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Linguagem em (Dis)curso

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Linguagem em (Dis)curso

volume 1, número 1, jan./jun. 2001


 

Elementos para o destaque de sentenças centrais

para sublinhado e/ou elaboração de resumos informativos*

 Fábio José Rauen**

Resumo: O artigo apresenta elementos para o destaque de sentenças centrais para fins de sublinhado e/ou elaboração de resumos informativos. Para tanto, o autor utiliza simultaneamente cinco critérios, quais sejam, vínculos coesivos (Hoey, 1991); ilhas de confiança lexical (Cavalcanti, 1984); padronização textual (Silveira, 1990); relações clausais (Winter, 1971 citado por Hoey, 1983); e, padrão argumentativo de Toulmin (1958). Esta metodologia é aplicada e avaliada na primeira seção do artigo “Perspectivas para o desenvolvimento de vacinas contra a AIDS” de Mauro Schechter.

Palavras-chave: Texto, discurso, lingüística, coesão, coerência.

Abstract: This article shows some elements of the detachment of central sentences for underlying and/or elaboration of the informative summaries. For that, simultaneously, the author uses five criteria: Hoey’s (1991) cohesive ties (Hoey, 1991); Cavalcanti’s (1984) lexical confidence islands; Silveira’s (1990) textual patterns; Winter’s (1971) clause relations; and, Toulmin’s (1958) argumentative patterns. This methodology is applied and evaluated in the first section of Mauro Schechter’s article “Perspectivas para o desenvolvimento de vacinas contra a AIDS”.

 

1. Elementos de segmentação dos documentos

 

Segundo Hoey (1991), os documentos são antes organizados que estruturados[1]. O conceito de estrutura matiza-se por um caráter de inviolabilidade. Enquanto uma estrutura pressupõe a prescritividade de modelos, a organização textual trabalha com padrões culturalmente flexíveis[2]. Se, por um lado, novos padrões são constantemente produzidos, o que inviabilizaria um inventário exaustivo, outros cristalizam-se, constituindo-se padrões culturalmente canônicos numa dada sociedade[3]. Portanto, as descrições estruturais devem ser reinterpretadas como padrões de organização populares[4]. Desse modo, falantes e escritores proporcionam, e ouvintes e leitores percebem padrões de organização no documento.

Embora não existam limites para o número de possíveis padrões de organização, as relações sob as quais eles são elaborados devem ser finitas. Portanto, é possível admitir que essas relações pertençam ao arsenal cognitivo humano, colaborando para a interpretação. Em outros termos, proponho que a noção de padronização possa substituir a noção de estruturas cognitivas, uma vez que as últimas correspondem apenas à cristalização de padrões a partir da reiteração contínua. Antes das estruturas, devemos dirigir a nossa atenção às relações que permitem que se construam padrões de organização.

Hoey, invertendo a tendência de se transpor os constructos conceptuais da frase para o documento, propõe uma metaforização a partir de um referencial maior. Para ele, o documento se define como uma coleção de documentos construída a partir de determinados padrões de organização. “Texts are made up of interrelated but separate packages of information - sentences - just as collection of texts might be” (1991, p. 31). Isso posto, tal como documentos se relacionam uns com os outros, sentenças igualmente se relacionam[5].

Neste trabalho, o conceito de sentença abarcou:

a) aspecto gráfico - divisão ortográfica que se inicia com caractere maiúsculo e que termina com pontuação final - “.”, “?”, “!” e “...”[6];

b) aspecto sintático-gramatical - domínio da sentença “S”, raiz da representação arbórea no modelo padrão da gramática gerativa[7], podendo ser absoluta, composta ou complexa, conforme a organização de suas cláusulas constituintes[8]; e,

c) aspecto textual-cognitivo - elemento constitutivo da organização textual contendo um pacote separado e interrelacionado de informação, embora incompleto e em miniatura (cf. Hoey, 1991, p. 35).

2 Critérios centrais para o sublinhado

 

A adequabilidade das marcações de um primeiro leitor como delimitador de sentenças componenciais de um resumo informativo é um conceito pouco consensual[9]. Isso posto, procurei cercar-me de critérios objetivos de destaque de determinados elementos dos documentos em detrimento de outros. O primeiro suporte para este trabalho é a natureza intrínseca do sublinhado, ou melhor, trata-se de uma estratégia de cópia com apagamentos. O que o leitor faz, nada mais é do que priorizar determinadas seqüências do documento (cópia) e não priorizar outras seqüências (apagamento).

Observando-se que o elemento de segmentação é a sentença, fundamento minha tese na constatação de Hoey (1991), para quem é possível produzirem-se resumos de documentos expositivos[10]  a partir da consideração/desconsideração de determinadas sentenças, tomadas em sua totalidade.

Para ele, sentenças que possuem três ou mais vínculos entre seus itens lexicais são conectadas entre si. A análise contrastiva de todas as sentenças de um documento, umas com as outras, permite descrever quantitativamente essas conexões, tanto com as sentenças anteriores, quanto com as sentenças posteriores. Tendo em mente essa tecnologia, tornam-se possíveis resumos a partir de sentenças de alta conectividade (centrais); a partir da desconsideração de sentenças de baixa conectividade (periféricas); e, a partir da consideração de determinada sentença central com suas pares. Além disso, é possível determinar sentenças de abertura e de encerramento de tópicos[11].

Neste trabalho, configurei, como critério central para o sublinhado, o destaque de sentenças consideradas centrais, de tal sorte que se obtivesse, a partir da leitura seqüenciada das sentenças destacadas e sem maior esforço adaptativo, um resumo informativo do documento original - critério da realimentação de Ruiz (1991, p. 40).

Para que isso fosse possível, as quatro meta-estratégias obtidas a partir da interpretação das metarregras de Charolles (1978) foram aplicadas tanto intra- quanto interdocumentalmente. Dessa forma, tomado o resumo obtido, ou tomada a relação documento original e resumo obtido, não poderiam ser feridas as meta-estratégias de repetição (ou continuidade), progressão, não-contradição e relação (ou articulação).

Neste esforço foram adotados os seguintes critérios auxiliares:

a) vínculos coesivos, levantados por Hoey (1991), com vistas à escolha de sentenças conectadas quando em confronto com sentenças não-conectadas, garantindo a manutenção da meta-estratégia da repetição ou continuidade;

b) determinação das ilhas de confiança lexical propostas por Cavalcanti (1984), como critério de determinação de blocos de sentenças comuns e/ou escolha de sentenças conectadas candidatas ao sublinhado;

c) padronização textual dos artigos de divulgação científica proposta por Silveira (1990a), como critério de garantia da manutenção da padronização dos artigos, de forma a elencarem-se as categorias mais relevantes;

d) relações clausais de Winter (1971) a partir de Hoey (1983), a fim de se delimitarem critérios de relação ou articulação entre sentenças destacadas; e,

e) padrão argumentativo proposto por Toulmin (1958) para fins de observação da padronização argumentativa subjacente à divulgação científica.

2.1 Vínculos coesivos

 

A proposta de Hoey (1991) ressalta os elos criados entre sentenças por relações lexicais e não-lexicais. O que caracteriza um vínculo é que este permite ambientação para que o produtor adicione algo novo, indo além da informação já veiculada. Antes de apresentá-los, ressalte-se que é o segundo elemento aquele que tem de estar ligado ao primeiro (relação anafórica) para se constituir como vínculo. Dessa forma, o segundo elemento deve ter referência semelhante à referência do primeiro.

Para Hoey (1983, 1991), os elos podem ser formados por[12]:

a) repetição lexical simples, quando um item lexical, já presente numa sentença anterior do documento, é repetido noutra sentença de forma integral, ou com alterações plenamente explicáveis pelos paradigmas gramaticais. Exemplificando, “homem” vs. “homem”, “homem” vs. “homens”, “ser” vs. “foi”, etc.. Excluem-se desse rótulo a repetição acidental como, “O estudo desenvolve a razão” vs. “Por esta razão, devemos estudar” e, os determinantes, preposições, auxiliares, negativos, coordenativos e subordinativos, conjunções, submodificadores e as partículas[13];

b) repetição lexical complexa, que ocorre em duas situações, a saber, quando dois itens lexicais compartilham morfemas idênticos, mas não são idênticos formalmente; e, quando os dois itens são idênticos, mas de classificação gramatical diferente. Em ambos os casos é possível parafrasear um item de modo que essa paráfrase contenha o outro. Exemplificando, “Ele tinha dançado demais” vs. “A dança começou à tardinha”, onde “dança” (substantivo) equivale à atividade na qual alguém “dança” (verbo);

c) paráfrase simples, quando um item pode substituir outro dentro de um contexto sem perder ou ganhar especificidade e com mudança de significação não-discernível. Aproximadamente, recobre a noção de sinonímia. Pode ser parcial ou mútua. Na paráfrase mútua, a substituição tem mão dupla (e.g. “A bomba produziu estragos” vs. “A greve causou problemas”). Na paráfrase parcial, o elemento “B” substitui o elemento “A”, mas a recíproca não ocorre (e.g. “homem jovem” vs. “livro novo”);

d) paráfrase complexa, quando dois itens lexicais são definidos de modo que um deles inclua o outro, embora não compartilhem morfema lexical. Nesse rótulo incluem-se: a) a antonímia (e.g. “quente” vs. “frio”), que o autor prefere considerar como paráfrase simples (1991, p. 64); b) casos nos quais o item em destaque é repetição complexa de um primeiro (e.g. “escrito” vs. “escritor”) e também uma paráfrase simples (ou mesmo antonímia) de um terceiro (e.g. “escritor” vs. “autor”), implica que o segundo e o terceiro item lexical estão em situação de paráfrase complexa (e.g. “escrito” vs. “autor”). Observe-se: Se “escrito” está em repetição complexa com “escritor”, Se “escritor” está em paráfrase simples com “autor”, Então “escrito “está em paráfrase complexa com “autor”; e, c) casos semelhantes ao visto acima, mas com os elementos cognitivamente calculados;

e) co-referente, quando não há relação lexical evidente (e.g. “César Augusto” vs. “O imperador romano”)[14];

f) repetição hiponímica, quando o segundo termo é menor do que o primeiro (e.g. “cientistas” vs. “biólogos”)[15];

g) substituição, todas as espécies de substituição por pro-formas (Fávero, 1991, p. 58). Exemplificando, “José caiu” vs. “Ele estava nervoso”; e,

h) elipse, classe de substituição na qual o primeiro item é substituído por ? (“zero”). A título de exemplo, “José saiu” vs. “? Estava nervoso”.

  2.2 Coesão lexical: itens lexicais-chave

 

A noção de que há palavras, frases, parágrafos-chave nos documentos é freqüentemente encontrada na bibliografia[16]. Veja-se o que diz (Salvador, 1970, p. 75):

a) capacidade de escolher se desenvolve pelos seguintes exercícios: a) escolher as idéias através das palavras que as exprimem; b) numa frase, a idéia expressa é condensada em algumas palavras-chaves; c) num parágrafo, a idéia principal é freqüentemente resumida numa frase-mestra; d) numa exposição, a sucessão das idéias principais se manifesta por parágrafos-chave.

A partir desse contexto, outro critério de adequabilidade é a consideração de itens lexicais-chave, proposta por Cavalcanti (1984) a partir dos fios condutores semânticos de Collerson (1973-4, p. 25), para quem “em qualquer documento, certas palavras são relacionadas semanticamente umas às outras”, podendo-se dizer que “elas formam um fio condutor que percorre todo o documento ou parte dele”. Num dado documento, itens lexicais-chave formam o que Lesser e Erman (1977) chamam de ilhas de confiança lexical. As ilhas de confiança são pontos de referência ou âncoras identificáveis no documento.

Esses itens formam fios condutores semânticos que percorrem todo o documento ou parte dele e são básicos para o estabelecimento do conteúdo proposicional. Eles são encabeçados por itens lexicais-chave e compostos por iterativos e associativos[17]. Itens lexicais-chave centralizam informação que têm relações pragmáticas indiretas na interação leitor-documento.

Trata-se portanto de um conceito semântico e pragmático. “É semântico porque é baseado na saliência indicada pela coesão léxico-gramatical e informativa do documento. É pragmático porque se refere às ‘expressões indexicais’” (Cicourel, 1974), cuja saliência é negociada em confronto com a relevância-leitor em direção à criação de coerência na interação leitor-documento[18]. Isso posto, um item lexical chave é um elemento saliente entre os demais e com o qual o leitor resolve interagir, por ser contextualmente relevante.

Certos itens lexicais são selecionados pelo leitor como ilhas de confiança discursiva. Eles formam fios condutores semântico-pragmáticos e são básicos para o estabelecimento do conteúdo proposicional e para a atribuição da força ilocucionária. Tais fios são formados por itens contextualmente relevantes, que podem ser relacionados semanticamente, pragmaticamente ou semântico-pragmaticamente como itens lexicais-chave.

 

2.3 Artigos de "Ciência Hoje": padronização

 

Meyer e Rice (s.d. citados por Barros e Rojo, 1984) defendem que os “bons leitores” recuperam o tipo de configuração textual[19], quer esta esteja implícita ou explicitamente marcada, enquanto leitores menos proficientes encontram dificuldades no primeiro caso, apresentando resumos com organização diferente da do documento de base. Isso posto, padrões de organização canonizados podem ser úteis para o trabalho a que me proponho.

O conceito de superestrutura foi apresentado por van Dijk e corresponde a uma espécie de sintaxe textual socialmente organizada. Para ele “superestructura es la forma global de un discurso que deline la ordención global del discurso y las relaciones (jerarquicas) de sus respectivos fragmentos” (1986, p. 53). Ela corresponde ao modo particular como determinada cultura organiza espécies de documentos.

As categorias organizacionais impõem restrições ao conteúdo semântico e pragmático de um documento. Esse esquema dispõe as seqüências de sentenças e indica para elas funções específicas. Ao contrário de Coracini (1985, p. 38) para quem a vulgarização científica apresentaria uma organização imprevisível, Silveira (1990a) apresenta um esquema de organização de um artigo de “Ciência Hoje”, que transcrevo a seguir[20]:

Esquema 1 - Organização de um artigo de divulgação científica de “Ciência Hoje”, conforme SILVEIRA (1990a): 

     

As categorias mais superordenadas são as da notícia: sumário (Su) e relato científico-noticioso (RCN). O sumário compreende a manchete (M), o texto introdutório do índice (TII) e o texto introdutório do artigo (TIA). O RCN compreende o episódio (E) e os comentários (Cs). O (E) superordena os acontecimentos (As) e as conseqüências/reações (Kõs/Rs); os (As) hierarquizam o acontecimento principal (AP) e os antecedentes (Ants); o acontecimento principal é a pesquisa realizada que é formalizada pelas categorias da história, o discurso envolvido: apresentação (Apr), conflito-enigma (C/E) e resolução (R); já os (Ants) que são as causas que originam a pesquisa, compreendem as circunstâncias (Circs), que se diferenciam em contexto (CT), ou seja, acontecimentos antecedentes à pesquisa, mas que ainda são atuais e eventos prévios (EP), antecedentes passados em relação à pesquisa realizada; os (Ants) compreendem, também, a história (H) que organiza as categorias da intriga, narrativas de sucesso e/ou fracasso para os sujeitos-informantes da pesquisa. Os comentários (C) se definem por expectativas futuras do cientista (Exps), avaliações (Avs) e sugestões (Sugs); As [Kõs/Rs), por fim, são de tempo posterior aos acontecimentos e resultam deles, diferenciando-se em eventos/atos (E/A) e reações verbais (RV] [p. 3-4] (complementos meus, entre colchetes, ao original incompleto).

A classificação acima cumpriu um duplo propósito. Por um lado, dispôs uma terminologia para tratar determinadas partes dos artigos amostrados. Por outro lado, constituiu-se em tecnologia auxiliar para o destaque de sentenças centrais e periféricas.

 

2.4 Relações causais

 

A definição de relação de cláusula foi proposta por Winter em 1971 e corresponde ao processo cognitivo de interpretação ou de produção de uma sentença ou grupo delas, a partir das sentenças adjacentes.

Clause relation is the cognitive process whereby we interpret the meaning of a sentence or group of sentences in the light of this adjoining sentence or group of sentences”; “clause relation is also the cognitive process whereby the choices we make from grammar, lexis and intonation in the creation of a sentence or group of sentences are made in the light of its adjoining sentence or group of sentences (citado por Hoey, 1983, p. 18-9).

O trabalho do analista consiste em determinar os padrões de relação clausal, de forma a eliciar a organização do documento.

Embora existam infinitas combinações, as relações de cláusulas se dividem em duas principais categorias: seqüência lógica e parceria (ou combinação). Nas relações lógicas uma série de combinações podem ser encetadas permitindo o avanço do discurso, tais como as de causa e conseqüência ou as de instrumento e ação. Nas relações de parceria operam mecanismos de repetição. Neste tipo de relação, interagem estratégias de compatibilidade e de contraste. As relações de parceria são largamente usadas em padrões geral-particular, em especial as de generalização-exemplo e as de previsão-detalhes.

Uma das formas de se eliciar as relações é a transformação do monólogo em diálogo. Nesse caso, cria-se um interlocutor virtual que interage com o fluxo informacional do documento. Este interlocutor questiona ou solicita maiores detalhamentos. A análise que completa este artigo exemplifica tais procedimentos.

As relações clausais foram profícuas na determinação dos padrões organizacionais de todos os documentos estudados. Como critério auxiliar, permitiu-me sublinhar as sentenças centrais e analisar intra- e interdocumentalmente os documentos pesquisados. As relações de emparelhamento serviram de norte para a análise contrastiva das sentenças paraconstruídas e de base.

 

2.5 Modelo de Toulmin (1958)

 

Uma vez que concordo com Coracini (1991, p. 190), para quem o documento de divulgação científica é altamente argumentativo, um quinto critério utilizado foi o das categorias componenciais do argumento de Toulmin (1958).

Para esse autor, todo argumento é composto por três partes básicas:

a) dado (D), que é “o ponto de partida do argumento, constituído por afirmações de fatos, citações de autoridade ou afirmações previamente estabelecidas por argumentos anteriores”;

b) premissa (P), que é a “afirmação que justifica o uso dos dados como base para a conclusão e que autoriza o salto mental envolvido na passagem dos dados para a conclusão”; e,

c) conclusão (C), que é a “afirmação, em geral de natureza controvertida, para a qual se busca a adesão de outros e que pode servir como dado ou premissa de um outro argumento”.

Outros três elementos completam o modelo:

a) modalizador (M), cuja “função é expressar o grau de força com que é tomada a conclusão”;

b) refutação (R), cuja “função é estabelecer as condições sob as quais a conclusão não será válida, antecipando uma possível objeção a ela”; e,

c) suporte (S), cuja “função é fornecer mais provas para a aceitação dos dados e/ou premissa e que pode ser constituída por uma afirmação simples ou por um argumento inteiro”.

Uma das vantagens do modelo é a possibilidade de um argumento ter outro argumento como suporte de uma de suas partes e que a conclusão possa passar a dado ou premissa de um outro argumento. Assim, um documento argumentativo freqüentemente será constituído de argumentos de vários níveis, isto é, haverá um argumento de nível 1, correspondente à macro-configuração mais global e genérica, que sintetiza todo o raciocínio desenvolvido, e argumentos de nível 2, 3, ..., n encaixados uns aos outros[21].

 

3 Aplicações do modelo em excerto de artigo

 

Esta seção tem por objetivo apresentar a análise da primeira seção do documento “Perspectivas para o desenvolvimento de vacinas contra a AIDS” de Mauro Schechter[22]. As 36 sentenças iniciais do artigo, comportam-se com o que Silveira (1990a) chama de “contexto”. Para ela, constituem esse rótulo os “acontecimentos antecedentes à pesquisa, mas que ainda são atuais”. O contexto faz parte das circunstâncias que, por sua vez, fazem parte dos antecedentes, ou seja, as causas que originam a pesquisa principal. No caso do documento em destaque, correspondem às causas que justificam a importância das pesquisas em prol do desenvolvimento de vacinas anti-HIV/AIDS.

As nove sentenças iniciais desse bloco fornecem um panorama histórico-quantitativo sobre a doença e sobre as perspectivas epidemiológicas. As duas primeiras sentenças respondem à pergunta “Como foi descoberta a AIDS?”. As sentenças restantes, além de ressaltarem o problema da subnotificação de casos oficiais, sentenças [4] e [5], apresentam um panorama da situação atual do desenvolvimento da doença e projeções para o ano 2000, tanto para o planeta, considerado no seu todo, [3], [6] e [7], quanto para o Brasil em particular, [8] e [9].

Observe-se o excerto:

  Como foi a descoberta da AIDS?

Em 1981, o Center for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos registrou os primeiros casos de uma nova e fatal doença, que se tornou conhecida como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA/AIDS). [1]

Quem eram as vítimas?

Suas vítimas, a maioria homossexuais previamente saudáveis, faleciam de infecções e neoplasias raras que, até então, só acometiam pessoas nascidas com certas deficiências imunológicas ou pacientes cujo sistema imune havia sido enfraquecido pelo uso de agentes imunossupressores. [2]

Forneça dados epidemiológicos:

No final de 1993, mais de 1,5 milhão de casos, ocorridos em mais de 150 países, já haviam sido oficialmente notificados à Organização Mundial de Saúde (OMS). [3]

Compatibilidade: dados epidemiológicos

Contraste: notificação vs. não-notificação

Tal número subestima a real extensão dessa pandemia (epidemia generalizada), já que considerável proporção de casos não é notificada, especialmente em países em desenvolvimento, carentes de infra-estrutura adequada para diagnóstico e vigilância epidemiológica. [4]

Compatibilidade: subnotificação de casos

Contraste: países em desenvolvimento vs. Países desenvolvidos - EUA

Mesmo em países desenvolvidos parece ser substancial a subnotificação, e alguns peritos estimam que, nos EUA, até 30% dos casos não são notificados. [5]

Compatibilidade: dados epidemiológicos

Contraste: 1993 vs. 1992

Em 1992, a OMS estimava que mais de 2 milhões de casos de AIDS já haviam ocorrido no mundo e que mais de 13 milhões de pessoas encontravam-se infectadas pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), o agente etiológico da AIDS. [6]

Compatibilidade: dados epidemiológicos mundiais

Contraste: 1992 vs. 2000

Nessa mesma época, a OMS estimava que até o ano 2000, 30 milhões de adultos e de 5 a 10 milhões de crianças estarão infectados pelo HIV, e terão ocorrido 12 a 18 milhões de casos de AIDS sendo 4 a 8 milhões em crianças. [7]

Compatibilidade: dados epidemiológicos

Contraste: mundo (1992) vs. Brasil (1993)

No Brasil, até o final de 1993, cerca de 45 mil casos já foram oficialmente notificados ao Ministério da Saúde, calculando-se a subnotificação em até 50%. [8]

Compatibilidade: dados epidemiológicos no Brasil

Contraste: 1993 vs. 2000

Há estimativas que indicam que até o ano 2000 alguns milhões de brasileiros estarão infectados pelo HIV. [9]

Da sentença [10] à sentença [17], o tópico do artigo muda e perspectiva o agente da patologia, a saber, o vírus HIV, item lexical que se constitui em ilha de confiança durante o excerto. Além disso, observe-se que as três primeiras sentenças, [10], [11] e [12], comportam-se como argumento fechado nos moldes de Toulmin (1958).

Quadro 1 - Análise argumentativa das sentenças 10-12:

Dado

Veja-se

O HIV pertence à subfamília dos lentivírus dos retrovírus humanos. [10]

Premissa

Ora

Como todos os retrovírus, tem material genético composto de ácido ribonucleico (ARN), e caracteriza-se pela presença de uma enzima denominada Transcriptase Reversa, que permite a transcrição do ARN viral em ácido desoxirribonucleico (ADN). [11]

Conclusão

Então

Tal cópia de ADN é, então, capaz de integrar-se ao genoma da célula hospedeira, passando a fazer parte de seu patrimônio genético. [12]

Entre as sentenças acima, destaquei como central apenas a primeira, dado seu caráter introdutório e dada a necessidade do vírus HIV ser apresentado, dado que o agente etiológico da doença deve ser considerado em um artigo que busca perspectivas para o desenvolvimento de vacinas.

Caracterizado o vírus, o autor responderá que tipo de células são afetadas por ele e como se dá a infecção celular. Isso ocorre nas sentenças [13], [14] e [15]:

 

Que tipo de células são afetadas pelo HIV?

O HIV infecta principalmente, porém não exclusivamente, células que apresentam a molécula CD4+ em sua superfície (principalmente linfócitos t4-Helper e macrófagos). [13]

Explique melhor o que é molécula CD4+:

Essa molécula, que normalmente participa como estrutura estabilizadora do contato entre células do sistema imune no processo de apresentação de antígenos, age como receptor do vírus, mediando a invasão celular. [14]

Observe-se esse detalhe:

Existem mecanismos CD4-independentes de invasão celular por HIV, que, provavelmente, têm papel mais relevante na infecção de macrófagos e de outras células que não linfócitos. [15]

Como se pode ver, a sentença [13] tem estatuto diferenciado das demais que se comportam como coadjuvantes, [14] explicitando melhor a células CD4+ e [15] ponderando sobre os mecanismos CD4-independentes. Isso posto, tão somente a primeira foi elencada como central. As sentenças subseqüentes [16] e [17] procuram responder “qual a conseqüência da invasão celular pelo vírus HIV”.  

Conseqüências da invasão celular:

A conseqüência final da infecção pelo HIV é uma contínua e previsível deterioração do sistema imune, caracterizada pela diminuição progressiva dos linfócitos CD4+, que de início compromete principalmente a imunidade celular. [16]

Compatibilidade: conseqüências da invasão celular

Contraste: anterioridade vs. posterioridade

A AIDS é uma manifestação tardia do processo [17]

O autor apresenta que a primeira conseqüência da infecção pelo HIV é a deterioração do sistema imune, comprometendo o paciente em nível celular até um ponto no qual a AIDS se manifesta. Cumpre-se frisar que as sentenças [16] e [17] podem ser consideradas como centrais, visto que funcionam como conclusão de um argumento subjacente cuja base se inicia em [13] e cuja premissa é expressa por [14]. Observe-se:

Quadro 2 - Análise argumentativa das sentenças 13-14 e 16-17:

Dado

Veja-se

O HIV infecta principalmente porém não exclusivamente, células que apresentam a molécula CD4+ em sua superfície (principalmente linfócitos t4-Helper e macrófagos). [13]

Premissa

Ora

Essa molécula, que normalmente participa como estrutura estabilizadora do contato entre células do sistema imune no processo de apresentação de antígenos, age como receptor do vírus, mediando a invasão celular. [14]

Conclusão

Então

A conseqüência final da infecção pelo HIV é uma contínua e previsível deterioração do sistema imune, caracterizada pela diminuição progressiva dos linfócitos CD4+, que de início compromete principalmente a imunidade celular. [16]

Compatibilidade: conseqüências da invasão celular

Contraste: anterioridade vs. Posterioridade

A AIDS é uma manifestação tardia do processo [17]

Mais adiante, vê-se que a relação [17], “o caráter tardio de manifestação da AIDS”, com [18], a “definição de AIDS”, é mediada pelo subtítulo “O que é AIDS?”, que explicita a relação clausal.

A AIDS é uma manifestação tardia do processo [17]

O que é AIDS?/Defina AIDS:

A AIDS é definida como sendo um estágio avançado de infecção pelo HIV, caracterizado pela ocorrência de infecções oportunistas (assim chamadas porque, em geral, só ocorrem em pacientes imunodeprimidos) e/ou por determinadas neoplasias. [18]

A definição de AIDS [18], dada a sua indiscutível relevância para o artigo é considerada como central. Além do mais, ela inclui a proposição de que é um “estágio avançado de infecção pelo HIV”, implicitando, assim, “manifestação tardia do processo”, encontrada em [17]. 

Retomemos a sentença [18] em conjunto com as sentenças que integram os dois primeiros parágrafos da segunda seção do artigo:

A AIDS é definida como sendo um estágio avançado de infecção pelo HIV, caracterizado pela ocorrência de infecções oportunistas (assim chamadas porque, em geral, só ocorrem em pacientes imunodeprimidos) e/ou por determinadas neoplasias. [18]

Explique melhor:/Como assim?

Assim, o seu diagnóstico fica restrito aos pacientes cuja imunodepressão ocasionada pela infecção do HIV já tenha atingido determinado limiar, tornando-os susceptíveis a doenças que normalmente não ocorrem em indivíduos imunocompetentes. [19]

Caracterize melhor esse limiar:/Que limiar?

Infecções oportunistas só ocorrem a partir de determinado grau de imunodeficiência, o que geralmente corresponde à contagem de linfócitos CD4+ menores que 200 células/mm3 (o valor normal situa-se entre 700 e 1000). [20]

Forneça dados reais:

Como regra geral, pode-se afirmar que raríssimos pacientes atingem tal limiar nos primeiros dois anos após a infecção. [21]

Compatibilidade: limiar

Contraste: dois primeiros anos vs. terceiro ano em diante

A partir do terceiro, aproximadamente 4% dos pacientes ao ano atingirão contagens inferiores a 200 linfócitos CD4+/mm3. [22]

Compatibilidade: limiar

Contraste: primeiros casos vs. média dos casos

Estudos demonstraram que, sem tratamento, são necessários 10 anos, em média, para que esse limiar seja atingido, a contar do momento da infecção. [23]

A sentença [19] explica a definição obtida pela sentença [18]. As sentenças subseqüentes são detalhamentos, desenvolvendo o item lexical chave “limiar” – ilha de confiança lexical (Cavalcanti, 1984). O item “limiar” corresponde ao limite mínimo de linfócitos CD4+ para que o paciente infectado ainda seja considerado imunocompetente e não-aidético. Isso posto, as sentenças [19] e [20] comportam-se como coadjuvantes de [18]. As sentenças [21], [22] e [23] ilustram a evolução da imunodepressão.

Vejamos agora as quatro sentenças subseqüentes:

Cite tratamentos para o HIV/AIDS:

A terapêutica antiretroviral (como o AZT, por exemplo) iniciada no momento correto é capaz de retardar consideravelmente a progressão da imunodeficiência. [24]

Compatibilidade: tratamentos

Contraste: objetivos dos tratamentos (AZT vs. quimioprofilaxia)

Já o emprego de quimioprofilaxia consegue impedir o desenvolvimento da infecções oportunistas mais comuns, como por pneumonia por P. Carinii. [25]

Compatibilidade: tratamentos

Contraste: dissociação vs. associação dos tratamentos

Assim, a associação dessas duas formas de tratamento (antiretroviral e quimioprofilaxia) permite retardar por vários anos o desenvolvimento de AIDS nos indivíduos infectados pelo HIV. [26]

Explicitação do pressuposto da diferença diagnóstica

Contraste: diferença diagnóstica (infecção pelo HIV vs. AIDS)

Dessa forma, é essencial diferenciar-se AIDS de infecção pelo HIV por serem diagnósticos com enorme diferença prognóstica. [27]

Nesse excerto, o autor aborda os tratamentos. A sentença [24] versa sobre a terapêutica antiretroviral, e a sentença [25], sobre a quimioprofilaxia. A sentença [26] engloba-as, permitindo ambientação para [27], onde se alerta para a diferença entre AIDS e infecção pelo HIV, uma vez que “são diagnósticos com enorme diferença prognóstica”[23].

As cinco sentenças subseqüentes são detalhamentos de [24] e [25], dicotomizadas em dados obtidos antes e depois das medidas terapêuticas. Dentro desses agrupamentos, o autor trabalha com a noção de delimitação espacial, começando por aspectos mundiais, passando pelos países em desenvolvimento e chegando ao Brasil, no primeiro caso; e, do mundo para o país, no segundo caso.

Observe-se o esquema do excerto.

Esquema 2 - Análise argumentativo-organizacional das sentenças 28-32[24]

Eis o bloco de sentenças em tela:

 

Forneça dados terapêuticos:

Antes do advento das medicações antiretrovirais e do uso rotineiro de quimioprofilaxia para infecções oportunistas, 50% dos pacientes com AIDS nos Estados Unidos e na Europa morriam após 11 meses do diagnóstico e 100%, após 18 meses. [28]

Compatibilidade: antes do AZT/quimioprofilaxia

Contraste: mundo vs. países em desenvolvimento

Em países em desenvolvimento a sobrevida era ainda menor. [29]

Compatibilidade: antes do AZT/quimioprofilaxia

Contraste: países em desenvolvimento vs. Brasil

No Brasil, no período 1982-1989, ela era estimada em aproximadamente 6 meses. [30]

Compatibilidade: dados terapêuticos

Contraste: antes vs. depois do AZT/quimioprofilaxia

Após o advento daqueles tipos de tratamento, houve aumento significativo da sobrevida após o diagnóstico da AIDS, e hoje, nos países desenvolvidos, a sobrevida média fica em torno de 3 anos. [31]

Compatibilidade: depois do AZT/quimioprofilaxia

Contraste: mundo vs. Brasil

Estudo realizado no Rio de Janeiro mostrou que nos casos de AIDS diagnosticados em 1989-90, a sobrevida dos pacientes, muitos dos quais beneficiados pelo uso de antiretrovirais, foi de aproximadamente 22 meses. [32]

A próxima seção do artigo versa sobre a transmissão virótica. Ela cria ambientação para a segunda parte do documento, a questão das vacinas. Dentre as sentenças em tela, [33] “formas de transmissão” e [34] “intervenções para a contenção da epidemia” constituem-se centrais. As sentenças [35] e [36] merecem observações mais acuradas.

Teoricamente, o autor deveria considerar as três formas de contágio. Entretanto, já em [34] nada se diz a respeito da contenção de contágio por via materna (gestação, amamentação e parto). A sentença [35] apenas versa sobre os resultados dos programas de contenção do contágio via transfusão de sangue, e a sentença [36] sobre os resultados obtidos no campo do contágio por via sexual. Ora, nada se diz a respeito dos usuários de drogas injetáveis e sobre resultados obtidos no campo do compartilhamento de seringas e agulhas. Isso posto, pondera-se em favor da consideração de ambas como intermediárias.

 Quadro 3 - Análise argumentativo-organizacional das sentenças 33-36:

Dado Veja-se  Existem apenas três vias de transmissão do HIV: (1) via sexual bidirecional, isto é, da mulher para o homem e do homem para a mulher, nas relações heterossexuais, e do parceiro ativo para o passivo ou do passivo para o ativo, em relações homossexuais; (2) através de sangue (ou seus produtos) contaminado; (3) da mulher para o seu filho (durante a gestação, no trabalho de parto ou pela amamentação). [33]
Premissa Ora  Desse modo, conter o avanço da epidemia parece depender de intervenções simples: sexo seguro (isto é, com preservativo, método extremamente eficaz na prevenção da transmissão), fiscalização do sangue (ou derivados) usado em transfusões, e limitação do compartilhamento de seringas e agulhas entre usuários de drogas injetáveis. [34]
Conclusão Então

 Nos países desenvolvidos, bem como em vários países em desenvolvimento (incluindo os principais centros urbanos no Brasil), a instalação de programas de triagem dos doadores e do sangue doado foi capaz de, praticamente, interromper a transmissão do HIV por essa via. [35]

Compatibilidade: resultados

Contraste: positivos vs. negativos

Tendo em vista que, em termos mundiais, 90% das novas infecções se dão pela via sexual (a vasta maioria por contato heterossexual) a falta de sucesso da maioria dos programas que visavam a modificar comportamentos sexuais, a exemplo de tantas outras campanhas educacionais, fez com que o desenvolvimento de uma vacina se tornasse a única esperança de se conter o avanço da epidemia de HIV/AIDS. [36]

Optei, no entanto, por considerar a sentença [36] como central, dado que:

a) ao se colocar que “90% das novas infecções se dão pela via sexual (a vasta maioria por contato heterossexual)” e ponderar-se que este fato implica “falta de sucesso dos programas que visavam [a] modificar comportamentos sexuais”, estabelece-se como óbvio que a intervenção, considerada como “simples” em [34], não se confirma na prática desse modo;

b) a sentença [36] permite entrever a importância da vacina dentro desse contexto, implicitando a descrença do autor em tentativas de conscientização de massas. Para ele, a vacina é a “única esperança de se conter o avanço da epidemia HIV/AIDS”; e,

c) a sentença [36] possibilita observar a relevância das seções posteriores, constituindo-se como justificativa suficiente para os esforços de obtenção de uma vacina.

Análise feita, o destaque de sentenças centrais deve estar comprometido com dois pré-requisitos. Em primeiro lugar, deve constituir um resumo informativo e, como tal, ser capaz de dispensar a leitura do original. Em segundo lugar, deve ser capaz de se configurar como um documento, ou seja, por si mesmo, de responder aos quesitos de coesão e coerência tanto intra- quanto interdocumentalmente.

Veja-se a seqüência de sentenças.

Agente etiológico da AIDS:

O HIV pertence à subfamília dos lentivírus dos retrovírus humanos. [10]

Alvo de infecção do vírus HIV:

O HIV infecta principalmente, porém não exclusivamente, células que apresentam a molécula CD4+ em sua superfície (principalmente linfócitos t4-Helper e macrófagos). [13]

Conseqüências da infecção:

A conseqüência final da infecção pelo HIV é uma contínua e previsível deterioração do sistema imune, caracterizada pela diminuição progressiva dos linfócitos CD4+, que de início compromete principalmente a imunidade celular. [16]

Compatibilidade: conseqüências da infecção

Contraste: anterioridade vs. posterioridade

 

Defina AIDS:

A AIDS é definida como sendo um estágio avançado de infecção pelo HIV, caracterizado pela ocorrência de infecções oportunistas (assim chamadas porque, em geral, só ocorrem em pacientes imunodeprimidos) e/ou por determinadas neoplasias. [18]

Cite tratamentos:

A terapêutica antiretroviral (como o AZT, por exemplo) iniciada no momento correto é capaz de retardar consideravelmente a progressão da imunodeficiência. [24]

Compatibilidade: tratamentos

Contraste: HIV vs. AIDS como alvos do tratamento

Já o emprego de quimioprofilaxia consegue impedir o desenvolvimento das infecções oportunistas mais comuns, como por pneumonia por P. Carinii. [25]

Quais são as formas de contágio?

Existem apenas três vias de transmissão do HIV: (1) via sexual bidirecional, isto é, da mulher para o homem e do homem para a mulher, nas relações heterossexuais, e do parceiro ativo para o passivo ou do passivo para o ativo, em relações homossexuais; (2) através de sangue (ou seus produtos) contaminado; (3) da mulher para o seu filho (durante a gestação, no trabalho de parto ou pela amamentação). [33]

Dado vs. Premissas

Desse modo, conter o avanço da epidemia parece depender de intervenções simples: sexo seguro (isto é, com preservativo, método extremamente eficaz na prevenção da transmissão), fiscalização do sangue (ou derivados) usado em transfusões, e limitação do compartilhamento de seringas e agulhas entre usuários de drogas injetáveis. [34]

Premissa vs. Conclusão Adversativa

Tendo em vista que, em termos mundiais, 90% das novas infecções se dão pela via sexual (a vasta maioria por contato heterossexual) a falta de sucesso da maioria dos programas que visavam a modificar comportamentos sexuais, a exemplo de tantas outras campanhas educacionais, fez com que o desenvolvimento de uma vacina se tornasse a única esperança de se conter o avanço da epidemia de HIV/AIDS. [36]

Como se pode perceber, os tópicos centrais desenvolvidos pelo bloco foram contemplados nesse conjunto de sentenças. Tal como no documento de origem, a seqüência tematiza: a) o vírus HIV, definindo-o, apresentando as células afetadas, descrevendo a conseqüência de sua presença no organismo humano, a deterioração do sistema imune e, mais tarde, a AIDS; b) a AIDS, definindo-a; c) os tratamentos para a infecção pelo HIV e para a AIDS; d) as formas de contágio e de prevenção; e, e) a necessidade do desenvolvimento de vacinas, posto o insucesso das campanhas em nível de prevenção da transmissão virótica pela via sexual.

A leitura do excerto, acrescente-se, corrobora a hipótese de que é possível o destaque de sentenças integrais do documento para que, sem esforço adaptativo maior, organizem-se resumos do documento de origem. A análise coesiva, feita nos moldes de Hoey (1991), permitiu-me observar a alta conectividade do conjunto das sentenças destacadas. Além disso, é possível destacar o item lexical “HIV”, como ilha de confiança lexical, dominando o excerto.

 

Referências

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Notas


* Este artigo adapta seções introdutórias do capítulo 3 de tese intitulada "Influência do sublinhado na produção de resumos informativos", UFSC, 1996.

** Professor e Coordenador do Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul; Mestre e Doutor em Letras/Lingüística pela Universidade Federal de Santa Catarina.

[1] Hoey (1991, p.  26 ss) pondera que a procura por uma estrutura textual é sintoma de um fenômeno de deslocamento conceitual, consistindo na utilização de um termo familiar como metáfora para a descrição de uma situação nova. No caso, refere-se ao uso do referencial da frase como explicação do universo textual.

[2] Essa postura evitaria os inconvenientes da explosão de modelos e/ou consideração de exceções, invariavelmente presentes numa postura estrutural.

[3] Vejam-se as superestruturas de van Dijk (1980, 1983, 1986, 1992).

[4] A noção de padronização matizará todas as considerações deste trabalho de um caráter organizacional, evitando problemas de engessamento causados por propostas estruturais.

[5] Para uma visão mais detalhada, inclusive exemplificação, veja-se Hoey (1991, p.  31-2).

[6] Confira-se Hoey (1983, p. 15)

[7] 1. Confira-se Lobato (1986, p.  111).  2. Corresponde à noção de período da gramática tradicional.

[8] 1. Cláusula é a construção gramatical correspondente: 1) aos domínios dos sintagmas imediatamente derivados da sentença radical; 2) às sentenças constituintes de uma composição; 3) às sentenças dominadas por sintagmas nominais, adjetivais ou adverbiais (cf. Lobato, 1986, p.  111 ss).  2. Corresponde à noção de oração na gramática tradicional.  3. Veja-se também a definição de Hoey (1983, p.  15).

[9] Ressalte-se que neste trabalho não há qualquer preocupação em advogar que os destaques produzidos sejam perfeitos. Isso é defender a monossemia. O que chamo de sublinhado adequado apenas implica considerá-lo como pertinente para a elaboração de um resumo informativo.

[10] Reitere-se que esta pesquisa considera o documento científico como argumentativo-expositivo.   

[11] Estudando vários artigos de divulgação científica de “Ciência Hoje”, percebi que a maioria contém entre 60 e 100 sentenças. Esse número permite que a densidade para o sublinhado fique em torno do que a literatura traz como razoável, isto é, entre 25%, ou seja, 1/4  das sentenças do documento de origem, e 1/3, ou seja, 33,3% dessas sentenças (Flôres et alii, 1994). Ilustrativamente, dado um documento de 96 sentenças, o critério quantitativo permite destacar entre 24 (1/4) e 32 (1/3) sentenças.

[12] Hoey (1991, p.  58-69) organiza quatro fluxogramas para orientar a delimitação dos vínculos.

[13] 1. Hoey já demonstra certa preocupação com questões ligadas à polissemia (Hoey, 1991, p. 53-4).  2. Grimm-Cabral (1994) discute problemas causados pela metáfora na determinação dos vínculos.

[14] Ressalte-se que este tipo de elo é de difícil automação, uma vez que necessita do conhecimento enciclopédico (declarativo) do leitor para que possa ser calculado.

[15] O autor pondera que a relação inversa (e.g. “biólogos” vs. “cientistas”) é discutível porque pode não possuir o segundo elemento a mesma referência do primeiro (“cientistas” equivale a “só os biólogos?”) (Hoey, 1991, p.  70).

[16] Vejam-se Soares e Nascimento (1978).

[17] Segundo Cavalcanti (1984, p. 174-5) itens associativos são combinações lexicais que ocorrem em pares ou cadeias e que não têm necessariamente identidade referencial; itens iterativos representam a repetição com identidade referencial dos itens lexicais-chave dos documentos.

[18] “Expressões indexicais” são índices de experiências passadas e presentes que exigem a atribuição de significado que vai além daqueles dados pelo dicionário (Cavalcanti, 1984, p. 172).

[19] O autor usa o termo estrutura.

[20] A autora trabalha com a noção de superestrutura.

[21] Pode-se supor, em nível teórico, que a aplicação cíclica de estratégias que reduzam os argumentos se dê de forma a apagar ou integrar primeiro argumentos de nível 3, depois de nível 2 e, finalmente, de nível 1. Tais não foram os resultados de Barros e Rojo (1984, p. 51), visto que não se revelaram processos homogêneos e mecânicos como este, embora se pudesse entrever alguns processos comuns. 

[22] Para efeitos de apresentação da análise, dividi o documento de base em dois blocos principais, apoiando-me na padronização de Silveira (1990a). No primeiro, apresentam-se elementos circunstanciadores do problema central, ou seja, o desenvolvimento de uma vacina anti-HIV/AIDS. No segundo bloco, elencam-se os principais percalços para esse desenvolvimento, além de perspectivar-se a “teoria Salk” como possível solução para o problema.

[23] Dada a importância das terapias, elenquei como centrais as duas primeiras sentenças, [24] e [25], embora reconhecendo a pertinência, tanto de [26], quanto de [27]. Nesse caso em particular, poder-se-ia ter optado por destacar as duas últimas e ignorar as primeiras.

[24] Por este termo quero indicar a combinação de elementos dos vários critérios utilizados na análise de cada conjunto de sentenças, em especial, o modelo de Toulmin (1958) e de HOEY (1983).

 

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