conceito de texto (1984), diz que um dos momentos de indefinição da semiótica contemporânea foi justamente com a crise da noção de signo. Afirmava-se: “o signo não existe”. E o que existe, ao menos no que diz respeito às semióticas verbais, é o texto. O autor considera a noção de texto, pelo modo como foi elaborada nos últimos anos, notavelmente importante, porque permite entender alguns mecanismos da significação da comunicação de maneira muito mais ampla. Para ele, é um suicídio construir uma semiótica do texto, sem relacioná-la a uma semiótica do signo.

Ao buscar saber sobre o termo texto, tem-se notado que esta palavra se enuncia de forma abrangente, articulada a outros termos também abrangentes, como: enunciação, sentido, significação, contexto, interpretante e outros que, de uma ou de outra maneira, estejam ligados aos mecanismos da organização textual responsáveis pela construção do sentido.

Do estudo fundado em alguns autores, pudemos apreender, como uma possível definição de texto:

...em um sistema semiótico bem organizado, um signo já é um texto virtual, e, num processo de comunicação, um texto nada mais é que a expansão da virtualidade de um sistema de signo[1].

Já a autora de A articulação do texto, Elisa Guimarães, atribui a texto o seguinte conceito:

Em sentido amplo, a palavra texto designa um enunciado qualquer, oral ou escrito, longo ou breve, antigo ou moderno. Concretiza-se, pois, numa cadeia sintagmática de extensão muito variável, podendo circunscrever-se tanto a um enunciado único ou a uma lexia, quanto a um segmento de grandes proporções.

 

São textos, portanto, uma frase, um fragmento de um diálogo, um provérbio, um verso, uma estrofe, um poema, um romance, e, até mesmo, uma palavra-frase, ou seja, a chamada frase de situação ou frase inarticulada, como a que se apresenta em expressões como “Fogo!”, “Silêncio”, situadas em contextos específicos[2].”

Um outro conceito de texto é o que segue:

Chama-se texto o conjunto dos enunciados lingüísticos submetidos à análise: o texto é, então, uma amostra de comportamento lingüístico que pode ser escrito ou falado.

 

L. Hjelmslev toma a palavra texto no sentido mais amplo e com ela designa um enunciado qualquer, falado ou escrito, longo ou curto, velho ou novo. “Stop”é um texto tanto quanto O Romance da Rosa. Todo material lingüístico estudado forma também um texto, retirado de uma ou mais línguas. Constitui uma classe analisável em gêneros divisíveis, por sua vez, em classes, e assim por diante, até esgotar as possibilidades de divisão[3].”

A palavra texto é utilizada freqüentemente, seja na escola ou fora dela. É comum ouvirmos frases como: “O autor terminou seu texto”; “Os textos estão sobre a mesa”; “Que texto complicado!”; “Os atores já receberam seus textos”.

Conceituar texto, no entanto, é mais complexo do que parece, dada a abrangência de termos que estão ligados à sua significação. 

Em nossas considerações finais sobre o que configura texto, podemos dizer que a textualidade (tessitura), a rede de relações, organização de sentido, coerência, coesão e a completude da mensagem num dado contexto caracterizam um texto e garantem o uso da língua. “ Não é amontoando os ingredientes que se prepara uma receita; assim também não é superpondo frases que se constrói um texto[4].”

É por meio de textos que o discurso se manifesta. Qualquer passagem falada ou escrita, independentemente de sua extensão, que constitua um todo significativo efetiva-se em um texto.

 

3 A redação

 

A quantidade de manuais de redação disponíveis no mercado e adotados nas escolas de ensino médio é evidência de que o trabalho de produção escrita vem sendo alicerçado na palavra redação. 

Esses manuais propõem-se a mostrar alguns mecanismos de que o leitor dispõe para redigir bem, a ajudar a organizar as idéias de modo a fazer redações lógicas, claras, objetivas e bem elaboradas. Para isso trabalham de forma bastante técnica e com uma divisão tipológica um tanto artificial. O ensino de redação propõe ao aluno escrever uma narração, uma descrição ou uma dissertação sobre determinado tema, como se nosso pensamento e nossa linguagem trabalhassem de maneira estanque.

Tal procedimento justifica-se pela preocupação latente no sistema educacional com o concurso vestibular. Nos moldes em que se apresenta, manifesta o interesse direto em atender, principalmente, a esse objetivo.

Buscar-se-á, a seguir, conceituar redação com o intuito de esclarecer o que implica a tomada de um termo por outro no ensino e desenvolvimento da escrita.

Segundo Branca Granatic, “tudo o que se escreve recebe o nome genérico de redação (ou composição)”. Informa ainda que existem três tipos de redação: descrição, narração e dissertação[5].

Para Magda Becker Soares, 

a atividade de escrever envolve um conjunto de operações intelectuais que, como resultado, produzirão um conjunto unitário estruturado de frases, o qual recebe o nome de redação[6].

Buscando, no dicionário, o conceito desse termo tem-se:

Redação. [do lat. Redactione.] S.f. 1. Ato ou efeito de redigir. 2. p. ext. trabalho ou exercício escolar que versa sobre um assunto dado ou de livre escolha e se destina a ensinar o aluno a redigir corretamente com segmento lógico de idéias; composição[7].

Observa-se que, no segundo da citação acima, o conceito de redação está em conformidade com o significado que assumiu o termo no meio escolar, reforçando, assim, o que foi dito anteriormente sobre o trabalho de produção escrita estar sendo alicerçado pelo termo redação.

Consultando-se um dicionário etimológico, portanto, temos que:

Redação – s.f. Maneira própria de cada um escrever seus pensamentos, estilo; sede de um jornal; o conjunto de redatores. Fr. Rédaction, do lat. Redactio, onis. Nota: A palavra latina tinha outro significado: era a ação de reduzir, de comprimir, fazer voltar o rebanho, fazê-lo entrar no curral, reunir num só grupo, recolher uma determinada soma de dinheiro, etc. Desta significação de reunir, agrupar, foi que tirou o francês rédaction: quer no sentido de maneira própria de reunir, idéias, pensamentos, quer no agrupar escritores para redigir um jornal. Assim, não é correto afirmar que redação vem do lat. Redactio, onis, pois semanticamente, é outra cousa. Vem diretamente do francês que deu à palavra latina outra simbolização intelectual[8].

Percebemos, portanto, que a palavra redação está etimologicamente ligada à idéia de reunião, agrupamento, organização, evidenciando-se aí a diferença existente entre redação e texto.

Maria Teresa Serafini em sua obra “Como escrever textos” diz:

uma redação efetiva-se em duas fases fundamentais: a fase de produção das idéias e a fase de feitura do texto... para aprender a desenvolver um discurso escrito, convém saber o que é um texto e no que ele difere da lista de idéias presentes no roteiro. Um texto é um continuum em que todas as partes se inter-relacionam[9].

Agrupar e organizar as idéias de forma lógica é, portanto, uma redação, porém, não é um texto. O texto se configura numa hierarquia contextual, de modo que os articuladores relacionais sejam fundamentais para a construção do sentido.

Cabe aqui esclarecer que para se organizar as idéias de maneira lógica, faz-se necessário respeitar as leis do entendimento, da razão, do pensamento com a devida preocupação em tornar claro para os outros aquilo que se quer declarar. Deve-se organizar o pensamento respeitando o modo de raciocinar peculiar de alguém ou de um grupo. A organização lógica utiliza as operações combinatórias mais complexas a fim de assegurar a coerência de raciocínio, de idéias. 

No ensino de redação percebe-se que a estruturação começo, meio, fim ou introdução, desenvolvimento e conclusão é enfatizada como aspecto principal de organização lógica. 

No texto, porém, a organização lógica vai além disso, porque está ligada também aos níveis da significação e ao contexto. No romance, no cinema e na poesia, por exemplo, a falta de coerência e coesão é transformada em valor estético. A falta de lógica dos estados interiores dos sentimentos mais profundos, o absurdo da existência, o vazio do convívio humano são motivos para que um autor invista na falta de coesão e coerência para, propositadamente, conseguir efeitos estéticos e até produzir determinadas mensagens ou reações, garantidas pelas relações de significação e contexto presentes em um texto.

Assim, uma vez solicitado ao aluno que faça uma redação, não se poderia jamais exigir um texto, bastaria que ele organizasse, de maneira lógica, as idéias e já estaria atendendo por completo à solicitação.

Dado o exposto, concluímos que a tomada de um termo por outro tem prejudicado o ensino e o desenvolvimento da prática de escrever, pois a ênfase está sendo dada às técnicas de redação, e o estudo do texto como unidade de significação apresenta-se insuficiente. É necessário estudar os processos que constituem a linguagem, analisando as diferentes formas de manifestação do sentido presentes no texto, entender o funcionamento da linguagem, a partir de como as unidades significativas são articuladas na superfície do texto, observar, enfim, aspectos sociais – históricos e culturais – e os processos sintático-semânticos.

 

Referências

BAKHTIN, Mikhail (V.N. Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo : Hucitec, 1997.

BUENO, Francisco da Silveira. Grande dicionário etimológico – prosódico da língua portuguesa. São Paulo : Saraiva, 1968.

DUBOIS, Jean. Dicionário de lingüística. São Paulo : Cultrix, 1973.

ECO, Umberto. Conceito de texto. São Paulo : T.A. Queiroz, 1984.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed. São Paulo : Nova Fronteira,1986.

FIORIN, José Luiz, SAVIOLLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo : Ática, 1997.

GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo : Scipione, 1995.

GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto. São Paulo : Ática, 1992. 

SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. São Paulo : Globo, 1992.

 

 

Notas


* Ensaio apresentado à disciplina de Semântica Geral do Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul.

** Mestranda em Ciências da Linguagem; docente da Universidade do Sul de Santa Catarina.

[1] ECO, Umberto. Conceito de texto. São Paulo : T.A. Queiroz, 1984. p.4.

[2] GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto. São Paulo : Ática, 1992. p. 14.

[3] DUBOIS, Jean. Dicionário de lingüística. São Paulo : Cultrix, 1973. p. 586.

[4] FIORIN, José Luiz, SAVIOLLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo : Ática, 1997. p. 11.

[5] GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo : Scipione, 1995. p. 13.

[6] SOARES,1978, p.168

[7] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed. São Paulo : Nova Fronteira,1986. p.1466.

[8] BUENO, Francisco da Silveira. Grande dicionário etimológico – prosódico da língua portuguesa. São Paulo : Saraiva, 1968. p. 3409.

[9] SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. São Paulo : Globo, 1992. p.30.

 

 

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